“Há alguns avanços, sim, mas no retrocesso”, resumiu à agência Lusa Evandro Carvalho, professor visitante no Centro de Estudos dos BRICS da Universidade Fudan, em Xangai.

Durante uma visita de Estado a Pequim de apenas um dia, o Presidente brasileiro “limitou-se a cumprir com os mínimos”, ao segurar as “pontes do diálogo” e “garantir os interesses económicos na relação com a China”, descreveu Carvalho.

Bolsonaro tomou posse no início do ano com a promessa de reformular a política externa brasileira, com uma reaproximação aos Estados Unidos e pondo em causa décadas de aliança com o mundo emergente.

Em linha com esse posicionamento, absteve-se em Pequim de referir a parceria estratégica global, cimentada pelas administrações anteriores, ou apoiar formalmente a iniciativa chinesa ‘uma faixa, uma rota’.

Lançada em 2013, pelo Presidente chinês, Xi Jinping, aquela iniciativa foi já inscrita na Constituição chinesa, sugerindo uma mudança radical na política externa de Pequim, que abdicou de um perfil discreto para assumir maior assertividade.

O projeto inclui a construção de linhas ferroviárias, aeroportos, centrais elétricas ou zonas de comércio livre, visando abrir novas vias comerciais e redesenhar o mapa da economia mundial. Mas o maior entrosamento entre Pequim e os mais de cem países envolvidos abarca também o ciberespaço, meios académicos, imprensa ou comércio, numa altura em que os Estados Unidos de Donald Trump rasgam compromissos internacionais do clima à migração ou comércio.

Para José Medeiros da Silva, doutorado em ciência política pela Universidade de São Paulo e professor na Universidade de Estudos Internacionais de Zhejiang, no leste da China, “ficou claro” que a prioridade é a relação económica, mas sem ceder apoio a questões estratégicas “mais sensíveis”, incluindo também a implementação da rede de quinta geração (5G) em parceria com o grupo chinês Huawei.

Washington tem pressionado vários países a excluírem a Huawei na construção de infraestruturas para a Internet do futuro, acusando a empresa de estar sujeita a cooperar com os serviços de informação chineses.

Questionado pelos jornalistas em Pequim sobre uma eventual cooperação com a tecnológica chinesa, Jair Bolsonaro considerou que “por agora, essa hipótese está fora do radar”.

Durante o encontro com o homólogo chinês, Xi Jinping, o líder brasileiro lembrou ainda a interdependência da relação comercial: “Hoje, podemos dizer que o Brasil precisa da China e que a China precisa do Brasil”.

“Estava ansioso por esta visita, porque temos na China o nosso primeiro parceiro comercial, e interessa-nos muito fortalecer esse comércio”, acrescentou.

Porém, o Presidente chinês preferiu enfatizar uma perspetiva “estratégica” e a “longo prazo” nas relações com o Brasil, lembrando a Bolsonaro que a emergência do mundo em desenvolvimento é uma “tendência inalterável”.

Xi Jinping lembrou a importância das relações bilaterais numa altura em que o mundo “enfrenta as mudanças mais profundas dos últimos cem anos”, e disse querer trabalhar com o homólogo brasileiro para manter a estabilidade e prosperidade mundiais e regionais.

A eleição de Bolsonaro foi inicialmente recebida com apreensão pelas autoridades chinesas, também pela sua aproximação a Taiwan e críticas feitas ao investimento chinês durante a campanha.

O Presidente brasileiro tem adotado uma retórica anti-comunista e um alinhamento com Washington, que passou a encarar a potência asiática como rival estratégico.

Mas, em 2018, as exportações para a China representaram 26,8% do total das vendas do Brasil ao exterior e atingiram um pico de 64,2 mil milhões de dólares.

O país latino americano é um importante fornecedor de matérias primas para a China, cujo apetite por soja, petróleo e minério de ferro brasileiros se multiplicou nas últimas décadas, face ao trepidante crescimento da economia chinesa.

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