Marilia Stabile, diretora-geral da .Map, uma consultoria que desenvolveu um Índice de Positividade para avaliar temas relevantes no Brasil a partir da análise de 1,2 milhões de publicações pessoais e artigos de formadores de opinião na internet, disse à Lusa que violência e segurança pública vão ser decisivos nos debates na sociedade durante a campanha eleitoral.

“Os três grandes assuntos das eleições serão desemprego, corrupção e segurança”, afirmou.

A especialista constatou que segurança e corrupção são temas que estão fortemente associados no Brasil.

“O exemplo do Rio de Janeiro deixou clara a associação: faltou recurso, o dinheiro foi roubado [pelos políticos envolvidos em esquemas ilícitos] e as pessoas perceberam que o estado faliu e não teve dinheiro nem para colocar gasolina nos carros dos polícias”, explicou.

Para Marilia Stabile, o problema influenciará as campanhas, mas a população não dará “um cheque em branco” aos candidatos que tentarem promover-se, com promessas e retórica.

“Nas análises que fazemos [das redes sociais] percebemos que as pessoas discutem a violência no dia a dia” e “a população espera um discurso realista, que aponte consequências porque vive inserida no problema, ou seja, num clima de insegurança”, considerou.

Assim que o decreto que passou o comando das forças de segurança do Rio para as mãos dos do Governo central foi anunciado, o tema tornou-se alvo de comentários e avaliações de políticos com ambição de ocupar o cargo máximo do poder executivo do Brasil.

O exPpresidente Luiz Inácio Lula da Silva, líder nas sondagens de opinião sobre às presidências cuja candidatura é incerta porque já foi condenado duas vezes pela Justiça, declarou ter medo de que “a intervenção no Rio de Janeiro seja uma pirotecnia” e avaliou que a medida tinha objetivos eleitorais.

Jair Bolsonaro, deputado conservador que ocupa o segundo lugar nas sondagens de intenção de voto e é conhecido por exaltar o Exército e o uso da força para conter a criminalidade, criticou a forma como a intervenção foi planeada.

“Defendemos a intervenção, mas não desta forma, feita nos porões do Palácio do Planalto”, isto “tudo cheira a remendo e nós queremos algo sério. A insegurança no Rio de Janeiro tem que ser combatida com energia e se for preciso com mais violência”, disse num vídeo publicado na rede social Twitter.

O governador do estado de São Paulo, Geraldo Alckmin, homem influente que articula uma campanha baseada numa coligação de centro-direita, classificou a intervenção como uma “medida drástica”, mas “necessária”.

A ambientalista Marina Silva disse que apoiava o decreto embora o considere “uma medida extrema para lidar com a situação grave de segurança pública”.

Já Ciro Gomes, cotado como opção dos partidos de esquerda caso o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva seja impedido de concorrer, afirmou que a intervenção era um “equívoco grosseiro” porque os militares não são treinados para fazer patrulhamento policial, mas para “matar o inimigo”.

O Governo brasileiro, por sua vez, negou publicamente que o apoio dado às questões de segurança pública oculte ambições eleitorais.

Cinco dias depois da formalização da intervenção no Rio de Janeiro, o porta-voz do Palácio do Planalto, Alexandre Parola, veio a público para afirmar que “a agenda eleitoral não é, nem nunca o será, causa das ações do Presidente”.

O próprio Michel Temer disse que a intervenção era “uma jogada de mestre” sem interesse eleitoral.

“Sou candidato a fazer um bom Governo. Tenho dito reiteradamente que em política as circunstâncias é que ditam a conduta”, disse.

Um levantamento divulgado no último dia 6 pela Confederação Nacional de Transportes (CNT) apontou que 69% dos brasileiros entendem que o Governo acertou ao decretar a intervenção na segurança do Rio de Janeiro.

Marília Stabile também mencionou que os dados da .Map Consultoria de fevereiro constatam uma avaliação positiva da medida (aprovada por 56% a população), mas a medida não aumentou a popularidade de Michel Temer.

“No final de fevereiro, passados quinze dias da intervenção, o Presidente obteve uma aprovação de 2%. A perceção positiva da intervenção não foi transferida para ele”, concluiu.

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