Criado em 2011 pelo gigante chinês da Internet Tencent, o Wechat atingiu recentemente mil milhões de perfis de utilizadores.

Aquela ‘app’, que une as funções de rede social e carteira digital, é usada no país asiático para fazer compras, através da leitura do código QR, chamar um táxi, apanhar o metro, ou pagar luz e água ou impostos.

Um projeto-piloto lançado no mês passado pelo governo de Cantão, a terceira maior cidade do país, permite aos cidadãos residentes num dos distritos da cidade criar um bilhete de identidade virtual, através da aplicação, que substitui o documento físico.

No entanto, num ‘ranking’ elaborado pela Amnistia Internacional (AI) sobre proteção da privacidade ‘online’, o Wechat surge no último lugar de uma lista com 11 aplicações de mensagens instantâneas, com zero pontos em cem possíveis.

Dados dos utilizadores do Wechat, que incluem hábitos de consumo, fotografias, vídeos, localização, contactos ou conversas pessoais, são “vulneráveis ao escrutínio arbitrário do Governo chinês”, lembra a AI.

Segundo a política de privacidade daquela ‘app’, a Tencent é obrigada a “disponibilizar dados” dos usuários, caso exista “uma ordem ou intimação judicial” ou se “requerido por autoridades governamentais ou agências de aplicação da lei”.

Nas cidades chinesas, existem já câmaras de vídeo instaladas em todas as vias públicas, transportes e estabelecimentos, que aliadas a um sistema centralizado de reconhecimento facial, que está a ser desenvolvido pelo Ministério de Segurança Pública, permitirão registar os movimentos de boa parte da população.

Regulamentos emitidos no ano passado garantem que o escrutínio abarca também o ciberespaço, ao punir os usuários por infrações como “difusão de rumores” ou insultos nas redes sociais, e ao estipular que as empresas do setor verifiquem as identidades reais destes.

Desde então, várias pessoas foram detidas ou condenadas à prisão no país por comentários em grupos ou conversas privadas no Wechat, sob acusações como “causar distúrbios” ou “usar ilegalmente informação e a Internet”.

Num dos casos mais conhecidos, um homem foi condenado a dois anos de prisão por “perturbar as ordens administrativas para a atividade religiosa”, depois de ter ensinado o Alcorão a amigos e familiares através do Wechat.

Num outro exemplo relatado esta semana pela imprensa local, um homem foi detido por “período indefinido”, após ter alterado partes de uma conhecida canção chinesa com piadas sobre a polícia de trânsito da sua cidade, e partilhado com amigos através daquela aplicação.

A falta de sentido de humor das autoridades chinesas é ainda mais difícil de contornar quando não há alternativas: redes sociais como o Facebook, Twitter e Instagram, ou o serviço de mensagens Whatsapp, estão bloqueados no país.

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