Outros significados do património arquitetónico

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Como eu apresentei em outra oportunidade, o conceito de património cultural foi ampliado nos últimos tempos. Mesmo antes da Constituição de 1988, mas sobretudo com ela, o que se entende por património superou as coisas materiais: objetos e edificações. Agora também são considerados e valorizados os patrimónios imateriais: os modos de fazer, as celebrações, as expressões e os lugares. Além disso, conforme indica o historiador Ulpiano Meneses, a Constituição de 1988 traz a importante contribuição de reconhecer que o valor dos patrimónios culturais é atribuído pelos grupos sociais. Nas palavras dele, o património é um fato social. Desse modo, são os cidadãos que constroem significados e sentidos. Os patrimónios não possuem valor por si só, como se eles tivessem um feitiço.

E como podemos pensar o património arquitectónico levando em consideração esses apontamentos? Com a ampliação ao longo do tempo da noção de património cultural, não houve a desvalorização do património arquitectónico. Pelo contrário. O alargamento do que significa património contribuiu para lançarmos novos olhares sobre o património arquitectónico e valorizarmos suas outras dimensões.

Ao considerar determinada edificação um património, além dos seus valores ligados às dimensões formais e suas características arquitectónicas, podem ser valorizados os significados atribuídos pelos sujeitos que usufruem de tal bem. Ele tido, portanto, como um suporte de memórias. Por exemplo, a uma igreja do século 20, modelo de arquitetura moderna, também podem ser considerados os sentidos que as pessoas atualmente lhe atribuem, tal como um lugar de meditação, onde foi o seu casamento ou o batizado de seu filho ou, ainda, ponto de referência central para a cidade. Ou seja, passam-se a ser levados em conta os valores afetivos atribuídos àquela edificação.

Também a essa mesma igreja pode ser considerado o modo de fazer dos operários que a construíram. Ao lado da exaltação do génio criativo do arquiteto que projetou e idealizou a obra, o saber dessas pessoas pode ser tomado como marca valorativa, dando outro significado a ser considerado no momento de reconhecimento de tal obra arquitectónica como património cultural.

João Lorandi Demarchi
Historiador e professor, é mestrando em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo (USP). Membro do Conselho da Rede Paulista de Educação Patrimonial, ele desenvolve pesquisas sobre educação patrimonial e património cultural.
joao.l.demarchi@gmail.com

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