“Eu repito o mesmo que disse no vídeo, confirmo que sim, é verdade que Patrice Emeri Trovoada mandou matar esses três dirigentes”, disse o antigo militar do extinto ‘Batalhão Búfalo’ sul-africano, ouvido hoje na comissão parlamentar de inquérito constituída para apurar .

Plácido ‘Peter’ Lopes desafiou as autoridades a “trazerem” Patrice Trovoada para São Tomé e Príncipe para o desmentir.

O antigo chefe de Governo (2014-2018), que se encontra ausente do país praticamente desde as eleições legislativas de outubro passado, já foi convocado por duas vezes para ser ouvido na comissão parlamentar, mas nunca compareceu. Fonte parlamentar adiantou à Lusa que Patrice Trovoada será chamado novamente, pela “terceira e última vez”.

“Isso de eu estar aqui a falar não tem interesse. Esse cidadão deveria estar aqui à minha frente para me desmentir”, disse, sublinhando: “Eu tinha a minha vida [na África do Sul], para vir à minha terra fazer o golpe de Estado é porque alguém me recrutou”.

“As pessoas sabem, mas não querem falar a verdade”, lamentou.

O antigo combatente foi interrogado hoje, durante mais de duas horas, pela comissão parlamentar de inquérito (CPI) sobre o golpe de estado de 16 de junho de 2003 em São Tomé. Antes de aceitar falar, impôs como condição que os jornalistas estivessem presentes na sala e “gravassem tudo” o que pretendia revelar.

No conjunto de revelações que fez à CPI, ‘Peter’ Lopes referiu-se a três novos casos: era Patrice Trovoada quem alimentava os 12 elementos do ‘Batalhão Búfalo’ que estavam em São Tomé com “sacos de dinheiro provenientes da sua residência no bairro do Campo de Milho” (periferia da capital); que ele foi recrutado para “meter armamento em São Tomé para o golpe de Estado” e que, durante as eleições presidenciais de 2016, receberam ordens de Patrice Trovoada para “quebrar a perna do ajudante de campo de Pinto da Costa”.

“As pessoas usaram-me e querem continuar a usar-me. Usaram-me para entrar com armamento em São Tomé”, disse, acrescentando: “Eu era a peça principal do golpe de Estado de 2003. Não foi nossa intenção subir para o avião e vir fazer o golpe de Estado, alguém nos recrutou. Muita gente sabe o que aconteceu e continuam com a mesma manobra de enganar”.

Peter Lopes disse ainda que Patrice Trovoada foi o primeiro dirigente a deslocar-se ao quartel-general onde estavam detidos todos os dirigentes do país depois de consumado o golpe de estado.

“Fizemos o golpe na noite do dia 16 de junho de 2003, nas primeiras horas do dia seguinte, ainda de madrugada qual foi o primeiro dirigente que apareceu no quartel, não foi Patrice Trovoada? Porque lhe ligámos a dizer: Venha que já tomámos isto”, revelou.

“Estamos cansados de traidores, estamos cansados de pessoas que usam pessoas paraos seus fins. O mais importante é trazerem aqui este homem para ele dizer na minha frente que o que eu disse é mentira, porque há ainda muita história para se contar”, disse o ex-militar.

‘Peter’ Lopes falou cerca de uma hora, contrariou as declarações de Arlécio Costa e Fernando Pereira (Cobó) e reafirmou que o “ódio entre duas famílias” (a de Pinto da Costa e Miguel Trovoada) está na origem dos problemas do país.

Na audição de hoje a antiga primeira-ministra Maria da Neves – então no poder – não compareceu por estar fora do país e o ex-Presidente Manuel Pinto da Costa também não foi ao parlamento. Segundo fonte parlamentar, estas duas audições ainda deverão ser realizadas.

A comissão de inquérito foi criada na atual legislatura pela maioria constituída pelo Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe – Partido Social Democrata (MLSTP-PSD) e a coligação PCD-UDD-MDFM, não contando com a participação de deputados do Ação Democrática Independente, partido atualmente na oposição e de que Patrice Trovoada foi presidente.

A iniciativa de criar a comissão surgiu depois de, em 2017, ‘Peter’ Lopes ter publicado um vídeo na sua página de rede social Facebook afirmando que Patrice Trovoada foi o financiador do golpe de 2003 e deu ordens para assassinar os ex-Presidentes Manuel Pinto da Costa e Fradique de Menezes – então em funções – e o então ministro Óscar Sousa, que é atual responsável da pasta da Defesa e Ordem Interna no Governo de Jorge Bom Jesus.

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