Embora não haja informações oficiais sobre o desempenho dos índices de criminalidade no período, os noticiários permanecem focados em tiroteios, assaltos e assassinatos diários na capital ‘carioca’ e na sua região metropolitana.

O general Walter Braga Netto, nomeado chefe das policias e do Exército do Rio, organizou operações pontuais em algumas favelas, mas não anunciou um plano de segurança que possa reverter a sensação de medo que toma os moradores e as ruas.

Ignácio Cano, pesquisador do Laboratório de Análise da Violência (LAV) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), analisou o primeiro mês de intervenção e disse à Lusa que não verificou qualquer sinal de mudança.

“Não aconteceram grandes mudanças e nem houve um policiamento muito ostensivo no período. Temos que aguardar os dados oficiais para conhecer os índices de criminalidade”, mas parece que “nada de muito significativo aconteceu”, afirmou.

Já Francisco Fonseca, cientista social e professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) considerou que a intervenção federal teve como objetivo principal melhorar a popularidade do Presidente Michel Temer e, por isto, não obteve nem alcançará os resultados esperados.

“O exército nas ruas é um espalhafato. Algo para fazer barulho, que não vai resolver nada”. A “intervenção tem objetivos políticos e o corpo militar sequer está preparado para atuar em conflitos urbanos”, explicou.

A violência que prejudica o dia a dia dos ‘cariocas’ tornou-se mais explícita na última quarta-feira, quando Marielle Franco, vereadora [membro da câmara municipal] e ativista de direitos humanos, e o seu motorista, Anderson Gomes, foram assassinados brutalmente.

A morte da vereadora, que militava num partido de esquerda e criticava publicamente a intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro denunciando abusos das policias e soldados, despertou reações imediatas de indignação e choque.

Milhares de pessoas saíram às ruas para homenageá-la e para mostrar indignação contra os constantes ataques sofridos pela população negra das periferias brasileiras.

O Governo e órgãos de Justiça do país condenaram o ataque e comprometeram-se em punir os autores do crime.

A ONU, a Amnistia Internacional e a Human Rights Watch (HRW) também exigiram uma investigação rápida do caso.

Para Francisco Fonseca, há indícios de que o assassinato da Marielle Franco foi premeditado por setores da polícia militar (estadual) que foram criticados duramente pela ativista, procurando deixar duas mensagens à opinião pública.

“A primeira mensagem é para os moradores das comunidades pobres e para os defensores dos direitos humanos. Ela diz: ‘fiquem no seu lugar e não ousem se rebelar'”, disse o docente universitário.

Como a intervenção federal não foi discutida nem planeada com antecedência pelo Governo Federal, o investigador considera que esta execução procurou ser também uma demonstração de força de agentes da polícia militar perante o Exército.

“O segundo recado é que as policias do Rio de Janeiro são autónomas perante as Forças Armadas e [o assassinato de Marielle Franco] diz algo como ‘vocês não vão nos deter’. Me pareceu que há esta segunda mensagem também, embora, não tenhamos todos os elementos para comprová-la”, acrescentou.

Já Ignácio Cano, da UFRJ, remeteu para mais tarde um comentário sobre o simbolismo desta execução.

“É preciso desvendar o caso e saber quem está por detrás dele”. No entanto, “independentemente de qualquer coisa, queremos que o caso seja resolvido. Quem cometeu este crime agiu com uma confiança de impunidade, com uma certeza de que nada iria acontecer, que atacou alguém de grande visibilidade social e política. Nós temos que mostrar [aos autores do crime] que eles estão errados”, concluiu.

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