O PAICV, maior partido da oposição cabo-verdiana, afirmou hoje que a situação da covid-19 na cidade da Praia “é muito grave”, falando em falhas, com o MpD a classificar a posição como campanha para as eleições autárquicas.

“Na Praia, por mais que não queiramos alarmar as pessoas, a situação é muito grave, desde logo porque o número de infetados é expressivo, mas também porque não se sabe, com exatidão, o que nos espera nos próximos dias ou meses”, afirmou o líder parlamentar do Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV), Rui Semedo, na declaração política que abriu a sessão plenária ordinária de dois dias.

A Praia (ilha de Santiago), com casos diários da doença, que totalizam já 207 diagnosticados em pelo menos 25 bairros da cidade (total acumulado do país é de 270 casos), é o principal foco de preocupação das autoridades, por estar em situação de transmissão comunitária da covid-19.

“O que é que não terá funcionado bem na Praia? Porque como as coisas estão, com tantos infetados, não podemos dizer que está tudo bem porque não está bem (…). Entendemos a posição das autoridades que não querem ver a população em pânico, mas a situação da Praia preocupa-nos a todos quando sabemos que já ultrapassamos a cifra de duas centenas de casos, numa população inferior a 200 mil habitantes”, apontou o deputado do PAICV.

Depois da declaração política, o Movimento para a Democracia (maioritário no parlamento e que suporta o Governo), insurgiu-se, pela voz da deputada Filomena Gonçalves: “Vê-se que claramente é o programa eleitoral para as próximas eleições autárquicas. Entretanto insinua que na Praia verificaram-se falhas. Eu estou a desafiá-lo para apresentar falhas”, interpelou a deputada do MpD, dirigindo-se a Rui Semedo, que antes, na mesma declaração, defendeu investimento em estradas, requalificação de bairros e saneamento, na Praia.

O líder da bancada parlamentar do PAICV ainda retorquiu que “as autoridades disseram que vão fazer um inquérito para verificar o que é que aconteceu”, numa aparente referência aos problemas verificadas na quarentena obrigatória de funcionários de um hotel na ilha da Boa Vista, o que levou a deputada do MpD a classificar as observações da declaração política como “insinuações maldosas”.

“Eu estou a desafiá-lo. Insisto consigo. Desafio-o a apresentar as falhas, para serem corrigidas e se quiser pode ir mais longe. Apresente propostas e soluções”, afirmou Filomena Gonçalves, num repto que acabou por ficar sem resposta.

Cabo Verde deverá realizar depois de setembro as suas oitavas eleições autárquicas, com o MpD a controlar 18 das 22 câmaras do país – incluindo a Praia -, e o PAICV duas.

“As autoridades devem esclarecer a população se este crescimento contínuo de casos positivos na Praia são apenas episódios isolados ou se entramos numa espiral descontrolada de crescimento que atingirá um pico máximo e irá depois regredir, naturalmente. Agora que o mal já está instalado que fazer para minimizar esta situação e salvar esta cidade?”, questionou Rui Semedo.

Ainda na declaração política do PAICV, o líder parlamentar admitiu que “as medidas inicialmente tomadas adiaram um pouco a propagação do vírus, em todo o país”, contudo “não foram suficientes para impedir que as ilhas da Boa Vista e de Santiago fossem duramente atingidas pela fúria da covid-19”.

“Algumas lições teremos de tirar desta situação concreta que vivemos para podermos estar prevenidos para outras situações futuras e, para isso, devemos perguntar claramente que erros ou falhas foram cometidos? As autoridades já assumiram que houve erros e os mesmos devem servir-nos de processo de aprendizagem para uma melhor ação”, afirmou Rui Semedo.

Ainda centrando na capital do país, Rui Semedo afirmou: “Se na Boa Vista sabemos que o foco partiu de hotéis e se confinou, praticamente, num bairro, já em Santiago e, mais particularmente, na Praia, teremos que saber quais as condições ótimas que foram encontradas para permitir a fácil propagação da doença e podermos agir sobre elas”.

Cabo Verde cumpre até às 24:00 desta quinta-feira o terceiro período de estado de emergência, apenas em vigor nas ilhas de Santiago e da Boa Vista, devendo ainda hoje o Presidente da República anunciar se será ou não prorrogado.

“O que nos deixa ainda mais preocupados é facto de todo este crescimento de infetados estar a acontecer em pleno estado de emergência em que as pessoas deveriam estar confinadas, de circulação extremamente limitada e com contactos muito reduzidos”, acusou Rui Semedo.

Acrescentou que “outra razão da preocupação é a infeção dos profissionais de saúde”.

“Algo terá falhado que levou a uma exagerada exposição destes profissionais, talvez sem a proteção necessária, talvez sem as informações fundamentais, talvez sem os meios indispensáveis, talvez outras coisas para o exercício da sua profissão, enfim ficam as dúvidas e as perguntas que esperam respostas”, sublinhou.

O PAICV, pela voz do líder parlamentar, defendeu ainda que é necessário “fazer mais testes” – segundo o Governo já foram feitos mais de 2.000 para 270 casos confirmados de covid-19 no país -, bem como “estabelecer mecanismos mais eficientes de controlar o acesso das pessoas aos bens alimentares fundamentais neste período mais conturbado”.

A nível global, segundo um balanço da agência de notícias AFP, a pandemia de covid-19 já provocou mais de 290 mil mortos e infetou mais de 4,2 milhões de pessoas em 195 países e territórios.

Mais de 1,4 milhões de doentes foram considerados curados.

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