O que nos diz o passado?

A Opinião de Carlos dos Santos

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Só ensina quem não sabe. Quem sabe, não ensina, cria” – Bernard Shaw

“No meu tempo isto não era assim”. “No meu tempo as coisas eram melhores”. “No meu tempo isto…”; “No meu tempo aquilo…”. Este é um eco que nos dias de hoje ressoa incessantemente à nossa volta, nos encontros de família, nas conversas de café, nos transportes públicos, nas entrevistas na TV, enfim, por todo o lado.

Quem são estes seres para quem o tempo já expirou mas que, de lá do limbo onde pairam, etéreos, se põem a desdenhar do tempo actual, que continua a pulsar inexorável, alheio ao escárnio das suas vozes? Esta só pode ser a voz dos mortos! Porque, para os vivos, o tempo ainda não passou, o tempo deles é este, é agora!

Aqueles que assim falam abdicaram da vida, cometeram eutanásia intelectual e deixaram-nos voluntariamente. Desinteressaram-se do futuro e inumaram-se no passado. E, assim, estes fantasmas, proclamando que já fizeram a parte deles, escolheram pôr-se à margem, a assistirem, sem se esforçarem nem correrem riscos, e já não tentam interceder na vida. Mantém-se isolados do mundo dos vivos, sepultados sob as suas memórias heroicas de um passado imaginário, fantasiosamente glorioso.

Passado imaginário e fantasioso? Sim. O passado é sempre uma ilusão, um devaneio da nossa imaginação, modelada pelas especificidades da percepção de cada um de nós. É por isso que duas pessoas que tenham estado juntas, no mesmo momento e local, contam histórias diferentes uma da outra desse passado comum! Lá diz o ditado: quem conta um conto acrescenta sempre um ponto. Acresça-se a isso a propensão inata de (sobre)valorização pessoal e as distorções intencionais de índole política, e vos garanto que o passado não só é irrelevante como é capcioso e, por consequência, incognoscível! E, logo, de muito pouca utilidade.

Entretanto, como tempo é coisa que não lhes falta lá na eternidade a que se guindaram e em que agora vegetam, e como não há lá mais nada com que se ocuparem, enquanto se entretém a homenagear-se entre si, atribuindo-se ordens e comendas de graus variados uns aos outros, dedicam-se a criticar e condenar tudo aquilo que está a acontecer – sempre evocando a memória de um passado imaculado, perfeito, maravilhoso, que só existe dentro das mortalhas em que eles se embrulham.

É que, para eles, tudo o que ocorre actualmente no mundo dos vivos, é fraco, está errado, está mal. Mas, porquê? Pelo simples facto de não serem eles a fazerem.

A mudança é a lei da vida. Aqueles que olham apenas para o passado ou para o presente serão esquecidos no futuro.” John F. Kennedy

Só que as suas esconjuras não são audíveis entre os vivos, porque eles insistem em remeter-se ao seu passado, enquanto no mundo dos vivos, porque o tempo não para e, ao contrário, até acelera, e não se compadece com lamúrias e saudosismos, the show must go on. Os vivos têm de se preocupar não com os feitos fantasiosos dos mortos num passado remoto, mas com as coisas factuais do tempo presente, têm de seleccionar o que semear hoje, porque essa é a forma de não se porem amanhã eles também a lamentarem aquilo que hão de vir a colher.

Ora, “Rei morto, rei posto”, e, por isso, estes aposentados vêem-se rapidamente caídos no esquecimento. Perante esse alheamento a que se veem votados, em desespero de causa, os retirados de cena ameaçam, então, as novas gerações: “Quem não conhecer o passado arrisca-se a cometer os mesmos erros que nós cometemos”.

Mentira. Esta é só a maneira que eles encontraram para nos fazerem ouvi-los falar de si mesmos a valorizarem-se a si próprios! Não é possível repetir erros do passado. Pela simples razão de que são as circunstâncias que determinam o que é certo e o que é errado. E, por isso, o que foi um “erro no passado” pode ser o maior sucesso hoje!

O desenvolvimento social tem leis objectivas (tanto quanto as da física). Cada acontecimento é o único produto possível de um conjunto de circunstâncias que ocorrem naquele momento: os recursos disponíveis, o equilíbrio de forças vigente, a competição entre essas forças por esses recursos, e o nível de consciência social (o grau de individualismo das pessoas – aquilo que elas fazem e aquilo que elas calam, em função das vantagens pessoais que querem colher). E, por isso, aquilo que aconteceu foi o que podia acontecer (independentemente de quem hoje o ache bem ou o ache mal). Tivessem reinado outras circunstâncias e as coisas teriam sido diferentes, e não como foram.

Só seria possível repetir erros se as circunstâncias não tivessem mudado, e o passado se repetisse! Sucede que o mesmo conjunto de circunstâncias não se repete: “Nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio, pois na segunda vez o rio já não é o mesmo, nem tão pouco o homem!” – Já disse Heráclito.

Porque ocorre que as circunstâncias têm a particularidade de serem dinâmicas – estão em mudança permanente (“A única coisa permanente é a mudança”- Heráclito). No tempo e no espaço. A própria acção escolhida, qualquer que ela seja, implica mudança. Para o bem e para o mal, mas mudança. Aquilo que foi bom ontem, aqui, não o era ontem, ali. E não o será, certamente, aqui, amanhã. Um grande sucesso no passado, repetido hoje, tenderá a ser um erro crasso. Tal como uma solução de hoje, transplantada para o passado, seria muito provavelmente inócua ou desastrosa. É por causa dessa dinâmica que a dado momento, logo que alguma das circunstâncias se altera, as coisas mudam. Os “erros do passado” foram, por isso, corrigidos no passado – quando ele era presente. Se tivessem prevalecido, não andariam estas vozes por aqui hoje a apelar ao passado e a assombrar e amaldiçoar o futuro dos homens vivos com condenações sumárias do presente ao fracasso e do futuro a todas as desgraças!

Se queres conhecer o passado, examina o presente que é o resultado; se queres conhecer o futuro, examina o presente que é a causa.” Confúcio

A única coisa para que o passado serve é para ajudar a compreender as razões de o presente ser como é. Ou seja, compreender aquilo que se está a passar hoje, o que estes defuntos precoces tanto lamentam, e que é, afinal, o resultado directo das escolhas que foram feitas no passado… por eles próprios, os mesmos que passam a morte prematura a dizer que no tempo deles tudo era melhor! Se o presente está tão mal como dizem os inanimados, então, bem se podem culpar a eles mesmos.

Num aspecto, eles até têm razão: a vida deles foi bem mais fácil e melhor! Mas isso não é por culpa das pessoas nascidas depois deles, que se mantém vivas, mas sim por culpa deles mesmos, que escolheram suicidar-se e viver num tempo que já não existe (o tal tempo deles) e ser zombies neste presente. O “tempo deles” foi melhor para eles, sim, porque os pais deles não se demitiram enquanto ainda estavam vivos, não falharam para com eles, da maneira como eles falharam, ao abandonarem os seus filhos, retirando-se da vida e pondo-se a circular por aí como espectros deprimidos, à procura das sombras dos seus próprios feitos do passado. Em vão. O Sol cada dia nasce num ponto diferente do céu. Por isso, as sombras também mudam, são sempre novas. Não as vão encontrar.

Portanto, o passado não tem futuro. Ou cria desenvolvimento, fica ultrapassado e fenece; ou estagna e, por isso, fica ultrapassado por inacção (porque as circunstâncias em mudança constante o abandonam), e sucumbe. O passado não sobrevive de nenhuma maneira até ao presente.

Onde se podem cometer erros é no presente. Nas escolhas dos caminhos que fizermos hoje. E para fazer essas escolhas, a experiência do passado também não é útil, porque como a experiência diz respeito a um conjunto específicos de circunstâncias, que é, essencialmente, irrepetível, ela é fundamentalmente inútil em relação a qualquer outro conjunto delas. Uma vez que as circunstâncias presentes são diferentes, os erros são irrepetíveis (tal como os sucessos, convenhamos). E, portanto, também para isso o passado não serve.

Se andarmos apenas por caminhos já traçados, chegaremos apenas aonde os outros já chegaram” – Alexander Graham Bell

Querer fazer escolhas hoje com base na experiência, no passado, é rejeitar o progresso e o desenvolvimento. Fazer escolhas, tomar decisões, com base no passado, em vez de analisar o conjunto de circunstâncias perante os quais estamos em cada momento, isso, sim, é um erro gritante. Há que analisar e tomar decisões novas em cada momento. Para fazer as melhores escolhas que as circunstâncias permitam. E, evitar, desse modo, cometer erros, mas erros novos, agora.

Fazê-lo é responsabilidade de todos os homens e mulheres, independentemente da idade que tenham. Basta que pertençam à Geração dos Homens Vivos! E nenhum Homem que esteja vivo pode dizer que já fez a sua parte. Porque o que já foi feito é uma mera gota de água no vasto oceano daquilo que há por fazer. (Nota: onde digo “Homem(ns)” digo sempre homens e mulheres).

Por isso, surge et ambula! Libertem as tumbas, sepultem nelas o passado e concedam-lhe o eterno descanso. E, depois, voltem a olhar, de frente, para o presente. Porque, se não se pode mexer no passado, pode bem mexer-se no futuro, através das escolhas que se façam agora. E se há coisas em que é preciso mexer neste momento…!

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