O que Bolsonaro e Moro colocam em jogo juntos

A Opinião de Juan Arias

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Juan Arias, espanhol, filólogo, escritor

Deixo para outros analistas interpretar o significado político da nomeação do juiz Moro como superministro da Justiça, e o que isso possa significar retroativamente em relação às sentenças emitidas pelo juiz no passado, inclusive a mais clamorosa, a que acabou levando o ex-presidente Lula à prisão e o impediu de disputar as eleições.

O que para muitos ainda representa uma grande incógnita com relação a essa nomeação, na qual o presidente eleito Bolsonaro lhe concedeu poderes que nenhum outro ministro teve no passado, é o que ambos colocam em jogo com tão importante decisão.

Não é difícil imaginar que Moro tenha pensado bem o que sua nomeação como ministro da Justiça poderia significar para seu presente e seu futuro, e sobre as críticas de oportunismo que cairiam sobre sua cabeça, como já está acontecendo. Trata-se de um juiz que, sem sair da primeira instância, já ganhou o aplauso mundial graças à sua atuação contra a corrupção. Esperava-se dele ainda uma longa e brilhante carreira judicial. Por que quis interrompê-la para participar de um dos governos mais criticados dentro e fora do Brasil como autoritário e até fascista?

Moro tinha jurado que “por nada no mundo” deixaria a carreira judicial, na qual trabalhava quase desde menino, para entrar na política. Por que esta decisão, e tão rápida? Uma coisa serão as explicações que ainda dará à opinião pública, e outra o que pode haver, que não sabemos, por trás do seu sim a Bolsonaro.

E isso porque ambos arriscam tudo com essa decisão. César Maia, um veterano da política, recordou a Bolsonaro, não sem ironia, que sempre se aconselhou aos presidentes “não nomear alguém que não possa demitir”. E é verdade que não seria fácil para o novo presidente demitir uma figura como Moro, caso, por exemplo, ele não compartilhe de alguma de suas futuras decisões. Bolsonaro conquistou a Presidência em boa parte por seu apoio à Lava Jato. Um possível enfrentamento com o juiz-mito na luta contra a corrupção poderia lhe comprometer gravemente.

A nomeação de Moro obrigará agora, por exemplo, que Bolsonaro seja intransigente na hora de escolher sua equipe e de fazer as centenas de nomeações que tem pela frente. Deverá vigiar para que nenhum dos candidatos a cargos na administração tenha problemas pendentes com a Justiça, e menos ainda com os pecados de corrupção. Será isso possível para ele com um Congresso onde metade dos deputados e senadores estão envolvidos de alguma maneira com a Lava Jato? Caso Bolsonaro faça vista grossa em alguma nomeação, Moro também olharia para o outro lado?

E como poderia justificar — não só dentro do Brasil, mas também fora, onde é considerado o juiz-estrela que foi capaz de revelar um dos maiores escândalos mundiais de corrupção — o fato de ter aceitado entrar, e com tanto poder, num Governo cujo presidente havia flertado dias antes da sua nomeação com a ditadura militar e a tortura, e ameaçado a esquerda com o exílio e a prisão.

Talvez o mais positivo da presença de Moro no Governo Bolsonaro, dado seu indiscutível passado democrático e sua integridade pessoal, seja que pode constituir, dentro do Governo, uma garantia e um muro contra qualquer tipo de desvio autoritário do novo presidente. Precisamos saber, para isso, se estará de malas prontas para ir embora diante da primeira ruptura democrática do Governo ou frente às tentações fascistas que venha a observar lá dentro. Sobretudo agora, quando estará sentado, e como convidado especial, à mesa de um Governo que tantas preocupações e dúvidas desperta dentro e fora do país a respeito de seu compromisso com a democracia e a Constituição.

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