A cultura antes do fim da cultura

A Opinião de Adriano Botelho de Vasconcelos

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Adriano Botelho de Vasconcelos, político e escritor angolano

Quando falamos da cultura em todos os países, mesmo os mais desenvolvidos, não ficando apenas pelas referências ao nosso país, concluímos que a cultura, há muitas décadas, infelizmente tem sido o parente mais pobre das políticas institucionais. A vida dos ministros da Cultura tem sido um verdadeiro calvário, quase sem exceção, nem sei como se dão ao prazer de lá ficarem muito felizes. Essa condição de ausência de uma política estruturante para esse sector, apesar de empobrecer o imaginário dos povos e seus agentes culturais, parece ser uma velha resistência que se irá manter cáustica. Em virtude da política ser mais folclórica, a cultura será usada, no dizer dos pensólogos, como um elixir que, quando bem doseado pelos partidos, serve bem de enfeite, de fetiche e efeito puro de entretenimento em que colocamos coristas, batuqueiros e dançarinos como parte mais visível das sessões em que se vendem ideais que mais adormecem os cidadãos.

Quando lemos os romances antigos, sempre há os tecnocratas e verdugos que se viram inteiramente contra a cultura. O ideólogo de Adolf Hitler, o famoso Joseph Gobbels, especialista em marketing, autor de uma das citações mais referenciadas na cátedra da política, quando escrevera que “De tanto se repetir uma mentira, ela acaba por se transformar em verdade”, não menos inspirado, vociferava que quando alguém falava em cultura, logo pensava em sacar a pistola do coldre para detonar a vida do pobre intelectual. Alguns políticos acham que nesse sector abunda uma “Gentalha que pouco se importa com a saúde da economia”, acusam os teóricos da austeridade. Não deixa de ser verdade: para essa classe, às vezes, sonhar tem sido um pesadelo sem fim. Os chefes dos orçamentos parecem ter uma, não menos chocante, indisposição em relação a tudo que diga respeito a esse sector “não produtivo”, concluem. Poucos se importam com uma visão muito mais espiritual e de equilíbrio.

Em Angola temos o fenómeno de edição de livros de poesia – em maior número –, contos, ensaios e, por último, na escada de conteúdos, surge o romance, cujos valores anuais poderiam contar com um financiamento que cobrisse os custos de edição e distribuição. Os efeitos seriam importantes, porque ter num país pobre um “eu” criativo, forte e filosofante, desperta capacidades cognitivas. Não é estranho que na UEA o debate sobre a democracia e fim dos programas marxistas sufocantes já se faziam sentir nos primórdios da independência. Eram correntes criativas com direitos a ensaios assinados por renomados ensaístas ligados às melhores faculdades do mundo.

Um grande salto temático aconteceu com o romance “Os Anões e Mendigos”, de Manuel dos Santos Lima, só para citar essa obra portentosa. O romance, que esteve fora das leituras e bibliotecas, já caracterizava, com alegorias hilariantes e crítica política, o que seria, pela ficção, a falência da governação pós-independência e do não respeito aos bens públicos, contra o endeusamento dos líderes, uma visão sensitiva. Ainda jovem, nas conversas que mantivemos sobre o romance e poesia, sempre apreciara a lucidez de Manuel dos Santos Lima, que mantinha uma voz calma de barítono em apresentar as questões que nos pareciam inacessíveis e, ou, complexas. Realço que no domínio da tessitura do texto, seus personagens e egos o colocavam muito à frente do seu tempo.

Devemos incluir a necessidade de atribuição de “bolsas de criação” para que se possa enriquecer o “Catálogo Nacional de Conteúdos”, pois o escritor, o pintor ou um exímio guitarrista deixariam de correr atrás do pão, ou de coisas triviais que provocam o stress social, e, com conforto material, poderiam soltar a força da criatividade que colocasse o país entre os que mais sonham e enriquecem os imaginários de um mundo avesso e que só a cultura pode redesenhar. Se tivermos uma visão de detalhe, um foco simples, diria que seriam precisas, ano, duzentas bolsas internas para a literatura, pintura plástica e música dedilhada não comercial. Eu indicaria a escritora Sónia Gomes como a primeira beneficiada. É só a contista que mais fizera pelo conto em língua portuguesa. Sentimos que as suas palavras são de uma leveza e tocam o ego de qualquer leitor.

Eu aprecio imenso a atitude de Barack Obama que, apesar de viver uma das maiores crises financeiras da história americana, preparara uma verdadeira revolução no apoio às artes. Cinco dias antes de prestar juramento de posse, líderes de várias organizações artísticas foram chamados a Washington, para, no gabinete de transição, traçarem as linhas do que seria o seu programa de renascimento da cultura. Uma atitude de diálogo que nenhum presidente eleito havia feito antes. Obama considerou as artes e cultura um tema central do seu governo. Quincy Jones, grande maestro de música urbana, anunciou que conversou com o Presidente Obama sobre a criação de uma Secretaria da Cultura. Mais de 200 mil pessoas assinaram uma petição para que fosse realidade essa pasta. Obama fez a síntese das administrações de John Kennedy e de Roosevelt, ao compreender o potencial redentor das artes nos momentos de crise que abalam as nações. A pura exigência de atenção aos fatores de gastos não impediram esses líderes de apresentar aos criadores propostas interessantes, como seja: Os subsídios ao papel para que os temas da cultura não ficassem nos curtos “quadrados” ou “rabo dos jornais”, mas passassem a ter cadernos especiais. Em África, poucos jornais privados têm páginas inteiras com matérias de antropologia, urbanismo das periferias, artes plásticas e de grandes entrevistas com os poetas, romancistas e tantos outros especialistas da área da cultura.

O que me faz voltar de bom grado à Cape Town é, sem dúvida, o movimento cultural de rua. Existem grupos que animam todo o Verão as principais praças onde os turistas param para conhecer os ritmos do país e as suas artes circenses. Nas praças e passeios, somos surpreendidos pelas estátuas humanas, parecem esculturas de pedra em posições corporais impensáveis, ângulos aéreos que sempre surpreendem não só os turistas, mas também os curiosos do próprio país. A renovação cultural é muito evidente, e, de ano para ano, despontam as novas roupagens musicais, firmando-se ao lado de grupos já tradicionais que tocam músicas que fazem parte do cancioneiro nacional. Podemos apreciar, num pavilhão amplo e moderno, a portentosa exposição de produtos de artesanato, com um pendor de qualidade nos traços que a colocam fora do tradicional naif, da repetitiva imagem disforme dos seres. Essas imagens têm uma base de matizes de cor que traduzem um traço que alcança a perfeição que induz às compras, sem que pensemos nos custos.

A cultura, numa dimensão generalista, menos estruturada e setorizada, até que pode ser uma linha invisível da ação de toda atividade governativa de um país. “É a área que aceita o hipnotismo. Está e não está”. Até pode parecer uma aberração, mas muitos países não têm essa marca orgânica. Outros, como França, colocam a Cultura numa posição da menina dos olhos da governação, com mais de 6% do PIB, número que assusta o FMI. Mas uma política dessa dimensão pode melhorar a forma como as estratégias dos desideratos podem concorrer, até para que, de forma distinta, uma visão mais endógena possa melhorar os índices de aproveitamento e satisfação dos recursos humanos num privilégio que os coloque em primeiro plano.

Há 9 anos, foram 4 milhões de dólares que mexeram com a dinâmica das instituições de utilidade pública que andavam de tangas. A UEA, sob meus cuidados nessa altura, conseguira editar muitas centenas de títulos inéditos que marcam um período de uma governação que ensaiara o que seria a Cultura, se tivesse os recursos suficientes. Um brilho fugaz. Na verdade, foi um ensaio que o tempo degolara rápido, mas quase todos os fazedores acham ter sido o melhor momento pós-independência, um país que parecia ter surgido colado aos “versos”. É preciso desconstruir a cultura e olhar para a“Live Unitel”, como esse programa tem destruído a petrificada ortodoxia da massificação cultural, uma visão envelhecida.

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