O milho é um alimento base da dieta alimentar da maioria dos moçambicanos.

A FAO monitoriza a praga da lagarta de funil de milho nas zonas arrasadas pelo Idai, em março, através de uma aplicação para telemóveis.

Os últimos dados dão conta de uma “infestação muito elevada” na sementeira de recuperação pós-ciclone que resultou em baixos níveis de produção, disse à Lusa Domingos Cugala, coordenador do projeto da FAO para apoio a pequenos produtores em Moçambique

“A lagarta estará a infestar todas as culturas semeadas nestas zonas”, funcionando como “reservatório” da praga para a próxima campanha, precisou.

Apesar de não conseguir estimar o número de camponeses afetados, sublinhou que “haverá infestação séria” nessas zonas.

Para minimizar a situação, a FAO está a treinar 40 técnicos agrários das organizações não governamentais que operam em programas de emergência nas províncias de Sofala, Manica, Tete e Zambézia, no centro de Moçambique, na monitorização e gestão da praga – além de assistir os produtores destas zonas no controlo biológico da praga, através de plantas nativas.

Segundo Domingos Cugala, os camponeses não têm recursos para comprar produtos químicos para controlo da praga e os poucos que optam pelos pesticidas usam-nos de forma incorreta.

Zacarias Chimene, um camponês de Tica, em Nhamatanda (Sofala), repetiu quatro vezes a sementeira de milho no seu campo de cultivo desde abril, depois da passagem do ciclone Idai, para tentar contornar a infestação que definhava as culturas.

O camponês, de 53 anos, contou à Lusa que na terceira sementeira aplicou excessivamente produtos químicos no seu campo, para recuperar a produção, o que lhe causou problemas de saúde.

Por sua vez, Domingos Tomo, oficial de meio de sustento da Fundação Contra a Fome, que atua na Gorongosa (Sofala), revelou que metade dos camponeses locais teve baixos rendimentos na sementeira que se seguiu ao ciclone, devido à praga, considerando crítica a situação de fome no distrito.

“O milho acabava por se estragar por causa desta lagarta que nós não descobríamos”, explicou o gestor, adiantando que espera melhores resultados depois da assistência e treino pela FAO.

Já Marcelo Raiva, técnico agrónomo da Organização Rural de Ajuda Mútua (ORAM), considerou que o estado da segurança alimentar em Nhamatanda passou de um nível mínimo para “crítico” depois da passagem do ciclone e da invasão da praga.

Juntos, os dois fatores causaram perdas na produção dos camponeses.

“Muitos camponeses no distrito de Nhamatanda lançaram sementes na segunda época e, mesmo assim, não conseguiram ter nada, não conseguiram obter nenhum rendimento”, frisou.

De acordo com Marcelo Raiva, “a lagarta devastou todo o campo”, esperando-se agora que o treino da FAO minimize os “prejuízos atuais” da praga da lagarta do milho, no seio dos camponeses afetados.

O organismo das Nações Unidas está a preparar a importação, do Brasil, de inimigos naturais da lagarta invasora, tendo já sido formados técnicos agrónomos estatais sobre o processo de reprodução dos parasitas que se alimentam do ovo da lagarta e sobre a sua libertação nos terrenos dos camponeses.

Cerca de 115.500 famílias das quatro províncias do centro do país serão abastecidas com sementes de milho, feijão nhemba e arroz, para a próxima época agrícola, que arranca em novembro.

A FAO estima que o ciclone Idai causou a perda de cerca de 800 mil hectares de colheitas na região centro de Moçambique, agravando a insegurança alimentar e má nutrição daquela área e do país.

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