Brasil: De Xuxa a Dória, exposição transforma personalidades brancas em negras

Internautas criticam uso de ‘blackface’, mas artista nega racismo

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Images da exposição “Pourquoi pas?” - Reprodução

Uma exposição que nem sequer foi inaugurada já provoca polêmica nas redes sociais. Em “Pourquoi pas?” (“Por que não?”, em português), a artista e ex-consulesa da França em São Paulo Alexandra Loras transformou, com ajuda da tecnologia, 20 celebridades brancas — da música, da TV e da política — em negros. Por meio digital as peles foram escurecidas e as personalidades ganharam penteados afro.

Ao postar algumas imagens que estarão na mostra em seu Instagram, Alexandra recebeu comentários indignados de internautas que consideram os trabalhos “desfavoráveis” à causa negra. Ela foi acusada de fazer uso do “blackface”, prática comum nos teatros do século XIX, na qual atores brancos pintavam o rosto de preto para interpretar personagens de origem africana e considerada racista há algumas décadas. Alexandra, que é negra, se defendeu dos ataques com um texto reproduzido em todas as imagens que publicou:

Alexandra Loras – Edilson Dantas / O Globo

“Em sua origem, o blackface é uma técnica de maquiagem teatral adotada no século 19 por atores brancos americanos que pintavam seus rostos com carvão para representar os negros de forma estereotipada e jocosa. Em momento algum essa antiga prática norteou a concepção das obras da minha exposição, que será inaugurada no dia 2 de dezembro. Como artista negra, meu objetivo é fazer uma reflexão sobre o protagonismo do negro na sociedade brasileira sem dar qualquer conotação pejorativa aos personagens retratados, mas sim mostrar como o eurocentrismo atual é chocante e absurdo para os negros, pois não somos representados de maneira digna, respeitosa e igualitária. Ao propor um mundo ‘invertido’, com negros em papéis de destaque na sociedade, me pergunto se faríamos os mesmos comentários preconceituosos ou se teríamos as mesmas posturas. Meu desejo é provocar uma reflexão e não resgatar uma ferramenta considerada racista e que ridiculariza o negro”.

CRÍTICAS

Entre as personalidades retratadas na exposição, que tem curadoria do artista e grafiteiro paulistano Ėnivo, estão Silvio Santos, Dilma Rousseff, João Doria, Xuxa, a rainha Elizabeth II, Ana Maria Braga, Gisele Bündchen e William Waack. Na imagem da ex-presidente Dilma, uma usuária comentou: “Black face não é homenagem, não é bonito, e não tem chance de ressignificá-lo. Estude um pouco mais pra entender por que pessoas negras não chegam nesses casos citados por sua ‘obra’, e como não muda nada pintar pessoas brancas de preto”.

Imagem da presidente Dilma Rousseff na exposição “Pourquoi pas?” – Reprodução

Na imagem da apresentadora Xuxa, um visitante escreveu: “A proposta, a ideia, o sentimento que você quer passar às pessoas pode até ser de boa intenção, mostrando ao mundo o choque de uma pessoa negra em destaque (sendo politicamente, ou na mídia) mas cá entre nós? Isto é de um mau gosto horrendo, ultrapassado. Retire isso, não ofenda uma raça. A sua raça. Uma raça que sangra de dentro para fora a cada referência insultuosa, a cada sílaba pronunciada de ódio e humilhação”.

Em meio às críticas, também há algumas mensagens de apoio à artista, mas muitas delas acabaram dando mais munição aos indignados: “O que é mais interessante no seu ‘experimento’ é que apenas brancos curtiram a ideia. Por que será?”, perguntou uma usuária da rede social.

A exposição “Pourquoi pas?” ficará em cartaz de 2 e 22 de dezembro na galeria Rabieh, em São Paulo.

Post de Alexandra Loras no Instragram sobre sua exposição ‘Pourquoi pas?’ – Reprodução

 

 

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