Do homem negro ao homem preto

A Opinião de Filipe Zau

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Filipe Zau, angolano, Ph. D em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais

Este assunto faz parte de uma secção de um capítulo do livro, «Os negros em Portugal; Uma presença silenciosa», da autoria de Luís Ramos Tinhorão, editado pela Caminho, em 2ª edição, em 1988.

Segundo este autor brasileiro, “uma das dificuldades da determinação do número de escravos negros africanos que, desde o início do século XV, entraram em Portugal, está relacionada com o facto de os portugueses terem utilizado a expressão “negro” para designar, de forma genérica, todos os tons de cor de pele mais amorenada com os quais se relacionavam: 
– No século XIII, ao resumir no Livro V da sua «General Estória» as notícias do tempo sobre a Etiópia, já Afonso, o Sábio, informava que “hão os homens d’aquela terra um color mui negro”;
– No século XIV, a palavra era “negro” chegou a ser utilizada inclusive como um sobrenome característico de cor escura da pele, como aconteceu na corte do mestre de Avis (1385-1433), onde um dos oficiais de sua fazenda – certamente um judeu sefardim – era conhecido por David Negro. Os sefarditas são descendentes de judeus originários de Espanha e Portugal.

No século XIX, muito mais tarde, ao querer demonstrar no seu livro «Das Origens da Escravidão Moderna em Portugal» os diferentes tipos de cativos levados para Portugal “desde a tomada de Ceuta até à época de D. João II, o historiador António Pedro de Carvalho ainda os chama a todos de negros. E, ao classificá-los em três castas de homens de raça negra”, exemplificava: “mouros azenegues tomados em actos de guerra, “negros gentios cativados por excesso dos capitães” e “negros gentios escravizados em África».

As únicas indicações capazes de permitir a identificação de um negro africano propriamente dito, era quando os escritos de cronistas, navegadores ou autoridades se referiam a “tiópios”, ou “etíopes”, “guinéus”, ou “gentios” de determinados pontos de África sabidamente habitados por naturais africanos melanóides. Essa dubiedade só iria desaparecer quando, como resultado de um longo processo de observação, o povo passou a denominar o tipo de negro de pele mais escura com o nome da cor, que, por comparação, lhe correspondia na linguagem comum, ou seja, a “preta”. A partir de então, um negro cuja pele fosse tão escura que lembrasse a “cor preta”, a partir do amorenado ou pardo até aos tons mais fechados, mas para o povo em geral, o “negro” mais caracteristicamente africano passaria a ser sempre o “preto”.

Os filólogos, por seu turno, procuraram transferir o problema do contexto histórico em que ocorreu a operação semântica para a etimologia da palavra “preto”, em si. O étimo da palavra “preto” como significado de pessoa ou coisa de cor muito escura ou negra, ainda está por determinar. No Brasil o problema foi levantado no início do século XX pelo gramático Alfredo Gomes, ao propor como origem de “preto” o verbo latino “sperno”, desprezar, fazer pouco caso, de onde derivaria o adjectivo “spretus, a um” desprezado, rejeitado, e o substantivo “spretus, us”, desprezo, desdém.

Contra essa proposta, que, desde o século XIX, envolvia a influência de preconceitos antropológicos muito em voga e nascidos do esforço “científico” de interpretar a História de forma a justificar o imperialismo europeu (o negro, raça inferior, e por isso levado à escravidão, condizia a ideia de coisa desprezível a cor da sua pele).

Em 1905, levantou-se a voz de outro gramático brasileiro, o maranhense Prof. Hemetério José dos Santos. Em Setembro daquele ano, um pequeno estudo seria publicado no «Almanaque Brasileiro Garnier de 1907» onde o Prof. Hemetério, que era negro, denunciou a tese de Alfredo Gomes, já que, “na alta e na média antiguidade, o cativeiro não foi opróbrio só do negro: todas as raças foram submetidas ao estado servil e o ‘branco’ o percebeu nessa dura provação de bravia e encarniçada luta de povo contra povo”. Lembrou também que, em português de fins do século XV e inícios do século XVI “já era de uso popular a palavra ‘preto’ para designar tudo o que fosse de cor ébano, aplicando-se indiscriminadamente, quer aos homens, quer às coisas. E logo após algumas citações do emprego da palavra ‘preto’ para homem negro, luto ou cor escura, em geral, se situam também na obra de Gil Vicente, que correspondem a registos do início do século XVI, em diante. E acrescenta: 

“Na linguagem popular, ‘preto’ representa um colorido mais forte do que ‘negro’, de uso mais geral para designar a raça simplesmente, e Oliveira Martins, muito lido em crónicas e alfarrábios, assim o emprega no «Brasil e as colónias portuguesas»: Se o negro é preto na Costa da Guiné, os obongos do Gabão são de um amarelo sujo”.

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