Ainda podemos ter orgulho de África?

A Opinião de Adebayo Vunge

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Adebayo Vunge, angolano, economista

O pôr do sol no Sahara, as cataratas de Victória, o deserto do Namibe que se cruza com a abundância do Atlântico, as nossas gentes, a sua cultura e hospitalidade, a sua alegria que faz brotar uma idiossincrasia única são para mim o ponto de partida, e, provavelmente, o ponto de chegada, ou, como os elefantes, o território sagrado da minha morte.

E falo particularmente do território e, mais importante ainda, das pessoas. E é assim que devemos olhar para o continente, encantados pela sonoridade e musicalidade que há nos griots cujos palavras podemos ler nos romances de Soyinka, Chimamanda ou Gyasi; os sons encantam na execução de Toumani Diabaté ou do falecido Mory Konté, também conhecido como o “griot do eléctrico”, como lhe chamou recentemente o Le Monde, num interessante artigo a propósito da sua morte. E nunca deixaremos de lado, e por isso teremos sempre saudades, do saxofone com o sopro magistral e inigualável de Manu Dibango.

Como cantaram as Gingas do Maculusso, não posso deixar de expressar o orgulho em ser africano. No meu caso particular, não obstante a diversidade racial existente em África, ser africano e negro, quando continuamos a acompanhar a necessidade de afirmação e de reconhecimento do papel dos afro-americanos na edificação daquela poderosa nação. Ser africano não pode continuar a ser apenas o sofrimento simbólico que carregaram os nossos antepassados que foram levados para as Américas, situação que ainda se repete nos dias de hoje, e de uma forma ainda brutal e desumanizada que nos envergonha a todos, com as embarcações a abarrotar de africanos que procuram atravessar o Mediterrâneo na busca de um futuro desconhecido.

E é por isso que continuamos a analisar a realidade do nosso continente, cerca de sessenta anos depois das primeiras independências, quando nada mais podia ser como antes, procurando perceber o que impede a prossecução do fim último dos pais das nossas independências. Não era apenas a autodeterminação. Esta era o caminho para uma vida melhor dos povos que sofriam todas as agruras na sua própria terra. E neste caminho, como bem assinala o historiador Théophile Obenga, já tentamos tudo. Os regimes de partido único, a era dos golpes de Estado e dos coronéis, o caminho do endividamento, as conferências nacionais que fizeram emergir todo o tipo de partidos políticos, embarcando numa confusão sobre a essência do multipartidarismo. Obenga satiriza mesmo com o facto de vermos partidos de todo o tipo de bases – família, etnia, classes profissionais, regiões, etc. O que é certo é que continuamos a observar um continente com pouca influência e poder, pelo contrário, muito dependente. Outrora dos ocidentais, especialmente dos Estados Unidos da América e das superpotências europeias, agora acresce-se a influência decisiva que a China joga na maioria das nossas economias.

É claro para mim que o caminho da afirmação e do renascimento africano depende essencialmente dos africanos, especialmente das lideranças e da juventude. E muito mais da juventude, e como dizia Franz Fanon, no sentido de assumir o seu papel de acelerador da transformação estrutural. “Cada geração deve, com relativa opacidade, descobrir a sua missão, cumpri-la ou traí-la”, lê-se no seu livro Condenados da Terra.

A investigadora moçambicana, Alcinda Honwana, radicada nos EUA, na sua obra O Tempo da Juventude, assinala muito bem o papel da juventude neste empreendimento de disrupção, introduzindo o conceito de ‘waithwood’, muito apoiada na experiência dos jovens na sua terra natal, na África do Sul, Tunísia e Senegal. Uma amostra representativa para um conceito visto sob um prisma multifacetado – da biologia à sociologia. A juventude precisa de sair desta espécie de clausura e imobilismo em que se encontra para assumir a verdadeira transformação estrutural, traduzindo-se num novo contrato social, numa interacção maior com as demais forças da sociedade.

A juventude precisa de ter luz para perceber o caminho a percorrer e para inverter o quadro de extrema pobreza que continua a notar-se na maioria dos países africanos, continuamente dependentes de terceiros, menos cooperantes entre si, não obstante os discursos e o número interminável de instituições pan-africanas que são mais um custo do que os benefícios que aportam para os Estados e a melhoria do bem-estar dos africanos. Sem ser anarquista, pergunto-me muitas vezes: para que serve a União Africana?

Outro ponto que continua a marcar a vida do continente prende-se com a governação. O cúmulo da desgovernação não é a má governação por si só, em grande medida por falta de uma gestão inclusiva e aliada ao conhecimento. Prova disso, encontramos na maioria dos países africanos, sistemas de poder que têm horror ao conhecimento e hostilizam (quando não maltratam) os seus intelectuais e cientistas, que mais facilmente encontram eco, palco e cátedra fora do continente. Mais facilmente os nossos dirigentes ouvem um consultor estrangeiro do que um seu patrício.

O papel das lideranças africanas será o de apontar o caminho para que a sociedade, em especial para que os jovens possam resolver as suas aspirações: formação profissional, emprego e lar. Olhar ao dividendo demográfico tem de traduzir-se num protagonismo mais significativo e empreendedor, que se não passa apenas pelo radicalismo de soluções como a ‘primavera árabe’ e os seus efeitos em países como a Tunísia e o Egipto.

O resultado deste meio século de independências continua a intrigar-me, mas, ao mesmo tempo, faz resplandecer a esperança sobre o avenir onde a liderança e a juventude possam assumir o seu lugar histórico, resignando o ego e valorizando os princípios do ubuntu. Não é mais o eu que conta. Deve ser o nós. E como no exemplo de Mandela, a luta é sempre pelo nós, pela nossa causa justa e colectiva.

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