O investigador cabo-verdiano e professor universitário Odair Barros Varela aponta o reforço da industrialização e produção continental interna, bem como a interligação das economias a nível do continente como sendo os principais do desafios da África.

Em declarações à Inforpress, por ocasião do Dia da África, que hoje se assinala, Odair Barros Varela, director do mestrado em Integração Regional da África na Universidade de Cabo Verde (Uni-CV), salientou, entretanto, que esses desafios são os preconizados a serem ultrapassados com a criação do Acordo de Comércio Livre em África já em vigor e cuja implementação poderá ficar um pouco lenta, devido à pandemia da covid-19.

“Aliás, a zona de comércio livre visa isso mesmo, ultrapassar o grande desafio do continente neste momento que é interligar as economias. No fundo, é ter uma economia de escala continental para aproveitar o mercado interno, porque o continente africano exporta muito pouco para fora e o primeiro passo para um continente ou um país transformar-se num grande exportador é saber explorar bem o mercado interno”, sustentou.

O investigador cita como exemplo uma região da China, onde as trocas internas atingem quase 60%, enquanto em África a média ainda situa-se à volta dos 10 a 14%, para dizer que se a Acordo de Comércio Livre em África for bem implementado o comércio intra-africano pode chegar aos 45 a 50%.

“Isso seria fantástico e levaria a um grande aumento do comércio intra-continental e das economias nacionais”, disse, realçando que a grande produção dos países africanos tem sido exportada directamente para as ex-potenciais coloniais.

Neste sentido, defendeu a necessidade de se romper com as estruturas coloniais ainda existentes.

“Para isso, é preciso acabar com as barreiras internas. Temos as fronteiras fictícias, combater grupos armados. Então, no fundo, é acabar com todas essas barreiras para alargar o mercado e reduzir a dependência externa. Depender de produtos como o petróleo, matérias-primas, como ouro e diamante não levará ao desenvolvimento do continente”, sustentou.

O acordo de livre comércio pretende liberalizar o comércio no continente e tem como objectivo eliminar as tarifas aduaneiras em 90% dos produtos.

Este acordo, que cria a zona de comércio livre em África, permitirá criar o maior mercado do mundo com um Produto Interno Bruto (PIB) acumulado a ascender a 2,5 bilhões de dólares, de acordo com estimativas anteriores à pandemia de COVID-19.

A nível político, Odair Barros Varela aponta a necessidade numa aposta cada vez mais na renovação das lideranças que sejam comprometidas com as populações e com os jovens, e não preocupadas mais com a perpetuação no poder.

Cinquenta sete anos depois, o Dia de África está a ser celebrado sob o signo da pandemia. Facto que, segundo o professor universitário, leva-se a que se reflicta um pouco sobre os factores que irão exigir maiores investimentos, e neste particular aponta o sector da saúde.

Ainda assim, afirmou que o continente africano não está assim tão mau como se pensava, ou então como os midias acidentais chegaram a avançar.

“Por exemplo, África é o continente que neste momento tem menos óbitos no que toca a Covid-19. E creio que isso se deve à experiência que o continente tem em lidar com epidemias, experiências de isolamento. Temos o casos do ébola, da malária”, citou.

Citou ainda a facilidade com que é possível realizar testes rápidos para despistes de covid-19 em alguns países africanos, como é o caso de Senegal, para mostrar que ao nível do continente africano tem sido feito um “trabalho meritório”, pondo em cheque as “estimativas catastróficas” que estavam em cima da mesa no quadro dessa pandemia que já matou mais de 340 mil pessoas, das quais apenas cerca de 3.250 em África.

Em maio de 1963, à medida que a luta pela independência do domínio colonial ganhava força, líderes de Estados africanos independentes e representantes de movimentos de libertação reuniram-se em Adis Abeba, na Etiópia, para formar uma frente unida na luta pela independência total do continente.

Da reunião saiu a carta que criaria a primeira instituição continental pós-independência de África, a Organização de Unidade Africana (OUA), antecessora da atual União Africana.

A OUA, que preconizava uma África unida, livre e responsável pelo seu próprio destino, foi estabelecida a 25 de maio de 1963, que seria também declarado o Dia da África.

Em 2002, a OUA foi substituída pela União Africana, que reafirmou os objetivos de “uma África integrada, próspera e pacífica, impulsionada pelos seus cidadãos e representando uma força dinâmica na cena mundial”.

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