A morte de uma grávida depois de ter sido transportada de barco entre as ilhas cabo-verdianas da Boavista e Sal relançou o debate sobre o transporte de doentes, com o chefe de Estado a reclamar uma solução urgente.

A jovem foi atendida, na quinta-feira, no Centro de Saúde da Boavista com um quadro de gravidez ectópica, tendo sido transferida nessa noite para ilha do Sal, numa embarcação que transporta cargas. Recebida no Hospital Ramiro Figueira, na ilha do Sal, na madrugada de sexta-feira, a mulher, de 30 anos, que sofria de uma cardiopatia mitral, viria a morrer no sábado, depois de ter sido operada e de a sua situação clínica se ter agravado, segundo comunicado da unidade hospitalar.

De acordo com a versão de familiares, citada pela imprensa local, a opção pelo transporte por via marítima aconteceu porque a companhia aérea que opera em exclusivo as ligações entre ilhas, a Binter, alegou lotação esgotada para não transportar a jovem. Fonte da Binter, citada pela estação pública de televisão de Cabo Verde (TCV), adiantou que, por ser de noite, era tecnicamente impossível descolar ou aterrar qualquer avião no aeroporto da Boavista, informando que durante a manhã do mesmo dia o transporte de doentes foi feito normalmente.

O envio por via marítima foi autorizado pela delegada de Saúde da Boavista e, segundo o comunicado do Hospital Ramiro Figueira, era o “método que mais rapidamente assegurava que a doente teria o tratamento adequado”.

O Governo cabo-verdiano, o principal alvo da indignação com esta morte, anunciou, em comunicado, “um inquérito que deverá servir para apurar a verdade e o cabal esclarecimento da situação”. O Presidente da República, Jorge Carlos Fonseca, considerou que, independente dos contornos que levaram à morte da jovem, é necessário encontrar uma “solução urgente” para o transporte de doentes entre as ilhas.

“O que aconteceu na Boavista, independentemente dos contornos precisos dos factos e do apuramento rigoroso e atempado do acontecido, é lastimável e de muita gravidade. Não sendo um caso único, deve merecer uma atenção particular da parte do Governo. Uma solução precisa de ser encontrada sem mais demoras, com urgência”, considerou Jorge Carlos Fonseca. Para o chefe de Estado, “a solução deve ser encontrada rapidamente para evitar repetição de situações verdadeiramente irrazoáveis. Não se pode adiar mais”.

Jorge Carlos Fonseca adiantou ter já abordado com o Governo “algumas vezes e por diferentes vias” a questão, adiantando que “dentro do que cabe ao Presidente da República” voltará “a agir para que o problema se resolva de uma forma adequada, eficiente e urgente.

Este foi o terceiro caso em que dificuldades no transporte de doentes por via aérea entre as ilhas cabo-verdianas obrigou a fazer esse transporte por via marítima, uma opção mais demorada e, muitas vezes, em condições precárias.

A presidente do maior partido da oposição (PAICV), Janira Hoppfer Almada, manifestou indignação pela morte da jovem, considerando que a situação se está a tornar frequente demais para ser ignorada. “Não quero ver mais nenhum cabo-verdiano a morrer porque não foi evacuado dentro do nosso próprio país, em voos de menos de 30 minutos. Não quero ver mais nenhuma mulher grávida a morrer e a perder o seu bebé porque não conseguiu fazer um voo de menos de 20 minutos. Não quero ver mais nenhuma família a ficar destroçada pela perda de uma vida humana, porque o seu país não foi capaz de lhe arranjar um lugar, num voo de 10 minutos, do qual dependia a sua vida”, disse.

O primeiro-ministro Ulisses Correia e Silva anunciou recentemente estar a negociar a aquisição de um avião destinado ao transporte de doentes entre ilhas, estimando que deva chegar ao país até ao final do ano.

A ilha da Boavista, o segundo mais importante destino turístico de Cabo Verde, a seguir ao Sal, recebe anualmente cerca de 200 mil turistas e é servida apenas por um Centro de Saúde.

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