A insustentável leveza e delicadeza das TSOC (Tentativa de Subversão da Ordem Constitucional)

A Opinião de Alcídio Montoya Pereira

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Alcídio Montoya Pereira, são-tomense, economista

As questões de Estado exigem que o país seja dirigido por mulheres e homens com apurado sentido de dever e de dedicação à causa pública, que não hesitam nem pestanejam no momento em que são confrontados com a necessidade de sacrificar interesses pessoais (ou de grupo) em nome de um bem maior, ou seja, os supremos interesses da Nação.

Lamento, mas não posso deixar de expor esse enorme elefante asiático que os políticos santomenses insistem em querer que os cidadãos não se apercebam da sua presença na nossa sala. Há que contrariar a tese da atual maioria de que a mediatização e a judicialização das alegadas TSOC são de interesse público, nacional, e visa proteger o nosso regime democrático. Igualmente censurável é a abordagem da oposição de concordar com a transferência para a Justiça, na qual já tinha declarou, por diversas vezes, não confiar, a resolução de casos que são eminentemente políticos, sem parecer perceber que em política o que parece é (nestes casos o que parece é o envolvimento dos partidos da oposição nestas alegadas conspirações contra órgãos eleitos, o que me parece, seja em que sentido for, inaceitável).

O tempo da justiça não é o tempo político. Os cidadãos eleitores, antes de depositarem o voto nas urnas a 7 de outubro, têm o direito de saber (e o Estado, no seu todo, a obrigação de esclarecer) se as TSOC são reais ou ficcionadas e, sendo reais, se houve ou não envolvimento dos partidos da oposição nas mesmas. Não creio que a Justiça, em tempo útil, tenha condições de responder a este desiderato, pelo que, temo, as eleições (legislativas e autárquicas) poderão até ser livres mas nunca poderão ser justas. Portanto, o ADI e os partidos da oposição não estão a prestar um serviço digno ao país, razão bastante para os eleitores mostrarem a 7 de outubro um “cartão vermelho” aos políticos, através de uma massiva e protestativa abstenção.

É minha convicção, já partilhada com pessoas da situação (ADI) e da oposição (MLSTP/PSD, PCD e MDFM/UDD), que, admitindo que as TSOC são reais e não encenadas (seja por quem for), a mediatização e a judicialização das mesmas é contraproducente e não serve o objetivo de defender e fortalecer a nossa democracia, mas apenas de defender o atual governo e o partido que o suporta parlamentarmente, em claro prejuízo para o país. Defendo que, se estivéssemos perante uma maioria que acredita na democracia e encontrando-se o país a pouco menos de 2 meses para a data das eleições para o parlamento e autarquias, a decisão que se esperaria de homens de estado é que estes assuntos fossem tratados ao nível das cúpulas partidárias, pois a exposição pública mina, irremediavelmente, a paz e a concórdia necessárias a atos eleitorais que, deseja-se, sejam livres e justos. É assunto, caso estivéssemos em democracia efetiva, para o Sr. PR convocar o Conselho de Estado (ainda existe?) e não para ser tratado nos órgãos de comunicação social e, menos ainda, como crime comum ou de terrorismo (valha-nos Deus!), com insinuações do envolvimento dos partidos de oposição.

De resto, não é de somenos importância relembrar, nos dois golpes de estado (consumados) de que a democracia já foi vítima (1995 e 2003) e que podiam ter redundado na perda de vida de políticos, civis e militares, prevaleceu a abordagem política, em detrimento da judicial, na resolução dos conflitos, evitando que muito boa gente que hoje se queixa de intentonas tivesse cumprido pesadas penas por atentar contra a democracia. É essa a força e a superioridade (moral) da democracia!

As alegadas TSOC apresentam falhas (qual queijo suíço ou madeira com “ócóli”) já denunciadas nas redes sociais, que nem o governo, a justiça ou os arguidos (ou seus representantes) ainda se deram ao trabalho de esclarecer, escudando-se todos no sacrossanto “segredo de justiça”.

O Governo e o ADI têm procurado, a todo o custo, convencer-nos (santomenes e principenses) que estão a ser vítimas de conspirações para derrubar, pela força, a atual maioria que governa o país. Já foram “desmanteladas” duas TSOC, um eufemismo para golpe de estado, mas continua-se sem perceber qual o objetivo final dos conspiradores, procurando-se, a todo o custo, fazer com que se interiorize que há uma (para não dizer uma infinidade delas) cabala para matar o atual primeiro-ministro de STP, o cidadão Patrice Emery Trovoada. Pode-se concluir, portanto, que não há qualquer objetivo de subverter a ordem constitucional, mas sim, tão e somente, de pôr termo à vida do Sr. Patrice Trovoada, levando-nos à conclusão de que, no pensamento do líder do ADI e dos militantes mais fanáticos desse partido, ele já se confunde com a nossa constituição e defender a sua vida é defender a nossa constituição, ou seja ele é o “King of The Island”, Rei e senhor absoluto das ilhas. Atentar contra a vida dele é atentar contra a constituição e a soberania das ilhas!

Já defendi, e volto a reafirma-lo aqui, para evitar equívocos e interpretações maldosas, que, apesar de todas as distorções e interpretações enviesadas que o ADI tem feito ao nosso regime democrático e ao espírito da nossa constituição nestes últimos 4 anos, particularmente nos últimos 8-10 meses, ainda é possível repor o espírito da ordem constitucional vigente sem necessidade de recorrer à violência nem a atendados à vida de seja quem for, mormente contra a vida de Patrice Trovoada, que parece estar a desenvolver uma tremenda “mania da perseguição”.

Não sei se por falta de umas valentes e pedagógicas nalgadas da Srª D. Helena e do Sr. Miguel na devida altura ou estas não terem surtido os efeitos desejados, o certo é que o nosso atual primeiro-ministro tem manifestado uma inquietante tendência para a traquinice e soberba na forma de estar e de fazer política, um ego descomunal e incontrolável e pueril necessidade de reconhecimento, pelo que, tendo falhado, ao que parece, a educação de berço, resta-nos, à boa maneira africana, a educação da aldeia (nação, neste caso). O menino precisa ser democraticamente travado e aprender que a humildade é uma virtude que a sociedade aprecia e cultiva.

Volto a insistir com os meus amigos do ADI: o vosso líder é o vosso maior ativo político, mas também o vosso maior passivo político. É um cajueiro. Tarde ou cedo vocês serão chamados a decidir entre defender o chefe e salvar o partido.

Para além de medroso, sou também um chato do caraças e… estou aqui para discutir, seja com quem for!

PS-1: Se os militantes do ADI sentirem dificuldades na interpretação de alguma passagem ou do texto no seu todo, agradecia que, antes de fazerem comentários despropositados, me pedissem esclarecimentos através do “Messenger” ou de qualquer outro meio ao alcance.

PS-2: Não era minha intenção partilhar convosco reflexões de natureza política de âmbito nacional, mas sim autárquico (sim, porque as eleições de 7 de outubro são também para autarquias) através de “Postais (Feios) da Minha Terra” e outros tesourinhos deprimentes de STP. Porém, a evolução da situação política, a multiplicação de TSOC (Tentativas de Subversão da Ordem Constitucional) e o tendencioso programa da TVS “O Dia-a-Dia do Primeiro-Ministro” obrigam-me a alterar a minha agenda de “post” no FB.

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1 COMENTÁRIO

  1. Amei o texto. Obrigada ao Dr. Montoya. Mas há uma parte que me é particularmente especial. Está divinal:
    ” Se os militantes do ADI sentirem dificuldades na interpretação de alguma passagem ou do texto no seu todo…”

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