A angolanidade como identidade política

A Opinião de Filipe Zau, Ph. D em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais

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Filipe Zau

A cor da pele não é um elemento absoluto de identidade e assim sendo, torna-se difícil considerar a existência de uma “identidade negra”, uma “identidade branca” ou uma “identidade amarela”.

Em 1945, depois da II Guerra Mundial, a UNESCO solicitou a biólogos o conceito científico do termo “raça” e estes, concluíram que “a espécie humana tinha uma única origem e que as chamadas raças da humanidade eram estatisticamente apenas grupos distinguíveis”. Assim sendo, os aspectos biológicos, contrariamente aos factores de ordem cultural, histórica, e política, deixaram de se constituir em vertentes de identidade.Em Angola, por exemplo, as vertentes de identidade estão relacionadas com:
– As raízes de uma mesma pertença cultural de origem bantu;
– O resultado de um contacto histórico de meio milénio com os portugueses;
– Factores ideológicos provocados pela reivindicação nativista e proto-nacionalista que, entre outros, estão na génese do nacionalismo moderno angolano; e
– Com a guerra como factor dissociativo e associativo.

Por conseguinte, não com a cor da pele dos angolanos, nem com qualquer falso conceito de “raça”, que deverá, evidentemente, estar ausente da inculcação do conceito de angolanidade. Segundo Ruy Duarte de Carvalho procura-se, em Angola, uma identidade que se adapte às configurações sociológicas que decorrem do aparecimento do Estado (enquanto entidade política) e já não daquelas que o terão precedido. Isto mesmo quando se torna possível associar configurações sociológicas aos chamados Estados “pré-coloniais”.É, também, neste contexto que o escritor nigeriano ChinuaAchebeafirma o seguinte:
“É verdade, é claro, que a identidade africana ainda está em processo de formação. Não há uma identidade final que seja africana. Mas ao mesmo tempo existe uma identidade nascente. E ela tem um certo contexto e um certo sentido. Porque, quando alguém me encontra, digamos numa loja de Cambridge e indaga: ‘Você é de África?’ O que significa que África representa alguma coisa para algumas pessoas. Cada um destes rótulos tem um sentido, um preço e uma responsabilidade”.

Émile Durkheim, um dos clássicos da sociologia, afirmava que uma sociedade é constituída, acima de tudo, pela ideia que os indivíduos têm de si mesmos (e não apenas pelo conjunto de pessoas que a compõem), pelo território que ocupam, pelas coisas que utilizam e pelos actos que realizam. Ao determinar os códigos, os processos e as situações que servem de base à produção da auto-imagem colectiva, que qualquer sociedade enaltece como uma representação cultural definida e produzida por um grupo de indivíduos, leva-nos a concluir que a noção de nação não dispensa o parâmetro da identificação entre os sujeitos que a hão-de construir.

Daí que Mário de Andrade, segundo Victor Kajibanga, o decano da sociologia angolana, ao apresentar o conceito de angolanidade, foi muito claro a fazer a diferença entre as vertentes de identidade, daquelas que não o são. É no contexto da unidade na diversidade; ou seja, no somatório cultural de todos os grupos sociais, conhecidos ou não, que alguma vez tenham afluído ao solo pátrio, que Mário de Andrade afirmou, ainda antes da independência de Angola, o seguinte:
“A angolanidade requer enraizamento cultural e totalizante das comunidades humanas, abarca e ultrapassa dialecticamente os particularismos das regiões e das etnias em direcção à nação. Esta opõe-se a todas as variantes de oportunismo (com as evidentes implicações políticas) que procuram estabelecer uma correspondência automática entre a dose de melanina e a dita autenticidade angolana. Ela é, pelo contrário, linguagem da historicidade de um povo.”

Talvez toda esta complexidade, em que navega a questão da identidade, tenha levado Arlindo Barbeitos a manifestar num dos seus poemas o seu repúdio pela mesma e a considerá-la uma fantasia social quando refere o seguinte: “A identidade/ ou/ voo esquivo de pássaros nocturnos/ em torno da lua/ Identidade/ é cor/ de burro fugindo”. Na opinião de AminMaalouf, “a identidade não é algo que nos seja entregue na sua forma inteira e definitiva; ela constrói-se e transforma-se ao longo da nossa existência.”

Kwame Anthony Appiah, por seu turno, chama a atenção para a ideia errada que se tem de África como um todo, como “a single continuum”; ou seja, um continente racialmente negro. Para ele, esta ideia é reducionista e foi desenvolvida pela cultura ocidental no século XIX, sendo depois apropriada pelos pan-africanistas. Afirma também que “(…) a raça, uma experiência histórica comum, ou uma metafísica compartilhada, pressupõe falsidades sérias demais para que as ignoremos” e refere o seguinte, no sua obra intitulada “Na casa de meu pai”:
“ (…) Muitas vezes, quem diz isto – quem nega a realidade biológica das raças ou a verdade literal de nossas ficções nacionais – é tratado pelos nacionalistas e pelos ‘adeptos da raça’, com se estivesse propondo o genocídio ou a destruição das nações, como se, ao dizer que literalmente não existe uma raça negra, tivesse obliterado todos aqueles que afirmam ser negros (…). Sou aplicado o bastante para me sentir atraído pela enunciação da verdade, mesmo que o mundo venha abaixo; e sou animal político o bastante para reconhecer que há lugares em que a verdade prejudica mais do que ajuda”.

* Ph. D em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais

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