No quarto dia de estado de emergência em Angola, a presença de polícias e militares faz-se sentir em Luanda, mas muitos cidadãos continuam a sair à rua,  queixando-se de falta de alternativas para cumprir a quarentena.

Há duas ‘Luandas’ na capital angolana: uma, urbana, onde é visível a redução do fluxo automóvel e de pessoas; outra, suburbana, onde permanecem multidões que tentam manter as suas rotinas, apesar das medidas decretadas pelo Governo angolano para conter a propagação da covid-19.

Se na Luanda urbana, os habitantes parecem acatar as medidas de quarentena e isolamento social com relativa serenidade, na outra Luanda, a do comércio informal, dos ‘musseques’ (bairros de autoconstrução) e dos táxis coletivos conhecidos como ‘candongueiros’, o tom é de lamento e indignação pela falta de alternativas.

Hoje, muitos luandenses percorreram grandes distâncias a pé por falta de táxi, devido às novas regras que exigem maior distanciamento entre pessoas, limitando os táxis coletivos a um terço da capacidade.

Moisés Lucas, 21 anos de idade, engraxador, espera táxi para trabalhar, numa fila com algumas dezenas de pessoas que aguardam transporte na avenida Deolinda Rodrigyes, uma das mais movimentadas da cidade.

“Não estamos a conseguir fazer nada, está muito difícil ir trabalhar. Quinze dias é muito”, desabafa.

Alberto Neto desespera pelo táxi “há duas ou três horas”, para conseguir chegar a casa depois de visitar uma tia: “Está demais, este país já é muito pobre, não tem capacidade de ajudar o povo que está nesta crise”, queixa-se.

“Essas pessoas não trabalham, vivem de ‘zunga’ [venda ambulante], têm filhos. O Governo não consegue fazer nada por esse povo, como vai proibir de circular?”, desafia.

Alberto diz que não tinha alternativa a sair de casa pois é o único apoio da tia idosa: “Vim dar qualquer coisa para conseguir sustentar-se, já é uma senhora idosa” que vive sozinha e “não tem ninguém que a cuide”, justifica.

José Domingos, segurança, está há três horas a tentar chegar ao trabalho: “A polícia está a fazer o seu trabalho, mas a população não está a cumprir, não sei o que se passa”, critica.

Apesar de alguns aglomerados de gente, sobretudo nos multibancos e pontos de venda de gás, o estado de emergência manifesta-se um pouco por todo o lado: há quem mostre que está disponível para cumprir as regras afixando na entrada “Estamos de quarentena, não estamos a receber ninguém” e há filas mais ordeiras e espaçadas junto de algumas padarias e pequenos negócios.

O efetivo policial foi reforçado com os elementos das Forças Armadas que estão em “prontidão combativa até ao fim do estado de emergência” às 23:59 do dia 11 de abril e veem-se homens fardados um pouco por todo o lado.

Muitos cidadãos são obrigados a mostrar os documentos de identificação e credenciais nas barreiras policiais que cercam vários pontos de acesso à cidade e impõem horários de entrada e saída.

Junto à entrada de alguns bairros, como o Bita, onde um grupo de polícias controla a passagem dos veículos, um agente com um ar mais ameaçador vai batendo com o cassetete nos vários carros que por ali tentam passar, tentando demover quem quer sair.

À medida que se entra nas zonas mais afastadas do centro, e mais pobres, há uma crescente proximidade entre pessoas.

O Mercado do 30, um gigantesco espaço no município de Viana, está fechado ao público mas por lá circulam ainda vários vendedores que tentam escoar a sua mercadoria.

Muitos viram-se obrigados a levar os bens para vender um pouco mais à frente, num terreno ao ar livre, ainda menos higiénico do que o próprio mercado, aglomerando-se numa massa caótica de gente, frutas, legumes e pedaços de carne pejados de moscas.

Os vendedores revoltam-se e levantam a voz. Todos querem ser ouvidos e afirmam por ter sido escorraçados pela polícia.

Constança João Calombi veio fazer compras de comida para casa mas “está difícil”.

“Saímos da vila a pé para fazer as compras, não sabemos o que se passa, deram hora até as 13:00 para vir comprar os alimentos, mas não estamos a conseguir, está uma confusão”, desabafa.

Margarida Francisco Barroso, vendedora de farinha, também não poupa críticas: “Era para vender das 06:00 às 13:00, pelo menos o governo podia facilitar”.

Garantiu que a polícia “não deixou vender” e que tiveram de encontrar alternativas, espalhando-se pelas redondezas “para não estragar” os produtos.

A Lusa procurou saber os motivos do encerramento do Mercado do 30, apesar de o estado de emergência ter previsto a abertura dos mercados informais durante a manhã.

“Ordens superiores”, disse um responsável que pediu para não ser identificado.

“Houve desobediência. As pessoas não acataram e decidiram fechar”, adiantou um outro fiscal que se encontrava no local.

Apesar dos controlos nas fronteiras das províncias, as mercadorias continuam a chegar a Luanda.

Junto a Benfica, onde a estrada dá acesso às províncias do Sul, um camionista descarrega a sua carga de tomate, acabado de chegar do Namibe, após dois dias de viagem.

Josefa António veio abastecer-se e também ela expressa descontentamento face às medidas tomadas: “Trabalho aqui no mercado, de onde sai o meu pão de cada dia. Ficando 15 dias em casa sem conseguir vender não sei como vou sobreviver”.

Contou que no dia anterior a polícia impediu a passagem, apesar de terem dito que o mercado iria funcionar entre as 06:00 e as 13:00.

“Está muito complicado, nem todo o mundo trabalha numa empresa, nós dependemos da praça”, lamentou, queixando-se do elevado custo do sabão e da água que não permite que todos se protejam contra o novo coronavírus, responsável pela covid-19, que em Angola já fez dois mortos, entre sete casos positivos.

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