Moçambique: Chissano diz que população não queria saber do diálogo com Renamo

Joaquim Chissano conta que antes do início das negociações, em Roma, percorreu todos os distritos para perguntar à população se podia ir ao diálogo com a Renamo e a resposta foi não

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No dia (04 de Outubro) em que Moçambique celebrava os 25 anos do Acordo Geral de Paz, Joaquim Chissano recuou no tempo para fazer revelações sobre a forma como a população (com a qual contactou) reagiu à ideia do diálogo com a Renamo. Antes de partir para as negociações de Roma, o antigo estadista diz que escalou todos os distritos para perguntar à população se aceitava que ele fosse negociar com a Renamo o fim da guerra. “Não foi uma coisa fácil”, lembra, justificando que a população sempre dizia que o Presidente da República não devia ir dialogar com a Renamo. “Por que não devo ir? A população respondia dizendo que eles são criminosos, são isto… Então, como é que vamos acabar com a guerra, com o conflito, com a destruição? Disseram que compreendemos, mas você não vai”. Perante a resistência, Chissano perguntou se podia delegar alguém para ir negociar a paz. A população cedeu, mas colocou uma condição: “Primeiro, eles devem deixar as armas, só depois disso podem falar”.

O antigo Presidente da República diz que, depois de tanta insistência, conseguiu o aval para ir ao diálogo, mas teve que colocar uma segunda pergunta à população. “Se eles deixarem as armas e voltarem para casa, porque são vossos irmãos, primos, pais, tios, etc., será que vocês estão dispostos a recebê-los, a acomodá-los, a tratá-los de igual para igual, a abraçá-los, a beijá-los? Eles disseram nunca”. Chissano lembra que foi preciso um debate aturado que durou quase um ano para convencer a população a aceitar a reconciliação. “Há distritos onde tive mais dificuldades, por exemplo, o distrito de Guro, em Manica. Ali, eles não queriam nada. E um outro distrito de Nampula, onde disseram nunca. E estavam meio vestidos de cascas de árvores, as crianças não traziam roupa. Diziam que não podiam beber água de um rio porque estava cheio de sangue, por isso, disseram que nunca haveriam de aceitar que esses homens voltassem às suas casas para conviver com eles. Foi preciso uma discussão muito aturada. Estavam comigo oito embaixadores europeus e africanos, assistiam a isso”.

Para o signatário do Acordo Geral de Paz, a reconciliação não deve ser entendida como sendo algo entre a Frelimo e Renamo, “é entre os cidadãos que vivem na mesma comunidade”.

O antigo Chefe de Estado falava num encontro de reflexão organizado pela Associação Ilhas da Paz, para assinalar a passagem dos 25 anos do Acordo Geral de Paz. Chissano lembrou-se do “grande abraço a Dhlakama”: “Um abraço que não tem fim e não deve ter fim. Por isso, continua o diálogo, porque queremos renovar aquele abraço de 4 de Outubro de 1992”.

Católicos não foram os primeiros a envolver-se no processo de paz

Joaquim Chissano disse que os bispos católicos não foram os primeiros a envolver-se no processo da busca pela paz. “Foram os do Conselho Ecuménico. Durante uma visita, eles disseram ‘a situação está muito difícil para si, senhor Presidente, mas se quiser, nós podemos procurar um interlocutor da Renamo’. Eu disse bem-vindos, porque era exactamente o que estava à procura. Mas eles retorquiram: ‘mas nós não vamos fazer isso sozinhos, temos que envolver a Igreja Católica’. Eu disse deixem isso comigo. De seguida, convidei todos os bispos católicos para um encontro, onde expus essa preocupação dos cristãos protestantes”, contou.

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