O perfil de Calouste Gulbenkian (1869-1955), na sua vida pública, como empresário e filantropo, e na privada, nos seus desejos, mistérios e contradições, é apresentado numa exposição que é inaugurada no sábado, na fundação com o seu nome, em Lisboa.

“Calouste: uma vida, não uma exposição” é o título desta mostra organizada no âmbito das celebrações dos 150 anos do nascimento do homem de negócios e filantropo, pela Fundação Calouste Gulbenkian, com curadoria de Paulo Pires do Vale.

“Uma vida é muito mais complexa do que uma identidade que pode ser exposta ou conhecida”, apontou o curador, numa visita guiada para aos jornalistas, por um percurso que começa pelo fim da vida do homem de negócios arménio, revelando, desde logo, as orientações do seu espírito.

Isto porque, à entrada, o visitante recebe dois pequenos cartões com citações do empresário e magnata norte-americano Henry Ford, e do filósofo romano Séneca, cópias dos encontrados na carteira de Gulbenkian, quando ele morreu.

Enquanto o cartão de Ford fala numa espécie de fórmula de sucesso, que aconselha a ser reservado, não entrar em controvérsias, e “ficar longe dos advogados”, a de Séneca incita a viver cada dia da vida com intensidade, e de forma agradável.

“Gulbenkian era um homem muito prático, mas com uma preocupação espiritual na sua vida”, apontou Paulo Pires do Vale sobre aquele a quem chamavam “o senhor 5%”, devido à participação que detinha da Companhia de Petróleo Turca.

Com uma vida muito viajada, e residências em Paris e em Londres, Calouste viria a estabelecer-se em Lisboa, onde chegou, em 1942, fugindo à Segunda Guerra Mundial, e aqui viria a deixar a sua fortuna e legado.

Ele foi sempre muito reservado, e nunca quis exposição pública“, comentou o curador, lembrando que há muito poucas fotografias do empresário, e nenhum filme.

Paulo Pires do Vale escolheu várias referências e objetos, desde livros pessoais, cartas, telegramas, objetos de arte, as malas de viagem para Lisboa, e uma radiografia ao tórax, para propor aos visitantes que criem o seu próprio ‘puzzle’, sobre quem foi Gulbenkian.

A antecâmara da sala onde se encontra a exposição começa pelo impacto que o empresário e filantropo teve na vida de muitas pessoas em Portugal, com uma série de entrevistas em vídeo a autores que receberam bolsas de estudo, pessoas que foram estimuladas a seguir artes depois de assistirem a espetáculos ou a exposições, ou até àqueles que se conheceram nos jardins da fundação, e chegaram a casar.

Ao percorrer a exposição, os visitantes poderão ter acesso a “um passado que nunca está fechado, porque nunca há uma biografia totalmente definida”.

Fotografias da construção dos edifícios da fundação, o livro de atas da primeira reunião da administração inicial, a última obra comprada por Gulbenkian para a sua coleção – a pintura “A Rua de Saint-Vincent, em Montmartre”, de Stanislas Lépine -, parte da sua biblioteca relacionada com a natureza e os animais, que adorava, são alguns elementos para o público compor uma história de vida intensa.

Além das conquistas de Gulbenkian, quer nos negócios, com as participações em várias petrolíferas, estão também registadas as frustrações de um homem muito rico, que não conseguiu comprar tudo o que queria – como o quadro de Goya, “La Condesa de Chinchón”, que está hoje no Museu do Prado – e o facto de ter querido ser cientista.

A exposição acaba com o seu nascimento, em 23 de março de 1869, data que até hoje ainda deixa dúvidas, no antigo Império Otomano.

A mostra, que abre ao público no domingo, ficará patente até 31 de dezembro na galeria do piso inferior, no edifício sede da Gulbenkian.

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