O antropólogo e investigador sanvicentino, Moacyr Rodrigues, disse hoje em entrevista à Inforpress que os mandingas já não fazem parte do desfile do Carnaval oficial porque “o poder não quer”.

Segundo Moacir Rodrigues esta mudança do desfile dos mandingas deve-se ao facto de “açambarcarem toda a atenção” das pessoas. Segundo a mesma fonte, os mandingas sempre fizeram parte do Carnaval e serviam para abrir alas, porque as pessoas muitas vezes tapavam as ruas.

“As pessoas tinham medo dos mandingas porque estavam pintadas de óleo. Como não queriam sujar-se afastavam-se. Mais tarde,  vieram outros que se lambuzavam-se de lama (os zumbis) tudo isso tinha uma função de abrir alas. Não era preciso por cordas para evitar que as pessoas descessem às ruas”, recordou Moacyr Rodrigues que publicou em 2011 o livro “Carnaval do Mindelo”.

No entender do antropólogo isso “é intromissão e destruição de uma ordem”, ou seja, que Carnaval tem a sua ordem e essa mudança é uma anti-ordem pública, clarificou.

Moacyr Rodrigues lembrou que, neste momento, “há gente da pequena burguesia e da média” que vêm do estrangeiro para se mascarar de mandinga e desfilar.

A seu ver, as pessoas tinham medo de se sujarem com os mandingas mas houve uma aceitação do mandinga por parte do povo, mas frisou que “há uma incompreensão e preconceito nas mãos dos grupos que não querem se misturar com eles”.

A mesma fonte lembrou que os mandingas surgiram no Mindelo, em 1940, quando um barco, que trazia amendoim ou arroz da Guiné e um grupo de Bijagós, aportou no Porto Grande. No Mindelo, explicou, os homens executaram uma dança que ficou marcado no seio dos sanvicentinos que a copiaram e adaptaram.

“Passou um grupo de Bijagós com saiotes de ráfia, ou de cobra e eram guerreiros. Executaram, para as crianças, uma dança guerreira em que fingiam que estavam a atacar qualquer animal. A malta em São Vicente viu aquilo, copiou e adaptou,” clarificou o investigador.

O mesmo observou que em São Vicente não sabiam que eram Bijagós e, porque os cabo-verdianos desconhecem a África, resolveram apelidá-los de mandingas, quando na verdade não eram.

“Os mandingas eram uma raça bastante altiva, guerreira que vestia uma toca grande em cima das calças como os muçulmanos e tinha um gorro na cabeça. Eles andam a Cavalo ou a camelo de espingardas. Construíram o maior império da África que é o império Mandangue. Tiveram muitas guerras com os franceses até que os franceses dominaram aquela zona do Mali e a zona que vai do Senegal para frente”, esclareceu Moacyr Rodrigues.

Para além de criticar a retirada dos mandingas do desfile oficial, o investigador e antropólogo também insurge-se contra a ideia de colocação das bancadas e a transferência do desfile oficial para a noite.

Para a mesma fonte, essas “importações” revelam a incapacidade das pessoas que têm essas ideias.

“Quem tem essas ideias são os jovens que foram estudar, licenciaram-se lá fora e não viveram o Carnaval e de repente são feitos presidentes de grupos. Conheço-os todos porque passaram-me pelas mãos como alunos. São sujeitos que muitas vezes copiam as ideias, gostam da festa, de figurar e aparecem”, defendeu, lembrando que antigamente não se sabia quem eram os presidentes dos grupos porque os grupos de Carnaval eram de todos.

Para Moacyr Rodrigues, deve-se manter o desfile durante o dia e deixar o Carnaval nas mãos de quem está habituado com a festa. Isto porque, lembrou, São Vicente é uma ilha mal iluminada e os desfiles à noite favorecem a violência como roubos, kassubodis (roubos com violência) que acabam por manchar a festa.

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