A crise dos abusos sexuais: ousar uma cultura eclesial renovada

A Opinião do P. Bruno Nobre

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Padre jesuíta, Bruno Nobre, professor de filosofia na Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais (FFCS) da Universidade Católica Portuguesa, licenciado em Engenharia Física Tecnológica, mestre em Teologia, doutorado em Física

Não obstante os progressos já alcançados, muito está por fazer no que diz respeito à construção de uma cultura eclesial renovada, em linha com o Evangelho e capaz de devolver à Igreja a credibilidade.

A publicação, no passado dia 14 de agosto, do relatório do Grand Jury da Pensilvânia sobre os abusos sexuais perpetrados por 301 padres de seis dioceses católicas ao longo de cerca de 70 anos agudizou de forma insuportável uma crise que se arrasta há quase duas décadas e que assumiu, entretanto, uma escala global. A onda de choque provocada pela publicação do relatório do Grand Jury da Pensilvânia soma-se à profunda crise em que mergulhou a Igreja chilena e vem confirmar o caráter sistémico, pelo menos em certas partes do mundo, da crise dos abusos sexuais.

É justo reconhecer que a Igreja percebeu, há já algum tempo, que a epidemia de abusos sexuais por membros do clero exige uma resposta firme e decidida. Desde a eclosão da crise, que teve o seu epicentro em Boston na sequência da investigação levada a cabo pelo Boston Globe, em 2002, a Igreja Católica implementou importantes medidas de prevenção e de apoio às vítimas. O próprio relatório do Grand Jury da Pensilvânia reconhece os progressos alcançados. A grande questão é se as medidas até agora implementadas são suficientes. Esta crise sem precedentes parece estar associada a uma cultura eclesial pervertida que urge desmantelar. O próprio Papa Francisco o admite quando, na sua carta ao Povo de Deus, fala de uma “cultura de morte” e aponta o clericalismo como uma das raízes da atual crise. Custa dizê-lo, mas há que reconhecer que cresceu no seio da própria Igreja uma “estrutura de pecado”, que se alimenta de distorções sistémicas que é urgente identificar e eliminar.

Uma “cultura” não se muda de um dia para o outro, claro está. Medidas concretas ao nível da prevenção, do apoio às vítimas e da sanção de possíveis abusadores são absolutamente indispensáveis e, como já tive ocasião de dizer, os progressos já alcançados a este nível são assinaláveis. Atrevo-me a dizer, no entanto, que muito está por fazer no que diz respeito à construção de uma cultura eclesial renovada, em linha com o Evangelho e capaz de devolver à Igreja a sua credibilidade.

A presente crise envolve, sobretudo, ministros ordenados: padres e bispos que abusaram sexualmente de crianças, jovens e pessoas vulneráveis, e bispos que encobriram sistematicamente estes abusos. Neste sentido, parece-me urgente fazer uma reflexão aprofundada sobre o ministério ordenado e também sobre a formação e estilo de vida dos sacerdotes. Não concordo que a crise dos abusos sexuais exija, sem mais, o fim do celibato obrigatório para os padres. Não deixa de ser verdade, por outro lado, que a grave situação em que a Igreja se encontra tem a sua origem em experiências de profunda desordem afetiva e sexual, o que não pode de modo algum ser ignorado por quem tem a responsabilidade de refletir e tomar decisões. É urgente fazer uma reflexão aprofundada e corajosa sobre as exigências do celibato apostólico e sobre a formação e acompanhamento não só dos candidatos ao sacerdócio, mas de todos os ministros ordenados.

A crise dos abusos sexuais é, também, talvez sobretudo, uma crise de transparência e de abuso de poder. Mostra-se, aqui, o lado mais perverso do clericalismo: mais do que proteger e apoiar as vítimas, a Igreja preocupou-se em salvaguardar a “imagem” da hierarquia, adotando mecanismos perversos que mantinham os abusadores a salvo da justiça. Não duvido que os ministros ordenados, padres e bispos, têm uma missão da maior importância ao serviço da comunidade eclesial. Tal não significa, contudo, que constituam uma espécie de casta intocável acima da justiça. Os ministros ordenados servem a comunidade e é também à comunidade que devem prestar contas da forma como desempenham o seu ministério. A criação de mecanismos de transparência aos vários níveis da vida da Igreja, com uma saudável comunicação entre sacerdotes, bispos e leigos, parece-me absolutamente decisiva para a superação da atual crise.

O abuso sexual de menores, jovens e pessoas vulneráveis configura, finalmente, uma grave crise espiritual e moral, uma violação hipócrita da doutrina da Igreja, e uma deturpação escandalosa dos ensinamentos de Jesus. Impressiona a falsidade, a duplicidade, a perversão, a mentira e a falta de caridade de homens a quem foi confiada a missão de servir a comunidade cristã. É escandaloso, sem dúvida, o silêncio e a cumplicidade de todos os que deviam ter denunciado tão graves injustiças e protegido os mais pequenos e vulneráveis e não o fizeram. Os abusos sexuais não são apenas sintomas patológicos, nem o seu encobrimento mera ingenuidade institucional. O momento doloroso que a Igreja vive é, também, talvez sobretudo, o resultado do pecado de pessoas concretas, em particular de alguns ministros ordenados; precisamos fazer, todos nós e a começar pelos padres e bispos, um profundo exame de consciência, para reconhecer e rejeitar tudo o que na Igreja é mundanidade: cobardia, auto-indulgência, auto-justificação, bajulação, mentira, sexualidade desordenada…

Neste momento difícil da vida da Igreja, talvez sintamos a tentação de abandonar uma instituição cuja reputação parece irremediavelmente manchada. Também isto seria mundanidade, creio. Este é o momento para intensificar a oração e a penitência, como pediu o Papa Francisco, confiando que esta dura prova pode ser uma preciosa ocasião para lançar os alicerces de uma Igreja mais saudável, mais justa e, sobretudo, mais fiel ao Evangelho.

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