“Compartilho dessa ideia que vem sendo expressa que para se fazer um processo consistente de internacionalização da literatura cabo-verdiana é necessário que haja um trabalho dos autores, por um lado, e também de investimentos do Governo”, considerou.

A escritora falava à agência Lusa dias antes de partir para Malta, onde será uma das convidadas internacionais no Festival Literário daquele país europeu, que arranca na quarta-feira, no qual vai falar da importância da diáspora para a internacionalização da literatura cabo-verdiana.

Vera Duarte salientou que vai muito ao Brasil e a outros países, mas quase sempre como convidada das autoridades locais.

“Mas sempre haveria necessidade para ajudar neste processo [de internacionalização da literatura] que o próprio país tivesse a possibilidade, por exemplo, através de um adido cultural nas embaixadas, ou alguém ligado à literatura que pudesse fazer a promoção da literatura cabo-verdiana”, sugeriu.

Apesar de tudo, a escritora considerou que “alguma coisa vem acontecendo” e que a atribuição este ano do Prémio Camões ao escritor cabo-verdiano Germano Almeida é um “momento alto” que permite dar visibilidade às literaturas do país.

Nos últimos dois anos, Vera Duarte enumerou igualmente três eventos que têm dado visibilidade à literatura cabo-verdiana, nomeadamente o festival Morabeza, organizado pelo Governo, o festival de Literatura Mundo da ilha do Sal, realizado pela editora Rosa de Porcelana, e o 7º Encontro de Escritores de Língua Portuguesa – este ano o 8º também será na Praia – uma parceria entre a Câmara da Praia e a União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA).

“Acho que todo este movimento contribuiu para que os olhares do exterior se virem um bocadinho para a literatura que se faz nestas ilhas e contribui, naturalmente, para este processo de internacionalização da literatura cabo-verdiana”, reforçou.

No ano em que La Valeta é capital europeia da cultura, o Festival Literário de Malta tem como tema genérico a “Literatura e a Diáspora”, durante a qual Vera Duarte disse que vai falar sobre a diáspora cabo-verdiana, que começou a aparecer logo a seguir ao início do povoamento do país.

Mas também quer evocar os vários escritores que começaram a introduzir a literatura cabo-verdiana na diáspora, como Luís Romano (Brasil), Teobaldo Virgíneo (Estados Unidos), Daniel Filipe (Portugal), Mário Fonseca, Orlanda Amarílis.

“Irei demonstrar sobretudo que em Cabo Verde temos uma visão muito igualitária do escritor no interior das ilhas e na diáspora, contrariamente a muitos países em que tratam com algum preconceito o escritor da diáspora”, constatou à Lusa.

A ex-presidente da Academia Cabo-verdiana de Letras (ACL) e membro da Academia de Ciências de Lisboa notou que mesmo os escritores que vivem no país acabam por passar a sua escrita pelas várias diásporas cabo-verdianas, que somam mais pessoas do que os cerca de meio milhão e meio residentes no arquipélago.

Por essa questão numérica, a escritora considerou que a diáspora faz com que a voz que sai das “pequenas ilhas” fique maior e que contribui para a internacionalização da literatura do país.

Além da conferência de abertura, que será na quarta-feira, 07 de novembro, Vera Duarte, que este ano comemora 25 anos da primeira publicação, vai ainda participar em duas entrevistas públicas e terá oportunidade de levar livros para vender e expor no Festival Literário de Malta.

Considerando como o mais importante evento literário do país europeu, o festival abre ao público na quarta-feira e prolonga-se até domingo, dia 11, com a presença de autores e escritores locais e estrangeiros e um vasto programa cultural.

Vera Duarte estreou-se na literatura em 1993, com o livro de poesia “Amanhã Amadrugada”, seguindo-se depois “O arquipélago da paixão” (2001), “Preces e súplicas ou os cânticos da desesperança” (2005), “Exercícios Poéticos Romance” (2010), “A candidata Ensaios” (2003) e “Construindo a utopia” (2007) e “De Risos e Lágrimas” (2018).

“A Candidata”, lançado em 2004 e que recebeu o Prémio Sonangol de Literatura, e “Matriarca – Uma história de Mestiçagens” (2017) são os dois romances da escritora cabo-verdiana, ativista dos direitos humanos, que em 1995 recebeu o Prémio Norte-Sul do Conselho da Europa.

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