“É sempre uma consideração particular, um gesto de amor e de consideração por aquilo que fazemos já há 26 anos e que tem a ver com um percurso de empenhamento e de convocação permanente. Nem sempre é fácil mantermos um nível de exigência e de qualidade permanente ao longo de tantos anos de existência. É um grande abraço que vem de vários países da Lusofonia”, disse Natália Luiza, que, a par de Miguel Seabra, compõe a direção da companhia portuguesa Teatro Meridional.

No ano em que comemora uma década de existência, o Festlip reforça a ligação entre os países lusófonos, como é disso exemplo a apresentação do espetáculo Sonoridade Poética, dirigido por Miguel Seabra e que reunirá, pela primeira vez, atores dos nove países que têm o português como língua oficial — Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste.

Para Natália Luiza, é fundamental a preservação dessa identidade unificadora que é a língua portuguesa e que, na sua diversidade de sotaques, a tornam em algo único.

“Uma das coisas que considero mais bonito é nós podermos entender-nos mantendo aquilo que é diferente. Não acabar com os sotaques locais e não estarmos todos a tentar falar da mesma maneira. A peça `As Centenárias`, que o Teatro Meridional traz, é um exemplo que pode caracterizar este movimento que nos une e que une a língua portuguesa”, garantiu Natália.

O texto d`”As Centenárias” parte de um conto tradicional português e, nesta versão do dramaturgo contemporâneo brasileiro Newton Moreno, conta a história de duas carpideiras do nordeste brasileiro que reacendem a profissão de carpir os mortos, retomando uma tradição que foi extinta em Portugal nos anos 1970.

A companhia portuguesa será também responsável por dois `workshops`. Um de cenografia, ministrado por Natália Luiza e pelo cenógrafo Marco Fonseca, que se aproveitará da construção cénica da peça “As Centenárias”, com técnica criada pela cenógrafa Marta Carreiras, e outro — “E se um dia, tudo” –, voltado para atores, bailarinos profissionais e encenadores, conduzido por Miguel Seabra.

A fechar a participação do Teatro Meridional na programação, Natália Luiza junta-se à atriz brasileira Zezé Motta, no recital de poesia “Elas”, nos jardins da Casa Firjan, no Rio de Janeiro.

A décima edição do Festlip tem ainda a particularidade de, pela primeira vez, transmitir `online` toda a programação do evento, tendo como tema “derrubar barreiras com a tecnologia”, afirmou Tânia Pires, diretora artística do evento.

“Este ano temos o `Festlip_On` e o tema dele é exatamente poder quebrar fronteiras com a tecnologia. Toda a programação do festival vai ser transmitida via `streaming` (transmissão ao vivo através da internet) para todo o mundo. Dessa forma, quebramos fronteiras e aproximamos o público”, disse Tânia Pires em entrevista à agência Lusa.

Com esta abrangência tecnológica, a organização do evento espera alcançar, até ao dia 11 de novembro, data de encerramento do festival, cerca de 25 milhões de espectadores, muito devido à transmissão proporcionada por emissoras de Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Timor Leste, assim como da Europa.

“Com essa transmissão, conseguimos abraçar um público mundial muito grande”, garantiu a responsável pela iniciativa, que admitiu ter sentido muitas dificuldades na montagem desta edição do Festlip.

“O balanço [dos dez anos de Festlip] é bem positivo, mas claro que o Brasil e o mundo estão a passar por um momento complexo. Este ano montámos o festival com um esforço muito grande, mas foi um resultado de uma colaboração de todos os países envolvidos no festival”, afirmou a curadora do evento.

Falando ainda no momento político que o Brasil atravessa, Tânia Pires reiterou que não vai parar de lutar pela divulgação cultural no seu país.

“Nós, artistas, tentamos levantar essa bandeira de mostrar para o Governo e gestores o quanto a arte é essencial. Eu acho que o país não caminha sem arte e cultura, porque é o alicerce de uma sociedade, do conhecimento. Esperamos contar com a parceria do Governo e o nosso papel agora é mostrar o quanto pode transformar a nossa sociedade”, declarou.

Durante os três dias do certame, o Festlip_ON ocupará espaços como o Teatro Firjan SESI Rio, Casa Firjan e o Zazá Bistrô, no Rio de Janeiro, com a tradicional mostra `gourmet`, criada pela `chef` Flávia Campos.

No âmbito do festival, decorrerá também o Festlipinho, com atividades destinadas ao público infantojuvenil, no Morro de São Carlos – “o Rolezinho da Língua Portuguesa”, que consiste num encontro dos nove atores dos países lusófonos com jovens da comunidade, entre os 10 e os 15 anos, para uma troca de histórias, tradições e culturas através da música e do teatro.

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