Combate ao desemprego

A Opinião de Sousa Jamba

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Sousa Jamba, angolano, jornalista, escritor.

Se os planos de combate à pobreza tivessem saída no mercado internacional, o continente africano seria riquíssimo. Há calhamaços e calhamaços sobre como melhorar a vida dos africanos; vários peritos fizeram fortunas elaborando receitas para superar a pobreza africana.

Cá mesmo, na nossa querida Angola, há o último lançamento, o “Plano de Acção e Promoção de Empregabilidade”, que, aparentemente, poderá conter a elevadíssima taxa de desemprego — sobretudo entre a juventude. Em quase vinte anos que venho a escrever para a imprensa angolana. Não hesitei sempre em premir uma nota para advertir e afirmar que muitos desses planos têm acabado em nada. O Planalto Central, onde estou, está cheio de centenas e centenas de projectos que visavam ajudar a juventude, mas eventualmente enriqueceram alguns Chico Espertos que distorceram tudo em seu favor.

Há o plano de dar kits para formar pedreiros, carpinteiros, canalizadores etc. Imagino exactamente o que poderia acontecer: os kits são dados a indivíduos, que nunca trabalharam (é por isso que são desempregados) e os mesmos vão vender os instrumentos que iriam melhorar as suas vidas. Fala-se, até, de empréstimos (equivalentes a cinco mil dólares) a pequenos empresários que vão ser proferidos através do Banco Sol. Temos aqui um perfeitíssimo cenário para um falhanço.

Nos últimos três anos, tenho passado muito tempo no Planalto Central – sobretudo na Aldeia Camela Amões, que fica na comuna do Chiumbo, de onde sou oriundo. A vida de muitos primos meus na aldeia do Manico, que fica da Aldeia Camela Amões, mudou consideravelmente; eles não só passaram a ter um salário mas o mais importante é obter um ofício.

Quando o empresário Segunda Amões começou o projecto de transformar a aldeia típica da Camela Amões numa localidade do primeiro mundo, vários jovens na área foram convidados. Muitos não tinham nenhuma profissão. O empresário Segunda Amões identificou aqueles que tinham trabalhado em vários projectos e misturou com os outros que foram aprendendo.

Lembro-me claramente do tempo em que só uma equipa pequena é que sabia fazer os adobes usados para a construção de casas sociais. Hoje há centenas e centenas de jovens na Camela que produzem os mesmos. Na aldeia da Cavava, que fica ao lado da Camela Amões, lembro-me de ter tido conversas com mestres que tinham trabalhado com várias empresas de construção de renome internacional, que passaram por Angola. Noutro dia, vi jovens a construírem uma lindíssima casa (que faz parte do projecto Camela Amões) usando a perícia que adquiriram no terreno. Vi, na Camela Amões, jovens que vieram que mal conduziam um carrinho- de-mão, a serem transformados em operadores de máquinas escavadoras. O Domingos, o meu amigo jovem da aldeia de Sanchipanguele, que sempre ia comigo para explorar a mata, já que tenho muito medo de cobras, já não está lá; ele agora trabalha numa gigantesca operação em Luanda, onde opera uma máquina graças ao tempo que ele esteve na Camela Amões.

Claro que a operação da Aldeia Camela Amões, que vou seguindo de perto, não foi fácil. Houve várias situações em que pensava que o meu Mestrado de uma universidade conceituada dos Estados Unidos iria me ajudar a encontrar soluções. Havia situações em que eu não entendia bem o que o Segunda Amões estava a fazer. Lá estamos: há situações que não se encaixam nas análises vindas da KPMG ou Boston Consulting Group, situações que só podem ser bem entendidas por operadores que são mestres do terreno.

A maioria das análises do sucesso dos ditos “tigres asiáticos” insistem que, entre várias coisas, o que esteve por trás do avanço impressionante foi sempre ter as características específicas dos países em conta. Sim, o Governo foi garantindo que as rotas fossem operacionais, que certas indústrias (voltadas para a exportação) tivessem vários empurrões governamentais; que a cultura da elevadíssima poupança privada servisse as comunidades, etc. Porém, ao fim do dia, os governos foram apoiando empresários como Segunda Amões, que eram indiscutivelmente bons na implementação de projectos, para transformar a economia. Lá, os governos valorizavam muito a capacidade de implementar os planos. O operador que sabia quais seriam os constrangimentos, os imprevistos, os factores culturais, etc., é, na maior parte dos casos, quem participava em parcerias público-privadas. 

O outro dia, no São João, Huambo, vi uns asiáticos a operar uma gigantesca máquina de costura de sofás. Pensei que não havia razão nenhuma porque os angolanos poderiam fazer aquilo. Curiosamente, na Aldeia Camela Amões, há um programa em que senhoras e senhores da aldeia passaram a obter máquinas a crédito para produzirem roupas, cortinas etc. O empresário Segunda Amões pegou nos seus próprios fundos, emprestou os mesmos à vários operadores de pequenos negócios e todos estão a florescer. Um casal, em particular, teve um projecto agrícola cujo rendimento está a ser impressionante. Eu vi, com os meus próprios olhos, famílias a saírem daquela pobreza humilhante do Terceiro Mundo e a passarem para uma existência respeitável em poucos meses.

Na Aldeia Camela Amões será inaugurada, brevemente, uma belíssima capela católica; todo mundo que vai para lá pensa que os bancos, lindos e bem polidos, foram importados. A realidade é que são produtos de carpinteiros angolanos. Algumas semanas atrás, estive com amigos vindos de outros países africanos que não acreditavam que a Aldeia Camela Amões era mesmo o resultado de uma sincronização dos esforços de vários angolanos. A redução significativa do desemprego em Angola dependerá, sem dúvida, da reprodução de várias aldeias do estilo da Camela Amões…

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