“Faz-se enfim justiça com a inauguração da Casa do Cinema Manoel de Oliveira. Justiça ao nosso maior e mais reconhecido cineasta, justiça ao nosso cinema, que temos o dever de defender e de preservar, e justiça ao Porto, cidade berço do cinema português”, afirmou Marcelo Rebelo de Sousa durante a cerimónia de abertura ao público do espaço, assinado pelo arquiteto Álvaro Siza Vieira.

Convicto de que “Manoel de Oliveira estará muito feliz pela justiça” que lhe foi prestada “no dia de São João, padroeiro da cidade do Porto”, o chefe de Estado recordou o cineasta enquanto “artista fiel às suas ideias e obsessões”, cujo “verdadeiro continente submerso que é a obra que não chegou a ser filmada” encontra na Casa do Cinema agora inaugurada “o seu lugar natural”.

“Na era do digital e da desmaterialização, ao menos aparente, nem nos lembramos da materialidade perecível do cinema. (…) Manoel de Oliveira torna-nos mais conscientes dessas questões por causa da própria duração da sua obra. Oito décadas de cineasta, caso sem igual”, adiantou.

Para Marcelo Rebelo de Sousa, trata-se de “uma obra que começou no cinema mudo e terminou em 2014, contemporânea do modernismo, precursora do neorrealismo, contemporânea atenta à voga do documentário antropológico, desestabilizadora da ligação com a literatura, defensora de um cinema do tempo e da lentidão, interrogativa face ao tempo presente e às grandes narrativas ocidentais”.

“Com Manoel de Oliveira, mestre da duração em vários sentidos, aprendemos a ter uma noção de longo termo do cinema e uma noção de que o cinema é também a memória do cinema e que isso não depende do inefável, mas da decisão política, do trabalho, do trabalho cultural, da organização financeira, material e institucional”, acrescentou.

Segundo Marcelo Rebelo de Sousa, a inauguração da Casa do Cinema Manoel de Oliveira – seis anos passados sobre o acordo celebrado entre o cineasta e a Fundação de Serralves e quatro após a sua morte, em 2 de abril de 2015, – é “ainda muito justo para o Porto”, cidade que foi palco de muitos dos seus filmes e “onde Oliveira nasceu, onde a família geriu uma fábrica, onde estudou, onde foi atleta, piloto de automóveis e cineasta, onde viveu e morreu”.

“Há muitos génios que, pelo facto de o serem, acabam por predeterminar a sua posteridade. Mas Manoel de Oliveira quis ir além disso, quis acompanhar de perto o que seria a sua herança. Não o pôde concretizar em vida, o que lhe teria dado uma alegria ilimitada, (…) mas de onde se encontra – e só pode encontrar-se no mais alto dos altos do para além do mundo -, Manoel de Oliveira estará também ele feliz, muito feliz, pela justiça que hoje lhe é prestada”, sustentou, concluindo: “Oliveira voltou hoje a casa, à Casa Manoel de Oliveira”.

Na sua intervenção na cerimónia, a ministra da Cultura, Graça Fonseca, apontou a Casa do Cinema Manoel de Oliveira como “um lugar primordial de conservação e descoberta da grandeza e originalidade da obra de um criador ilustre que prestigiou Portugal”, recordando-o como “um dos maiores realizadores em qualquer tempo, em qualquer lugar, em qualquer território”.

Manuel Casimiro, filho do cineasta, referiu-se à inauguração como “um culminar feliz de um longo caminho” e de “uma história por vezes muito penosa”, considerando que o processo de criação da Casa do Cinema Manoel de Oliveira “se arrastou ao longo de muitos, demasiados anos, mais de 20”.

18 hectares do parque de Serralves

Cifrada em 3,7 milhões de euros, a Casa do Cinema Manoel de Oliveira foi edificada de raiz nos 18 hectares do parque de Serralves, ao lado do edifício das garagens do Conde de Vizela, antigo proprietário da quinta.

A Casa do Cinema apresenta o guião da vida e obra de Manoel Oliveira, através de fotografias, textos, desenhos preparatórios, adereços, guiões de filmes e também prémios, cartazes, correspondência e toda a biblioteca do cineasta, num vasto núcleo documental que visa aprofundar o conhecimento da sua obra e da história do cinema, da arte e da cultura em Portugal nos séculos XX e XXI.

A nova infraestrutura foi inaugurada com duas exposições: uma permanente (onde é proposto um percurso através da globalidade da obra de Manoel de Oliveira e onde estão expostas algumas das dezenas de galardões e homenagens que o cineasta ganhou) e uma temporária, batizada “Manoel de Oliveira: A Casa”, que reflete sobre as representações da “casa” na obra do cineasta.

Em depósito na Fundação de Serralves desde 2013, o acervo do cineasta foi descrito à agência Lusa pelo diretor da Casa do Cinema, António Preto, como um “riquíssimo espólio documental que permite uma nova compreensão e um novo enquadramento sobre a obra de Manoel de Oliveira, mas é também um núcleo documental precioso para compreender o cinema português, de uma maneira geral, e a cultura do século XX e início do século XXI”.

A Palma de Ouro de Cannes (2008), o Leopardo de Ouro de Locarno (1992), o Leão de Ouro de Veneza (2004) e a homenagem do Festival de Cinema Internacional de Tóquio (1997) e do American Film Institute (AFI/2007) são alguns dos diversos galardões e homenagens que o cineasta Manoel de Oliveira (1908-2015) conquistou ao longo dos seus 106 anos de vida e que estão em exposição na Casa do Cinema.

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