Diversificação da economia requer seriedade e foco

A Opinião de Filomeno Manaças

0
Filomeno Manaças, angolano, jornalista

Numa altura em que o preço do pão subiu, como que a acompanhar a onda dos aumentos dos preços de outros produtos, num movimento em cascata que as autoridades fiscais se mostram impotentes para travar, recusei-me a ficar indiferente à notícia publicada na edição de 26.11 deste jornal, que dava conta do apodrecimento de 200 toneladas de trigo no campo, mais propriamente no Chinguar (Bié), por falta de máquinas para a colheita.

E recusei-me a ficar indiferente, porque a matéria, produzida pela nossa agência de notícias, traz outros detalhes informativos que não podem passar despercebidos a qualquer leitor. É que não se trata daquelas notícias em que a gente lê e fica saciado com a informação e dá o assunto por encerrado. Pelo contrário. A notícia traz a público revelações que permitem tirar conclusões pertinentes mas também suscitam muitas interrogações.

Reza a peça jornalística que Alfeu Vinevala declarou que, depois de ter sido “incentivado” por responsáveis institucionais a produzir trigo, fê-lo em 230 hectares, mas, por falta de máquinas, apenas foram colhidos 30 hectares, à razão de 2 toneladas por hectare, de forma manual, por 50 pessoas em três meses, com o restante a estragar-se no campo.

Fazendo as contas, concluímos que foram colhidas 60 toneladas de trigo e o empresário perdeu, nos restantes 200 hectares, à volta de 400 toneladas do cereal.

Segundo ainda a mesma notícia, Vinevala afirmou ter contactado detentores de máquinas – que não citou -, mas estes não aceitaram cedê-las, apesar de prontificar-se a pagar. “O produto, semeado em Fevereiro, devia ser retirado do campo até Setembro último, o que não aconteceu. Ultrapassado esse período, estragou por causa das chuvas”, esclareceu o mesmo.

Os factos narrados dizem-nos que o Chinguar pode ser um grande produtor de trigo e mostram o paradoxo que têm sido muitos dos investimentos feitos, por não acautelarem as diferentes fases de implementação de um determinado projeto, de modo a assegurar que a cadeia esteja completa. Dito de outro modo, que seja um “projeto integrado” capaz de garantir o tratamento do produto, desde o princípio até ao seu estágio final.

Mas, ao mesmo tempo que tiramos estas conclusões, ficamos com pulgas atrás das orelhas e perguntamo-nos por que razão, mesmo tendo o agricultor se prontificado a pagar, os detentores de máquinas para colher o cereal não as cederam? É normal esse procedimento? – é a pergunta que martela a consciência de qualquer um, porque o país não se pode dar ao luxo de perder 400 toneladas de trigo pelas razões que foram avançadas. É que o assunto passou a ser de interesse público e deixou de ser uma questão que diz respeito só ao agricultor.
Sobretudo quando a mesma notícia dá conta que um administrador das Grandes Moagens de Angola declarou à imprensa, em Luanda, ter contactado um grande produtor de trigo do Chinguar para a compra do produto, mas o mesmo não lhe conseguia sequer dar o preço, porque não sabia como colher o cereal.

Mas há ainda outros dados que, confesso, na minha santa ignorância, me deixaram mais intrigado. É o caso de o diretor do Gabinete Provincial da Agricultura do Bié, Marcolino Sandema, ter afirmado que o referido fazendeiro foi aconselhado, pelo ex-ministro do sector, Marcos Nhunga, a “não efetuar a produção de trigo, tendo em conta os riscos que o mesmo iria atravessar na sua transformação e comercialização”. Sandemba salientou, igualmente, que o Gabinete Provincial não dispõe de recursos para aquisição do equipamento de colheita, limitando-se ao apoio técnico sobre como desenvolver e aumentar a produção. O responsável da agricultura da província rematou a conversa dizendo que “o agricultor beneficiou de crédito bancário que lhe possibilitava comprar equipamento de colheita de trigo”.

Vamos por partes:
1 – Fosse eu ministro da Agricultura, e tendo conhecimento da falta que o trigo faz ao país, não iria nunca desaconselhar o produtor a investir na plantação do cereal, sabendo da sua predisposição e dos benefícios que daí poderiam advir. Haveria sim de incentivá-lo e procurar assegurar que outros empresários se associassem, de modo a eliminar ou reduzir ao mínimo possível os riscos de colapso, porque é por esses trilhos que se alcança a diversificação da economia. Não fazê-lo é continuar a cultivar a dependência das importações, é continuar a despender divisas para a compra de um produto que, está visto, podemos perfeitamente produzir no país. A menos que a estratégia seja continuar a importar…
2 – A revelação de que o agricultor até teve crédito bancário para comprar uma debulhadora remete-nos para a seguinte questão: Por que razão não a adquiriu? O que fez com o dinheiro?
É que, tendo sido dada à estampa a notícia, não tendo o agricultor vindo a público explicar as razões por que não fez a compra e não tendo, também, produzido uma nota de esclarecimento, na cabeça do leitor ficam muitas interrogações e interpretações à volta do assunto.

À guisa de remate para esta conversa, devo sublinhar que as questões que aqui são levantadas não visam levar o empresário Alfeu Vinevala a desistir. Muito pelo contrário. Iniciativas como essas devem ser encorajadas, até porque, no passado, vimos muitas do género morrerem na praia, porque outros interesses ligados ao negócio das importações falaram mais alto e, hoje, o país está a pagar por isso.

Acredito que, se o projeto tiver os apoios necessários, em pouco tempo, podemos triplicar, até mesmo quintuplicar a produção de trigo no Chinguar e, quem sabe?!, produzir em quantidades que nos permitam mesmo armazenar o grão. O que se constata é que, na hora de fazer as coisas, há muitos “rodriguinhos” e nós precisamos de nos desfazer rapidamente desse modo de pensar e agir. Apostar na diversificação da economia requer seriedade e foco.

Publicidade