As autoridades guineenses ordenaram que a população fique em casa, num confinamento social, para evitar a propagação do novo coronavírus, mas a maioria da população continua com a mesma rotina diária, com muitos contactos e aproximação entre pessoas.

Oficialmente, os mercados estão encerrados, mas nos bairros periféricos de Bissau nascem diariamente locais improvisados onde a população vai abastecer-se de produtos de primeira necessidade, aproveitando o período das 07:00 às 11:00 em que é permitido comprar e vender.

O mercado do Bandim, principal local do comércio da Guiné-Bissau, deixou de funcionar, mas facilmente se podem ver pessoas aglomeradas no mercado do Caracol, no porto de Bandim, na feira do Bairro Militar ou no cruzamento do prédio dos Antigos Combatentes, sem que sejam levadas em conta as restrições de aglomerações impostas pelas autoridades.

Na tentativa de compra e venda, antes que apareça a Guarda Nacional, que manda fechar tudo, a população fala de tudo menos do novo coronavírus, que muitos guineenses continuam a considerar “uma invenção das autoridades, para sacar dinheiro à comunidade internacional”.

Esta tem sido a tónica de muitas intervenções de ouvintes nos programas interativos na rádio Capital FM, que tem dedicado parte da sua programação para falar da doença que já infetou oito pessoas na Guiné-Bissau.

Em comparação ao centro de Bissau, que está mais deserto, com o controle de transportes por parte da polícia, que quer impor maior aperto às limitações de movimentos, em decorrência do estado de emergência em curso, nos bairros periféricos a vida decorre normalmente.

Crianças jogam futebol, homens no convívio social – com jogos de damas, do lido ou de cartas – mulheres nos afazeres diários, muita gente aglomerada em distâncias curtíssimas umas das outras.

Essa realidade é a que se podia ver igualmente às portas de bancos comerciais de Bissau, com centenas de pessoas em apertadas filas para entrar, na esperança de levantar o salário do mês de março creditado na conta.

Justino Gomes, 43 anos, professor, disse à Lusa, numa conversa à distância, no meio de empurrões, que até compreende as medidas impostas pelas autoridades, mas que não podia ficar em casa, sem dinheiro e sem comida.

“Tenho medo desta doença, mas tenho crianças para alimentar”, observou Justino Gomes, que quer levantar o salário e tentar comprar comida “antes que a situação piore”.

Se em Bissau, em algumas zonas ainda é respeitada a ordem de confinamento social, em conversas com pessoas no interior do país, as medidas praticamente são desconhecidas pela população.

Djulde Baldé, comerciante em Bula, no norte, disse à Lusa que “o povo faz a sua vida normal” e Luís Ndate, colaborador de uma ONG que atua no domínio da vulgarização agrícola no sul da Guiné-Bissau, observou que “em certas aldeias, a população nem sequer ouviu falar da doença”.

As autoridades tentam sensibilizar sobre os perigos que representa o novo coronavírus para a saúde pública, às vezes até recorrendo a medidas de força, mas na realidade grande maioria da população guineense ou não acredita na existência da doença ou pensa que é um “problema dos brancos”, como afirmou à Lusa Lucas José, 23 anos, lavador de carros na zona de Plubá, subúrbios de Bissau.

Na Guiné-Bissau estão confirmados oito casos da covid-19.

O número de mortes em África subiu para 173, com os casos confirmados a ultrapassarem os 5.000 em 48 países, de acordo com as estatísticas sobre a doença no continente.

O novo coronavírus, responsável pela pandemia da covid-19, já infetou mais de 828 mil pessoas em todo o mundo, das quais morreram mais de 41 mil.

Dos casos de infeção, pelo menos 165 mil são considerados curados.

Depois de surgir na China, em dezembro, o surto espalhou-se por todo o mundo, o que levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a declarar uma situação de pandemia.

Publicidade