Num artigo publicado no site ‘The Conversation’, Misheck Mutize argumenta que “o alarme de dívida que está a ser soado pelas organizações internacionais de gestão de dívida é exagerado, porque o problema não é que os países africanos se estejam a endividar demasiado, mas sim que estão a pagar juros demasiado altos”.

No texto, o académico que é também consultor do Mecanismo de Revisão que funciona no âmbito da União Africana sobre os ‘ratings’ escreve que “o Fundo Monetário Internacional acredita que os países africanos estão numa espécie de ‘corrida à dívida’ e que metade deles estão perto ou já com dívida problemática [‘debt distress’, no original em inglês]”.

Na explicação, o professor de Finanças lembra que quando se analisa o peso da dívida de um país, usa-se o nível de dívida face ao PIB e o custo de servir essa dívida, ou seja, os pagamentos de juros.

Sobre o nível de dívida face ao PIB, “tirando quatro países (Cabo Verde, Djibouti, Congo e Moçambique), todos os outros têm níveis a rondar os 60%, que é o limite considerado prudente pelo FMI e pelo Programa de Cooperação Monetária Africano”.

Tentando desmontar a tese de que existe uma crise da dívida na África subsaariana, Misheck Mutize afirma que “as emissões de dívida representam apenas 1% do PIB do continente, que tem uma taxa de crescimento económico médio de 4%”.

No entanto, continua, “os governos africanos estão a pagar juros de 5% a 16% nos títulos a 10 anos, comparado com zero ou taxas negativas na Europa e na América e, em médio, os pagamentos de juros são o gasto mais alto da despesa e continua a ser a despesa com crescimento mais rápido nos orçamentos dos países da África subsaariana”.

A subida das taxas de juro, alerta o professor, “devem ser uma causa de grande preocupação”, uma vez que “os países africanos estão a prejudicar-se quando aceitam juros altos nas suas emissões de dívida, o que cimenta injustificadamente a perceção de que são emissores de alto risco”.

No texto, o professor de Finanças reconhece que a culpa não é só dos juros exigidos pelos investidores, mas também dos próprios governos africanos, que emitem dívida de curto prazo para financiar projetos de longo prazo, não explicam para que serve o dinheiro, e estão mal cotados pelas agências de ‘rating’, o que encarece quase automaticamente os juros exigidos pelos investidores.

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