A vida cultural e artística no país, sofreu transformações profundas, razões pelas quais, os grupos e companhias de teatro têm procurado fazer uma adaptação aos novos tempos, disse, ontem ao Jornal de Angola, o director e encenador da companhia Enigma Teatro, Tony Frampênio.

O Enigma Teatro, adiantou, volta a reunir-se agora com a reabertura das salas, “mas o retorno aos ensaios só a partir do próximo mês”. “O regresso aos espectáculos de teatro vai, necessariamente, trazer para as salas, alternativas e convencionais, uma nova forma de fazer teatro” , assegurou.

O confinamento, acrescentou, atingiu níveis de saturação, que podem ser atenuadas agora, com a reabertura dos teatros e estabelecimentos similares. “O impacto psicológico e económico causado pela paralisação de quase toda a vida social no país merece uma atenção especial, em particular das futuras produções cénicas, como forma de mostrar o novo modo de vida dos angolanos”, disse.

Intervenção social

O encenador adiantou que têm já preparada as peças “A raiva” e “A grande questão”, “por serem as mais adaptáveis e maleáveis, sempre que existam novos factos sociais, assim como podem ser apresentadas numa perspectiva diferente, pelo facto de o foco ser o quotidiano”. “Sempre que há novidade, procuramos fazer alguns arranjos nas peças em questão, para ajudar a sensibilizar as populações sobre um tema social relevante”.

Escrita e dirigida por Tony Frampênio, as peças são os primeiros sinais de que o Enigma Teatro pretende apostar forte na apresentação de espectáculos de intervenção social. Das 30 peças já produzidas durante o confinamento social, o grupo tem ainda em carteira “Corona do mato e da cidade”, que tem sido apresentada em trechos de 3 a 4 minutos em lives, nas plataformas digitais.

De carácter comunitário, o espectáculo, esclareceu, foi feito de forma a levar o teatro angolano para as redes sociais, o novo palco das actividades artísticas. “Estamos a preparar uma outra peça de 45 minutos sobre o impacto da Covid-19 nas famílias”, destacou.

Quanto aos futuros espectáculos, disse, o grupo vai actuar apenas com as devidas medidas de biossegurança, inclusive o distanciamento entre os actores e, caso seja necessários, actuações com máscaras. “Como queremos mostrar cenas caricatas que foram surgindo ao longo deste período, então certas peças vão requerer uma adaptação às mais fidedigna dos actores”.

As peças, adiantou, vão também focar noutros aspectos, incluindo alguns negativos, criados pelo Estado de Emergência, como os perigos ocultos com o uso de máscaras. “Temas ligados com a depressão e a discriminação causadas pela pandemia também serão abordadas”, prometeu.

Grupos querem evitar lotações

A criação de mecanismos de biossegurança para se evitar as lotações nas salas de espectáculos vão ser determinantes, durante este período de Situação de Calamidade pública, alertou, o director artístico e encenador do Colectivo de artes Nguizane Tuxicane, Agostinho Cassoma.

A grande questão, disse, é saber como os fazedores de teatro e o público vão se adaptar a este novo formato. Entre receios e optimismo, o encenador mostrou-se preocupado, se os grupos e as instituições vão conseguir criar condições para evitar a propagação da pandemia. O regresso do grupo aos palcos, assegurou, está marcado para os meses de Agosto e Setembro. Até lá, explicou, estão a ser criadas internamente condições de trabalho para não colocar em risco a vida dos actores.

“Os meios de comunicação social e as redes sociais têm tido um papel importante na mobilização do público para os espectáculos”, defendeu Agostinho Cassoma, cujo colectivo foi o vencedor do Prémio Nacional de Cultura e Artes em 2018.

A preocupação com as crianças

Para a directora artística da Companhia de teatro Arte Sol, Solange Feijó, uma das maiores preocupações são os trabalhos artísticos do colectivo que envolvem as crianças. “Quando se trabalha com crianças a situação torna-se ainda mais precária, por ser uma franja da sociedade muito sensível a contaminação da Covid-19”, disse, acrescentando que têm estado a enfrentar vários obstáculos neste retorno das actividades artísticas.

Depois do cancelamento da primeira edição do Festival Infanto-juvenil de Teatro, denominado “Nzoji ya Mona Ndegue”, marcado para o passado mês Abril, criado com o objectivo de incentivar a descoberta de jovens talentos, o grupo não tem nada preparado para os próximos dias.

Com vários projecto e peças de teatro adiadas, no momento, o Arte Sol vai focar na realização da “Feira da Criança Artista”, marcada para o final do ano, “mas só caso a situação melhore”. “Não queremos arriscar, porque trabalhamos maioritariamente com crianças e estamos a procurar ser o mais cautelosos possíveis”, disse.

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