Portugal segue com algum atraso o processo de transformação digital. Segundo dados da IDC, apenas 37% das organizações nacionais têm uma estratégia de transformação digital alinhada com a estratégia de negócio. Nos Estados Unidos, a percentagem é de 50%. Estes analistas estimam que, em 2021, mais de metade da economia mundial esteja digitalizada. Em Portugal, na mesma altura, apenas cerca de 30% o estará.

Gabriel Coimbra, vice-presidente de grupo da IDC EMEA & diretor geral da empresa em Portugal, explica ao Jornal Económico a razão deste atraso: “Este gap deve-se sobretudo ao facto de grande parte das organizações nacionais ainda não conseguirem compreender a transformação digital de forma transversal, como a capacidade de repensar os processos, a experiência do ecossistema e o desenvolvimento de novos produtos e serviços com base nas tecnologias de terceira Plataforma e  Aceleradores de Inovação.”

Na mesma linha, também a Gartner aponta que a “indústria está a encontrar dificuldades em recolher e desenvolver requisitos de digitalização de negócio”. O problema não é exclusivamente português, estendendo-se ao resto da Europa, como assinala Eduardo Mastranza, associado executivo da Gartner Executive Programs, devido, principalmente, “à falta de recursos e talentos e às dimensões dos mercados, que não são suficientemente grandes para que todas as empresas desenvolvam a própria posição de forma autónoma”. A Gartner aponta a criação de ecossistemas de colaboração entre indústrias, que deverá contemplar um quarto das empresas envolvidas na Indústria 4.0 em 2020.

Sérgio Baptista, presidente IAMCP Portugal e IAMCP EMEA, diz-nos que, em matéria de transformação digital, há um Portugal a duas velocidades, se não mesmo a três. “Existe um Portugal positivo que está a aproveitar e um Portugal dormente que acredita que a velocidade a que as transformações se vão operar permitem tempos de reação mais preguiçosos. Existe ainda um outro Portugal desligado, cuja opinião de hoje contará muito pouco daqui a uns meses”.

Nuno Figueiredo, membro da administração da Ábaco Consultores, alinha pelo mesmo diapasão. Há muitas empresas disponíveis para abraçar as oportunidades e introduzir inovação nos seus produtos ou processos. Porém, há ainda um elevado número de empresas, que, embora percebendo as mais-valias da transformação digital, ainda não conseguiram adotar, de forma contínua, “estratégias de inovação integradas, aliando aquisições, parcerias, investimento e desenvolvimento interno”.

Como forma de ultrapassar este bloqueio, o gestor defende que é necessária uma maior perceção de que o trabalho em rede entre empresas, parceiros tecnológicos, universidades e associações empresariais é fundamental para a criação de valor para todos.

Susana Soares, diretora de Marketing da Fujitsu Portugal, defende que são já muitas as empresas portuguesas que abraçaram o processo, e destaca a importância de estarem a fazê-lo em cocriação com parceiros tecnológicos. Entre outros exemplos cita o da Queijaria Almocreva de Beja, no Baixo Alentejo, que recorreu ao Instituto de Soldadura e Qualidade (ISQ), e que, em cocriação com a empresa japonesa, desenvolveu uma plataforma de transformação digital, que além de “aumentar a eficiência dos processos, melhorou a gestão e contribuiu para a sustentabilidade do negócio”.

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