“Tem havido contactos oficiosos e penso que existem algumas pistas que vamos ter de explorar com boa vontade, com cedências de parte a parte. Veremos nos próximos dias para ver se há possibilidade de se avançar”, disse à agência Lusa o líder da ADI e primeiro-ministro cessante de São Tomé e Príncipe, Patrice Trovoada.

“Creio que as coisas estão num bom caminho”, afirmou.

Patrice Trovoada falava à Lusa, por telefone, depois de, no início desta semana, a segunda e a terceira forças mais votadas nas eleições legislativas de 07 de outubro — Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe – Partido Social Democrata (MLSTP-PSD) e coligação PCD-UDD-MDFM — terem recusado reunir-se com representantes da ADI.

A ADI, partido no poder, venceu as eleições com maioria simples (25 em 55 deputados na Assembleia Nacional), enquanto o MLSTP conquistou 23 mandatos e a coligação cinco, tendo estas duas forças reclamado maioria absoluta e anunciado um acordo pós-eleitoral de incidência parlamentar e com fins governativos. Foram ainda eleitos dois deputados independentes pelo distrito de Caué.

A oposição recusou dialogar com a ADI em separado, como este partido tinha proposto, o que Patrice Trovoada vê como um sinal de desconfiança.

“Creio que a razão principal é que estes dois grupos, que dizem que têm um acordo de incidência parlamentar e que estão unidos, determinados, têm muita dificuldade em aparecer cada um no seu lado. Coloca um problema de desconfiança. Não existe a tal propalada solidez naquilo que é a vontade de estarem juntos”, comentou.

Trovoada reiterou que a ADI quer procurar “algum consenso sobre bases programáticas de um governo”, insistindo na necessidade de “procurar uma maior estabilidade possível”.

“A ADI continua aberta a um governo de base alargada, a um governo de unidade nacional”, disse o primeiro-ministro cessante, ressalvando que é “um processo contínuo”.

“Se não for possível antes de dia 22 [data da posse da Assembleia Nacional] chegarmos a esses consensos, também podemos encontrar consensos no parlamento. O mais importante é que haja essa vontade declarada de diálogo”, salientou.

A ADI espera que, após a posse do novo parlamento, o Presidente são-tomense, Evaristo Carvalho, chame o partido mais votado a formar executivo, mas Trovoada admitiu não avançar com a formação de um governo caso se verifique a falta de sustentabilidade parlamentar.

“A ADI irá apreciar a situação e irá pronunciar-se sobre todos os contactos que andou a fazer nestas últimas semanas, oficiais e oficiosos, e depois iremos ponderar se de facto no parlamento haverá condições, pontualmente, de acordos e de sustentabilidade”, referiu.

Se tal não se verificar, “a ADI assumirá as suas responsabilidades, não indo para um processo para que depois de 30, 40 ou 50 dias” seja levada a “ter de formar um novo governo”, acrescentou, numa referência ao eventual chumbo do programa do governo pela oposição no parlamento, o que precipitaria a queda do executivo liderado pela ADI.

“Sempre coloquei acima de tudo os interesses nacionais, governei durante quatro anos o país e sei perfeitamente quanto custa governar um país nas condições de São Tomé e Príncipe. Não iremos dificultar ainda mais a situação nacional”, garantiu.

Questionado se se mantém disposto a não liderar um próximo executivo, como anunciou à Lusa no mês passado, Patrice Trovoada respondeu afirmativamente.

“Uma boa parte dos ataques da oposição foram em relação à minha pessoa. Seria de bom-tom eu pôr-me um pouco na reserva, se isso puder facilitar algum acordo”, sustentou.

Sobre quem será indicado para o cargo de primeiro-ministro, Trovoada disse que “é uma questão” que a ADI irá “decidir nos próximos dias”.

Patrice Trovoada salientou que o objetivo é “procurar uma figura que consiga colher menos hostilidade por parte da oposição”.

Questionado se será alguém do partido vencedor ou de outro partido, disse que, “em princípio, [será] da ADI, mas pode estar em cima da mesa” outra personalidade, sem adiantar mais pormenores.

O atual chefe do Governo deixou ainda um aviso à oposição, que tem instado o Presidente a “queimar etapas” e chamar as formações políticas que garantem uma maioria absoluta para formar governo, mas Evaristo Carvalho já rejeitou ceder a “pressões”.

“Estas situações de intolerância, de precipitação, de desrespeito dos prazos e dos processos constitucionais não servem à oposição. É preciso que as pessoas ganhem consciência de que se pretendem governar, é melhor de facto não abrir precedentes”, considerou.

Patrice Trovoada reconheceu ser “excessivo” o prazo de 30 dias após a publicação dos resultados eleitorais para formar a Assembleia Nacional, mas ressalvou que isso é o que prevê a Constituição e “há que respeitar” a lei.

“Talvez depois deste episódio haja consenso entre os partidos políticos para reduzirem estes prazos”, disse.

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