O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, defendeu esta segunda-feira a alta-comissária da ONU para os Direitos Humanos, após ataques do Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, na sequência de críticas de Michelle Bachelet sobre os direitos humanos no Brasil.

“O secretário-geral está totalmente solidário com ela”, disse o seu porta-voz, Stéphane Dujarric, quando questionado sobre o assunto durante uma conferência de imprensa.

Dujarric assegurou que Guterres sente uma “imensa admiração” por Bachelet, tanto pelo seu trabalho desenvolvido como alta-comissária das Nações Unidas, como pelo “valor que tem demonstrado ao longo da sua vida na luta pelos direitos humanos, tanto profissional quanto pessoalmente”.

Na semana passada, Bolsonaro lançou duras críticas contra a ex-Presidente chilena e alta-comissária da ONU, atacando inclusivamente o seu lado pessoal, em resposta a comentários que Michelle Bachelet havia feito sobre a situação dos direitos humanos no Brasil.

“Michelle Bachelet, comissária dos Direitos Humanos da ONU, seguindo a linha do Macron [Presidente francês] em intrometer-se nos assuntos internos e na soberania brasileira, investe contra o Brasil na agenda de direitos humanos (de bandidos), atacando nossos valorosos policiais civis e militares”, escreveu Bolsonaro no Facebook.

“Diz ainda que o Brasil perde espaço democrático, mas esquece-se de que o seu país só não é uma Cuba graças aos que tiveram a coragem de dar um basta à esquerda em 1973, entre esses comunistas o seu pai, brigadeiro à época”, acrescentou o chefe de Estado brasileiro.

O pai da alta-comissária, general Alberto Bachelet, morreu em 1974 depois de ser torturado por se recusar a juntar-se ao golpe militar liderado por Augusto Pinochet.

“Parece que pessoas que não têm nada para fazer, como Michelle Bachelet, vão para a cadeira de direitos humanos da ONU”, acrescentou o Presidente do Brasil.

A responsável do Alto Comissariado para os Direitos Humanos das Nações Unidas tinha denunciado o aumento dos assassinatos cometidos por agentes policiais no Brasil e chamou a atenção para “discursos que legitimam execuções extrajudiciais e a ausência de prestação de contas”.

A retórica de Bolsonaro contra o crime no seu país é de que “bandido bom é bandido morto”, afirmando ainda que se um polícia mata um criminoso, em qualquer que seja a circunstância, ele deveria receber uma “condecoração” em vez de ser investigado.

Michelle Bachelet aproveitou hoje o seu discurso de abertura do Conselho dos Direitos Humanos, que decorrerá durante as próximas três semanas, em Genebra, para manifestar a sua “profunda preocupação” pela “drástica aceleração” da desflorestação da Amazónia.

“Os incêndios na floresta tropical podem ter um impacto catastrófico na humanidade como um todo, mas os piores efeitos serão sentidos pelas mulheres, homens e crianças que vivem nessas áreas – incluindo muitos povos indígenas”, alertou.

“Esta é uma situação da qual nenhum país, instituição ou líder político pode manter-se à margem”, acrescentou Bachelet, que tem como prioridade da sua agenda de trabalho o reconhecimento das alterações climáticas como fonte de graves violações dos direitos humanos.

A responsável das Nações Unidas acredita que “o número total de mortes e os danos causados nas últimas semanas na Bolívia, Paraguai e Brasil podem nunca ser conhecidos”.

Por isso, exortou as autoridades desses países a garantirem “a implementação de políticas ambientais de longa data e sistemas de incentivo à gestão sustentável, evitando assim, tragédias futuras”.

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