África e o Covid-19

A Opinião de

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João Melo, angolano, escritor, jornalista, político

Embora seja a região menos afectada, por enquanto, o novo coronavírus já chegou ao continente africano. No momento em que escrevo este texto, 29 dos 54 países do continente já registaram mais de 350 casos confirmados do Covid-19. Também ocorreram nove falecimentos. Até agora, trata-se de casos importados, ou seja, a chamada propagação comunitária ainda não começou.

Caem por terra, pois, as patetices espalhadas nas redes sociais, tipo “o coronavírus não nos contamina a nós, negros”, “já temos malária, o coronavírus não vai apanhar-nos” e outras que tais. Humor, dir-me-ão. O bom humor e o optimismo ajudam sempre, sim, mas as piadas de mau gosto, não. O momento é sério. Não deve ser aproveitado, sob pretexto nenhum, para manifestações de estupidez “puras e duras”.

A crença de que o vírus morre mais rapidamente sob temperaturas altas não está provada cientificamente. A verdade é que, neste momento, os especialistas não sabem por que razão tão poucos casos (relativamente) do Covid-19 foram registados em África. Mas Marry Stephen, funcionária da Organização Mundial da Saúde (OMS), em Brazzaville, garante que a contagem tem sido precisa. “Eu não diria que se trata de subestimação”, disse ela, citada pela revista brasileira Exame.

Para Stephen, o número baixo de infectados com o novo coronavírus no continente africano implica que ainda não existem grandes surtos detectados. Se os houvesse, acrescentou a funcionária da OMS, o número de mortos estaria “bem acima” do verificado até agora.
Uma das razões para o reduzido número, até agora, de casos de coronavírus em África foi a decisão da maioria dos países da região de fechar rapidamente as suas fronteiras, pelo menos em relação aos passageiros oriundos dos países estrangeiros mais afectados pelo Covid-19.

Entretanto, todos – africanos e não-africanos – concordam que a possibilidade de o novo coronavírus espalhar-se pelo continente africano é especialmente preocupante por causa da fragilidade dos sistemas de saúde da maioria dos países da região. Mas a questão pode ser vista por outro ângulo: África tem também uma grande experiência de lidar com surtos epidémicos, que pode, se necessário, ser útil neste caso.

Mas a grande vantagem das nações africanas, em relação à luta contra o Covid-19, é sem dúvida o facto de o epicentro do surto ter estado, até agora, na Ásia e na Europa. O continente africano tem a obrigação, por conseguinte, de ter aprendido com o que sucedeu desde o final de 2019 nessas duas regiões, sobretudo, preparando-se adequadamente para enfrentar o novo coronavírus.

Aparentemente, está a fazê-lo, com o apoio das organizações internacionais especialistas em saúde pública, a começar pela OMS. Esta última, por exemplo, apressou-se a reforçar a capacidade dos países africanos de testar o vírus e de treinar profissionais para tratar das pessoas infectadas. No fim de Janeiro, apenas o Senegal e a África do Sul tinham laboratórios que podiam testar o vírus, mas agora 37 países do continente têm essa capacidade.

Para resumir, os nossos governos têm de agir com antecipação (afinal, temos três meses de avanço), lucidez e decisão. O fechamento de fronteiras é necessário, em alguns casos, mas tem de ser temporário. O principal – como recomenda a OMS – é testar e tratar. A parceria entre a rede pública e o sector privado de saúde parece-me imperiosa, sem absurdas disputas de autoridade, mas também sem ignorar a necessidade, como em todas as situações de crise, de comando único.

Uma cautela particular deve ser evitar as enchentes nos hospitais. Parece confirmado que 80 por centos dos doentes infectados com o novo coronavírus não precisam de ser hospitalizados. Assim, seria útil se os governos criassem as condições (equipamentos e pessoal) para a realização de testes rápidos em casa e até em locais públicos, como na Coreia do Sul.

E “nosotros”, cidadãos? Conservar a calma e a tranquilidade. Não acreditar em fakenews. Acompanhar as informações e seguir as recomendações oficiais.

Manter a higiene pessoal e “social” (nada de apertos de mão, beijos e abraços, por enquanto). Evitar grandes aglomerados. Como lembra um quadro postado no Tweeter (sim, nas redes sociais também há vida inteligente), “quanto mais cedo nos distanciarmos, mais cedo nos abraçaremos”.

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