Habituado a um estilo mais desportivo, o criador português Pedro Pedro mostrou uma “coleção muito diferente” e “muito mais formal” no primeiro dia do evento, que decorreu no terminal de cruzeiros de Lisboa, contando a história de “uma rapariga que fica um bocadinho mais adulta”, segundo disse à agência Lusa.

“Todas as estacões tenho feito roupa casual e desportiva e, desta vez, apeteceu-me mudar”, justificou Pedro Pedro, notando que a mudança fez sentido agora devido “a este clima de as mulheres fazerem-se ouvir mais e terem uma voz muito mais ativa e interventiva em relação aos seus direitos.

Por isso, criou a coleção “Le Bureau” (“O Escritório”), na qual trabalhou um visual para o trabalho, mantendo, contudo, traços como “as formas ‘oversized’ [sobredimensionadas], as camadas e os comprimentos longos”, apontou.

Da coleção (apenas para mulher) sobressaíram, também, os tons de mel, preto e branco, azul, laranja e verde e materiais como o algodão, sarja, lã e impermeáveis.

A independência da mulher também dominou a coleção “Vinte e quatro horas” do criador Carlos Gil, na qual quis mostrar uma “mulher dos dias de hoje, que trabalha, que cuida da família, mas que nunca se esquece dela própria”, segundo explicou à Lusa.

“Ela veste-se de manhã para trabalhar, mas tem sempre algo reservado para, no final do dia, quando tem uma festa, poder dar um apontamento de brilho para continuar o dia”, apontou o criador, falando numa mulher “muito sofisticada, mas muito confortável”.

Entre as apostas estavam os padrões coloridos, as riscas, os brilhos e os tons metalizados.

A visão de uma mulher mais citadina também marcou a coleção da dupla Alves/Gonçalves, que se baseou na “rua, na cidade, no ritmo urbano e nas novas temáticas ao nível das artes”, disse o criador Manuel Alves à Lusa.

“Tentámos ir ao encontro a conjugações que, de algum modo, são consideradas quase incompatíveis, fugimos ao classicismo a favor de um vestuário mais criativo e mais jovem”, sintetizou o ‘designer’.

Neste primeiro dia do Portugal Fashion, foi também abordada a desconstrução do ser, desde logo no desfile encenado da dupla Storytailors.

Em tempo real, os dois criadores (vestidos com um fato macaco e de cara tapada) iam desconstruindo os seus coordenados — masculinos e femininos –, no qual separavam calças ou juntavam metades de casaco através de fechos metálicos.

O objetivo foi criar um “manifesto sobre tolerância, compreensão, igualdade e sobre amor”, explicou à Lusa João Branco, da dupla, justificando ainda o uso de capicuas (na hora exata do desfile – 14:41 – ou no nome da coleção – “111” -) com a tentativa de transmitir “energia positiva”.

Numa coleção mais autobiográfica, mas também pautada por desconstruções (em peças como camisas e em elementos como os cabelos e a maquilhagem), Alexandra Moura trouxe à ‘passerelle’ referências como os filmes Blade Runner e E.T. e as bandas Jesus and Mary Chain, The Smiths e My Bloody Valentine, que a ajudaram a “construir como pessoa”.

“É uma coleção em que voltei muito atrás no tempo – aos anos 1970 a 1990 – e estive ali numa fase de criança até à minha adolescência”, assinalou, falando que isso ditou a aposta em peças assimétricas, florais, mas também psicadélicas.

Hoje, houve ainda tempo para a apresentação das coleções da criadora Susana Bettencourt e da marca TM Collection de Teresa Martins, que apostaram, respetivamente, numa alusão à década de 1980, quando havia “ainda havia o contacto real e amigos tocáveis”, e numa viagem à floresta com tons azuis e verdes e em silhuetas fluidas.

O evento prossegue no Porto entre quinta-feira e sábado, num total de 34 desfiles nesta edição.

Promovido pela Associação Nacional de Jovens Empresários (ANJE) em parceria com a Associação Têxtil e Vestuário de Portugal, o evento (com uma verba superior a 500 mil euros) é cofinanciado em 85% pelo Portugal 2020, no âmbito do Programa Operacional da Competitividade e Internacionalização — Compete 2020, através do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional.

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