“Não enviamos ninguém ao Brasil. O governo brasileiro mandou uma nota de agradecimento, mas disse que não precisava de ajuda”, contou à Lusa Daniel Russo, até 10 de dezembro passado, sub-secretario de Proteção Civil do Ministério da Segurança da Argentina.

Russo era quem, até a troca de governo na Argentina, estava responsável pelo Serviço Nacional de Luta Contra Incêndios Florestais.

O Ministério da Defesa do Brasil, responsável pela coordenação da denominada “Operação Verde Brasil” que atuou contra os incêndios, confirmou à Lusa que o Brasil dispensou a ajuda argentina.

“Durante a Operação Verde Brasil, ocorrida de 24 de agosto a 24 de outubro, os efetivos mobilizados das Forças Armadas e dos bombeiros brasileiros foram suficientes para o cumprimento da missão”, disse, em nota enviada à Lusa, o governo brasileiro.

A 22 de agosto, o então presidente argentino, Mauricio Macri, telefonou ao seu homólogo brasileiro, Jair Bolsonaro, para lhe oferecer a ajuda especializada argentina no combate aos incêndios na Amazónia.

Na ocasião, Macri disse estar “alarmado e comovido” com os incêndios que tinham aumentado 84% no período em relação ao ano passado.

A 24 de agosto, o Ministério das Relações Exteriores da Argentina emitiu uma nota através da qual informava que “a Argentina tinha posto à disposição cerca de 200 brigadistas com os seus equipamentos”.

A 3 de setembro, considerando iminente a partida dos brigadistas argentinos para o Brasil, o então Presidente, Mauricio Macri, recebeu o contingente na Casa Rosada, sede do Governo argentino.

“O Presidente Macri recebeu os brigadistas que estão preparados para combater o fogo na Amazónia” intitulava a nota da Presidência argentina através da qual Macri dava os parabéns aos especialistas em prontidão para embarcarem ao Brasil.

Pelo lado do Exército, outros cem homens preparavam-se para ajudar tanto o Brasil quanto a Bolívia no apoio logístico.

No entanto, acabaram por seguir apenas para a Bolívia devido à recusa brasileira em aceitar o recurso oferecido pela Argentina.

Apesar da dispensa brasileira, Daniel Russo, quem também estava no encontro entre os brigadistas e o presidente Macri na Casa Rosada, desmitifica o impacto da decisão.

“A ajuda de brigadistas de um país na emergência de outro não é realmente necessária e até complica em termos de logística. É um gasto imenso que se tem ao enviar um contingente e não redunda em benefícios práticos. Quando um governo aceita é para ficar bem com o outro”, minimiza Russo para quem “nem o Brasil, nem a Argentina, precisam de ajuda porque sobram recursos”.

No entanto, o especialista argentino sublinha o sentido territorial que o Brasil tem quando se trata de Amazónia, algo que pode ter influenciado a decisão brasileira.

“O Brasil é muito ciumento da sua soberania. Em geral, os governos brasileiros são muito nacionalistas, mas o atual é ao extremo”, observa.

Durante a Operação Verde Brasil, “o Brasil recebeu auxílio de quatro aeronaves de combate a incêndios oferecidas pelo Chile, um pequeno grupo de peritos dos Estados Unidos, um grupo de bombeiros israelitas para troca de experiências com os bombeiros brasileiros” e apoio do Japão, que “doou barracas e colchões”, informou a nota do Ministério da Defesa do Brasil à Lusa.

Gustavo Nicola, o bombeiro responsável pela Coordenação Única de Operação dos Bombeiros argentinos, conta à Lusa que a lista dos voluntários para enfrentar as chamas no Brasil superava os 400.

“Dos 200 oferecidos, não foi ninguém e o Brasil perdeu a ajuda de 200 brigadistas altamente capacitados para incêndios florestais”, lamenta Gustavo Nicola, para quem os países têm orgulho na hora de aceitarem ajuda porque “expõem as suas vulnerabilidades aos demais”.

“Por mais que a situação o supere, um país resiste em aceitar ajuda. Os políticos não pensam como os bombeiros. Os incêndios não combinam com os políticos”, conclui Nicola, lembrando um ditado argentino aplicável a toda ajuda quando se trata de incêndios: “Aquilo que abunda não prejudica”.

O Brasil sofreu o maior número de focos de incêndio desde 2010. Em novembro, mesmo com o início do período de chuvas na Amazónia, o número de incêndios voltou a subir: 30% em relação a outubro e 15% a mais do que no mesmo período do ano passado.

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