Em Heliópolis e Paraisópolis, a covid-19 tornou-se num novo obstáculo para os cerca de 320 mil moradores que já lutavam por sobreviver nas maiores favelas da maior cidade brasileira, com problemas estruturais de exclusão social, segurança e pobreza.

O filho de Andreia Paula da Silva, moradora de Paraisópolis, perdeu o emprego num cabeleireiro, depois de as autoridades terem decretado a paralisação das atividades não essenciais. Agora, a família vive com a pequena pensão estatal porque a mãe é deficiente visual.

“Meu filho é cabeleireiro e não está conseguindo clientes agora. Na verdade, ganhávamos também vendendo bebidas, cigarros e doces. [O dinheiro] não está dando e este mês não vou conseguir pagar minhas contas”, disse Andreia Paula da Silva.

Além da preocupação com o dinheiro, a moradora contou que tem medo da pandemia, apesar de muitos dos seus vizinhos não acreditarem que podem ficar infetados.

“Tenho uma vizinha que está com sintomas de coronavírus. Estou com medo porque estamos vendo vários casos aqui em Paraisópolis”, frisou a moradora que se tornou voluntária de uma associação que realiza ações de cuidados que inclui recolha de doações e distribuição de comida até a contratação de ambulâncias próprias para atender doentes dentro da favela.

Uma sondagem chamada “Coronavírus nas favelas”, divulgada na semana passada pelo Data Favela, indicou que 72% dos morares destas comunidades não conseguiram manter o padrão de rendimento depois das cidades e estados terem decretado o fim dos serviços não essenciais.

O levantamento realizou 1.142 entrevistas em 262 favelas de todos os estados do Brasil e descobriu que 86% dos moradores destas comunidades acreditam que não terão dinheiro para comprar comida e outros itens básicos.

Em Heliópolis, maior favela de São Paulo, a situação é a mesma. O relato geral dos moradores é de falta de dinheiro, medo e dependência em relação à ação das organizações sociais que, sem apoio do poder público, organizam iniciativas para tentar impedir que a doença se espalhe na comunidade.

Maria Helena da Silva, moradora da favela há 40 anos, não sai de casa para evitar o vírus: “Só sei que esta doença está matando o povo todo que está pegando e a gente não pode mais sair de dentro de casa. Eu não saio de dentro de casa porque minha filha não me deixa sair. Não estou gostando disso não. Aqui em Heliópolis todo mundo está tendo cuidado porque a doença que veio não é boa para ninguém”.

A moradora, que tem cancro, explicou que o pequeno bar onde sua família obtinha dinheiro para sobreviver estava aberto, mas os clientes quase não existem.

Maria Helena da Silva foi uma das contempladas com doações de papel higiénico, sabonete, sabão em pós e outros itens de higiene distribuídos pela Associações dos Moradores de Heliópolis e Região (Unas).

Já o cantor José Carlos Santos Sabino, também morador de Heliópolis, fez questão de mencionar a importância de aumentar cuidados pessoais para prevenir a infeção do novo coronavírus logo depois de receber os produtos de higiene distribuídos pela Unas.

“Eu acho que o pessoal, o público em geral, tem que se proteger dessa doença que está afetando todo mundo. Aqui a maioria não acredita, tem que usar máscara, se proteger e se cuidar”, avisou.

Mas, na favela, com casas apertadas, num imenso mar de habitações precárias, a exclusão social é outra doença.”O Governo está aí, vê o lado dele e [o da] gente aqui, da comunidade não. O lado deles é [de] quem tem dinheiro, e a gente não tem [dinheiro] para se proteger”, concluiu Sabino.

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