O académico guineense Carlos Lopes foi adjunto de Kofi Annan na ONU e é hoje professor na Nelson Mandela School of Public Governance, na Cidade do Cabo. O Diário de Notícias entrevistou-o em Lisboa, onde participou na conferência ÁFRICA XXI. Na entrevista, Carlos Lopes prevê, em parte, um quadro favorável ao futuro de África. “Vai ser uma espécie de reservatório da juventude mundial, a tal ponto que uma em cada duas crianças no mundo, a partir de 2040, são africanas”.

O primeiro erro, quando se fala de África, é fazê-lo como se fosse toda igual – porque estamos a referir realidades muito diferentes. Já não falo só da tradicional divisão entre África do Norte, árabe, e África subsaariana. Falo de um país como a África do Sul, que não é comparável à Etiópia; ou de um Moçambique, bem diferente de uma Nigéria. Portanto, é melhor falar de Áfricas?

Sim. Isso seria o mais correto, até porque, do ponto de vista do contexto histórico, há muitas diferenças. Mas, ao mesmo tempo, faz sentido falar de uma África para certas coisas. Por exemplo, o conjunto dos países africanos tem uma grande dependência das matérias-primas. Mesmo aqueles que não possuem uma grande riqueza de matérias-primas acabam por, por relações de vizinhança ou por dificuldades logísticas, depender um pouco dessa relação que África tem com as matérias-primas. Na classificação das Nações Unidas, há 35 países em África que são altamente dependentes de exportação de matérias-primas. E essa definição comporta os países que têm pelo menos 80 por cento das suas exportações.

Isso pode abranger desde um gigante petrolífero como a Nigéria, até um pequeno país…
Pode ser um pequeno país como a Guiné-Bissau que exporta castanha de caju. Podem ser matérias-primas mais extrativas, outras não, mas quase todos os países têm essas características e eu penso que a transformação estrutural da África passa necessariamente por essa mudança. E aí nós vemos como um país como a Argélia pode parecer muito diferente de um país como Angola, mas, do ponto de vista da estrutura económica, são muito parecidos. Um país como Marrocos, que está numa senda de industrialização, pode ser na aparência muito diferente de um país como a Etiópia, mas o programa de transformação estrutural da Etiópia, em termos de industrialização, é muito parecido. Há semelhanças e há também diferenças.
E outra característica que acho importante do ponto de vista estatístico: dividiu-se muito a África em dois pedaços. A África do Norte é sempre apresentada nos organismos internacionais junto com o Médio Oriente, com o qual ainda tem menos que ver, a não ser a língua, mas, do ponto de vista da estrutura económica, os países do Golfo não têm nada que ver com os países da África do Norte. E a África subsaariana muitas vezes é encaixada com as Caraíbas e com o Pacífico, como é o caso das negociações com a Europa. Mas também tem muito pouco que ver com as Caraíbas e tem muito pouco a ver com o Pacífico. Ou seja, temos uma espécie de mentalidade meio colonial que dividiu o mundo em diferentes pedaços que são reconhecíveis e que existe um certo conforto no tipo de análise que se faz e acaba por se encaixar, digamos, na gestão desse conforto. Por exemplo, na geografia, continuamos a utilizar a projeção cartográfica de Mercator, que não tem nada que ver com a massa territorial, quando existe uma projeção, a de Peters, que dá, efetivamente, um planisfério correto.

Evidente nessa questão do Mercator é Angola parecer do tamanho de Espanha, quando é na realidade três vezes maior.
Exato. Aí temos a situação em que uma empresa de alta tecnologia como a Google, no seu Google Maps, continua a utilizar o Mercator. Tem que ver com uma espécie de conforto que leva a que as pessoas analisem África de um certo prisma.

Acha que o Mercator desvaloriza África?
Tenho a certeza. Não é uma desvalorização acidental, porque se as pessoas soubessem que África é do tamanho dos Estados Unidos, da China, da Índia e da Europa Ocidental e do Japão juntos, as pessoas teriam uma outra imagem do continente em termos de diversidade. E, aí sim, poderiam entender que, de facto, a África é muito mais complexa do que se imagina. Por outro lado, nós sabemos que seis economias representam 70 por cento do PIB africano. Portanto, nós temos um conjunto de países, 40 e tal países, que são muito pequeninos do ponto de vista económico, à escala mundial, e, portanto, se não houver semblante de unidade para poder dar, digamos, estofo, para que esses países possam evoluir, desenvolver-se, negociar… é muito difícil.

Olhando para uma África anglófona, uma lusófona, uma francófona, o legado colonial faz diferença hoje em dia ou ao fim de 50 anos de independência isso já se esbateu?
Ainda existem muitos traços que podem ser verificados de herança colonial diferente nos vários países. Mas, de uma maneira geral, acho que já se esbateu. Por exemplo, nós temos países da África Austral, anglófonos, que parecem muito mais organizados e estruturados e que tiveram, digamos, uma urbanização consequente, tiveram uma descentralização administrativa e que têm características muito mais próximas da era industrial. Mas também temos exemplos de países anglófonos como a Nigéria ou a Serra Leoa que estão num descalabro total. Também temos neste momento países que crescem muito na África dita francófona, como é o caso da Costa do Marfim, como é o caso do Senegal, e depois temos países que estão numa letargia total em termos de desenvolvimento, que é o caso de um país como os Camarões.

A África lusófona é mais coerente…
Não. Temos o caso de Cabo Verde, que tem uma trajetória consequente, e temos uma Guiné-Bissau, que está em conflito perene.

Esses dois países tiveram até um processo de luta de libertação comum…
E até, digamos, de história colonial muito próxima e com uma administração comum durante a maior parte da sua vivência colonial. Isto prova que são as características e os contextos específicos de cada país que determinam um pouco a política. Mas há grandes traços da política africana que são comuns a todos. Por exemplo, a construção do Estado pós-colonial em África, na maior parte dos casos, foi uma extensão dos direitos adquiridos pelos cidadãos aos sujeitos. Porque o que existia durante o período colonial era que havia uma categoria, uma elite, digamos, que era considerada cidadã e tinha todos os direitos de cidadania. E aí incluía-se uma parte da população africana, que nós chamávamos de assimilados.

Com as independências, automaticamente toda a gente passou a ser cidadão…
Na retórica. Porque, se não tem sequer um registo civil – e no caso de 40 por cento da população africana não tem -, para o Estado não existe. Fala-se muito da informalidade no sector económico, mas é uma informalidade que vai muito para além da economia. Se a pessoa não tem registo civil, não tem certidão de nascimento ou até certidão de óbito, não existe para o Estado. E, portanto, faz transações económicas e sobrevive para lá da existência legal.

Estamos a falar de pessoas que não têm acesso à saúde, educação, porque oficialmente não existem. Disse 40 por cento?
40 por cento dos africanos. E isso é transversal em quase todos os países. Alguns têm de uma forma mais profunda e outros não. E hoje em dia tudo isso é possível de superar através da biometria. Como foi feito, aliás, na Índia, que tinha o mesmo problema. Portanto, conhece-se a técnica e a tecnologia para o fazer, mas ainda não é o caso. Nós temos também outras características como a forma como a administração se orientou para as indústrias extrativas. Têm tudo de colonial. Não é só, por exemplo, o facto de se exportar petróleo, diamantes ou ouro ou outras coisas desse estilo. É também a infraestrutura que é posta a funcionar para esse tipo de produção e para esse tipo de economia. E isto não é diferente na África do Norte, não é diferente na África do Sul. Na África do Sul será a platina, na Argélia será o gás e o petróleo, mas temos sempre a infraestrutura ligada à extração.
Pode perceber-se, por exemplo, que, no período imediato pós-independência, talvez não houvesse elites preparadas para gerir uma economia mais complexa. Mas, mais uma vez, estamos a falar de 50 anos depois.
Hoje em dia, não existe esse problema, digamos, de capacidades. Durante bastante tempo, o problema e o debate na ajuda ao desenvolvimento era a criação de competências técnicas e havia cooperação internacional para isso. Hoje em dia, nós não temos esse problema. Temos o problema, sim, de que na maior parte dos países africanos não existe capacidade de absorção de toda a qualidade de mão-de-obra disponível. E por isso é que a diáspora se alimenta da exportação, digamos, de cérebros africanos. Temos estatísticas que provam isso. Por exemplo, nos Estados Unidos, dos vários grupos migrantes do país aqueles que têm a formação mais elevada são os nigerianos.

Pensamos nos migrantes africanos, sobretudo, como desesperados a tentar o eldorado europeu. Mas há outra migração africana que é de pessoas altamente qualificadas.
Exatamente. O sistema nacional de saúde na Grã-Bretanha tem cerca de 5 por cento dos seus enfermeiros que são de origem africana. Portanto, há uma outra migração altamente qualificada que muitas vezes é binacional. Passa despercebida nas estatísticas, porque são indivíduos que, por causa até do seu nível de integração, facilmente conseguem acesso às nacionalidades dos países de acolhimento. Acabamos por ter uma impressão distorcida dos migrantes. Mas a definição de migrante das Nações Unidas inclui todos aqueles que nasceram num país e vivem noutro, independentemente da nacionalidade e dos documentos que tenham. E, segundo essa estatística, agora há cerca de 250 milhões de pessoas no mundo que têm essas características. E, desses 250 milhões, se nós formos ver a estatística em termos de continentes e não de países, a África é o que tem menos. E, dos africanos que emigram, 80 por cento emigram para um outro país africano. Estamos a falar de cerca de 20 por cento dos migrantes africanos que vão para fora de África. O que constitui, em termos de números das Nações Unidas, um lote na migração mundial extra-continental de cerca de 26 por cento dos migrantes mundiais. E a Europa tem 34 por cento. Portanto, a Europa tem mais migrantes do que África.

O que contraria os discursos populistas…
Se nós formos olhar só a migração da África para a Europa, os números também são muito claros. Estes números são da Frontex, nem são das Nações Unidas. Mostram que 94 por cento dos africanos que vivem na Europa, migrantes, são pessoas que entraram legalmente. Portanto, há 6 por cento que entram ilegalmente. E desses 6 por cento temos uma grande percentagem que chega pelo Mediterrâneo, que são objecto da atenção da media e da opinião pública. Mas são números muito pequenos. No ano passado, havia muito mais do que neste ano. E no ano anterior havia muito mais do que em 2018, e por aí fora. Tem vindo a diminuir de uma forma acentuada.

Portanto, quando diz que são legais, significa que, obviamente, os países de acolhimento estão a incentivar essa emigração.
Estão, pelo menos, a dar os vistos. As pessoas não transgrediram a modalidade de visto que tiveram. Senão, são ilegais. É um número muito pequeno. Mas é um número que encanta as estatísticas e que faz discutir muito.

Mas olhando então para os países africanos. Essa perda de pessoas qualificadas, essa perda também de juventude, é uma das explicações dos problemas do continente?
Acho que não, porque a diáspora está a contribuir de uma forma muito clara para o desenvolvimento dos países. Porque é que digo isto? Porque durante bastante tempo a diáspora tinha perdido as conexões com os países de origem. Por várias razões. Havia problemas de comunicação, os transportes não eram o que são hoje, o acesso à Internet não era o que é hoje, etc… Nós, hoje em dia, temos uma situação em que a conexão entre a diáspora e as famílias dos países de origem é muito maior. E isso traduz-se, por exemplo, nas remessas de emigrantes. As remessas de emigrantes, em 2000, eram cerca de seis mil milhões de dólares. Hoje, são 81 mil milhões de dólares, Europa-África.

Isso também significa que a diáspora acredita, de alguma forma, em África?
Não só acredita como contribui mais do que a ajuda ao desenvolvimento. Porque estamos a falar de uma ajuda ao desenvolvimento que estagnou à volta dos 50 mil milhões há mais de uma década e o aumento não vem da ajuda ao desenvolvimento. Vem das remessas de emigrantes. Portanto, quando se pede aos países africanos que estanquem a migração, eles vão dizer que sim, mas na realidade é contra os seus interesses.

Para muitos países, pode ser já uma das principais fontes de divisas.
Claro, sem nenhuma dúvida. É o caso de um país como Cabo Verde, que recebe mais de remessas de emigrantes do que recebe de ajuda ao desenvolvimento. Mas é também a verdade em relação ao Egipto, à Tunísia… É verdade em relação a uma multitude de países. Etiópia, etc. Nós temos aqui uma situação em que não é do interesse dos países africanos estancar a migração. Talvez regulá-la. Mas estancá-la não.

Nos últimos 26 meses, houve 20 mudanças de líder em África

Cabo Verde é muitas vezes apontado como um exemplo não só de sucesso de desenvolvimento, como de sucesso democrático e já com pelo menos duas décadas de várias alternâncias políticas. É um mito dizer que a democracia é uma exceção em África?
Vou dar-lhe uma estatística que talvez seja surpreendente para muitos, mas basta fazer a verificação. Nos últimos 26 meses, houve 20 mudanças de líder em África. Isto é uma média de quase um líder por cada mês e picos. E é essa a realidade. Hoje em dia, como a média de idades da população no continente é de 19 anos, existe uma pressão muito grande para a alteração da estrutura e distribuição de poder. Nós temos muitos debates sobre o que é de facto a democracia representativa em África. Será que pode ser uma cópia do que se faz na Europa? Parece que não. Porque até a Europa está um pouco em crise. Então qual é a situação real do debate da governação em África? É um debate sobre aquilo que nós poderíamos chamar as características intrínsecas da África que precisam mais de transformação estrutural. Transformação estrutural em si é, digamos, oferecer às pessoas novos meios. Como trabalho decente, novos meios de integrar a modernidade… Estamos a falar de tirar as pessoas de uma agricultura de subsistência, que ainda ocupa cerca de 50% dos africanos, para maior produtividade que tem que ver com a era industrial, tem que ver com a urbanização. Nós temos um dos processos de urbanização mais rápidos da história. E essa transformação é muitas vezes equivalente não ao momento político que estão a viver as sociedades ocidentais, mas ao momento político que as sociedades ocidentais viveram há umas décadas. E o que é que elas faziam há umas décadas? Tinham políticas protecionistas que agora são muito difíceis em África, porque o comércio mundial mudou. Tinham acesso fácil à tecnologia, porque a propriedade intelectual não era o que é hoje, em termos de regulação. Tinham, é certo, acesso a métodos de financiamento que hoje em dia são proibitivos para África, por causa da avaliação de risco, e por aí fora.

África chega mais tarde e está a ter de fazer o que fizeram os europeus mas em condições mais difíceis. Em condições muito mais difíceis. E para isso não pode ter um sistema político que seja igual àquele que os países ocidentais estão a viver neste momento. Muitas vezes, as pessoas pensam que tem de ser a mesma coisa…

Não pode ser simplesmente um homem um voto, é mais complexo do que isso?
É muito mais complexo do que isso. Eu normalmente capto essa ideia numa frase. Será que nós devemos democratizar África ou africanizar a democracia? Africanizar a democracia é adaptá-la à realidade local que deve ter determinadas características que permitam uma governação compatível com as necessidades do momento.

Está a falar de incluir, por exemplo, tradições locais de governação…
Exatamente. E consenso, muito consenso. Porque o problema principal da África é o síndrome do vencedor que apara tudo. E para nós podermos respeitar a diversidade, que é fundamental em África, por causa da diversidade étnica, por causa das características que têm que ver com a própria chegada tardia à época da modernidade, nós precisamos necessariamente de construção de consensos, construção daquilo que chamaríamos nação, para que as identidades sejam muito mais nacionais e menos étnicas. E para isso não podemos ter um processo democrático onde há mesmo um voto que pode ser acaparado pela identidade étnica. Tem de ser mais sofisticado.

Falou também que a globalização neste momento dificultava, de certa forma, a governação em África. Nomeadamente umas regras protecionistas que não podem ser feitas. Há uns anos, falava-se da competição dos americanos com os franceses em África e hoje são os chineses que se destacam. África consegue ter a capacidade de aproveitar estas rivalidades em seu favor?
Acho que hoje em dia África – e vê-se isso nas estatísticas sobre investimento estrangeiro direto, sobre o aumento brutal das infira-estruturas, sobre a diversificação das exportações, que ainda é tímido, mas que se iniciou – tem uma capacidade negocial maior, porque há competição. E essa competição, em grande parte, é o resultado da chegada da China.

A China já esteve muito em África, mas agora volta numa perspetiva mais capitalista. Eu acho que é sempre de se notar, de mencionar, o facto de que, do ponto de vista da presença económica, a Europa continua a ter a posição dominante em África. Tanto em termos de stock de investimento, como em termos de evolução do investimento, como também em termos de comércio. África tem a Europa dos 28 como o seu primeiro parceiro comercial. Mas, quando se vê em termos de países, é evidente que a Europa se desmembra num conjunto de países e aí então aparece a China como primeiro. Mas é uma ilusão. O que existe, sim, é um aumento acelerado da presença chinesa em termos de infraestruturas, em termos de comércio, e também cada vez mais em termos de investimento. Mas é preciso dar os números para que as pessoas tenham uma ideia daquilo de que estamos a falar.

Sente-se alguma reação adversa em África à chegada dos chineses?
Os chineses têm um total de 4 por cento do seu investimento global em África. Isto significa que África não é assim tão importante quanto parece. 4 por cento é relativamente pouco e, para um continente inteiro, é um investimento que vale a pena porque é de baixo custo. Por exemplo, a marca de telefones que mais se vende em África é a Tecno, uma marca que foi criada pelos chineses só para África. Portanto, há inclusive um marketing para África em certos produtos que não existem no resto do mundo. É um terreno de experimentação, é um alargamento do mercado e é sobretudo um potencial mercado de consumo para o futuro. Se nós temos uma população tão jovem – é aquela que mais cresce, daqui a muito pouco tempo, em 2034, chegará a ter uma mão-de-obra superior à China e até 2050 terá dois mil milhões de pessoas -, vale a pena investir a baixo custo. O equivalente do que África recebe de investimento chinês é o que recebe o Paquistão. Qual seria o melhor negócio? Pelo mesmo montante ter um continente inteiro ou só o Paquistão? O Paquistão é estratégico para a China, por causa da Índia, mas mesmo assim. Eu acho que, do ponto de vista geoestratégico, eles fazem, com muito pouco esforço, uma zona de influência muito grande. E a nova rota da seda tem um pouco a ver com isso. É um grande projeto de infraestrutura. Para isso, precisava do seu próprio banco, porque o sistema de crédito internacional não comportaria tanto investimento em infraestrutura e não necessariamente o faria da forma como os chineses o fazem. E, portanto, precisavam do seu próprio banco, que é o banco de infraestruturas que a China estabeleceu e que tem um capital superior ao banco mundial, isto só para dar um ideia. E África é ponta final dessa rota da seda em termos de via marítima.

A sua perspetiva é que, na relação África-China, os dois lados estão a ganhar?
Estão a ganhar. A China não quer olhar para o Pacífico, porque o Pacífico tem os seus concorrentes históricos: o Japão, mais antigo, e os Estados Unidos. Portanto, precisa de olhar para o Ocidente e de ocupar uma faixa que, do ponto de vista da sua influência económica, ainda seja possível ocupar. Já é muito difícil ocupar, por exemplo, na Europa, embora haja investimento chinês em portos mediterrâneos para poder chegar à ponta final da rota da seda. Mas é sobretudo a Ásia vista para o Ocidente, não a Ásia do sudeste, onde a China já terá dificuldades, e a África que são os potenciais mercados para conquistar.

Falou há pouco dos dois mil milhões de africanos. Isso é visto quase como uma condenação do continente em capacidade de responder a tanta gente. É assim mesmo dramático ou pode ter esse lado positivo de mais mão-de-obra e mais juventude?
A transição demográfica em África está a acontecer num período em que o resto do mundo está a envelhecer muito rapidamente. Isto nunca aconteceu antes, historicamente. Portanto, nós não conhecemos muito bem os contornos deste acontecimento demográfico. Porque sempre houve transições demográficas a um determinado momento na história das diferentes regiões. A última grande transição demográfica é a que viveu a China e, neste momento, o movimento está a chegar à Índia e a África. São os dois grandes polos de crescimento demográfico que ainda subsistem no mundo. E o que é que isto tem a ver com a economia futura? É que nós vamos ter um economia que é cada vez mais tecnologicamente intensa. Portanto, gera pouco emprego e essa intensidade necessita de outro tipo de emprego, não os empregos que temos atualmente disponíveis nas economias mais maduras, mais desenvolvidas. E, infelizmente, para a Europa, para o Japão e para os países que estão em rápido envelhecimento, esse outro tipo de emprego é necessariamente jovem. Porque é para cuidar, muitas vezes, dos mais velhos. A África vai ser uma espécie de reservatório da juventude mundial a tal ponto que uma em cada duas crianças no mundo, a partir de 2040, são africanas. Até para a preservação da própria espécie nós vamos precisar dos africanos, porque vai haver um envelhecimento muito rápido. Existem já no Japão 78 mil pessoas com mais de 100 anos e é o país mais velho do mundo, mas é uma tendência que é generalizada a todos os países ocidentais. Aquilo que parece ser um problema africano tem de ser visto como parte de um pacto mais global, porque suponhamos que nós queremos ter uma grande rentabilidade das novas tecnologias; telefones inteligentes. Há os que têm a patente, que são países ocidentais. Há os que têm, digamos, o controlo da marca e são países ocidentais. E aí está a maior parte do valor. Há os que controlam a logística e o financiamento e pode dizer-se que são também países ocidentais. Mas depois temos um problema. Onde é que está o mercado de crescimento do consumo? Vai ser a África e a Índia, porque vai haver menos gente ou mais velha, a não ser que se importem pessoas, que se aceite a mobilidade. Se não se aceitar, a população do Japão vai diminuir de 110 milhões para 90 milhões até ao fim do século e há com essa diminuição um grande envelhecimento.

O consumo das novas tecnologias está com os jovens. Porque as novas tecnologias são muito difíceis de ser absorvidas completamente pela população mais envelhecida, à medida que a inteligência artificial for avançando. Portanto, África faz parte do conjunto. Para se poder ter a rentabilidade que permite àqueles que controlam a propriedade intelectual, que controlam a marca, tirar os proveitos que permitem à sua população continuar a ter o nível de vida que tem, precisam de um mercado de consumo que será o mercado africano e o mercado indiano em primeiro lugar. Nós temos de construir uma espécie de pacto global, que não é muito diferente daquilo que Jean-Jacques Rousseau dizia há 300 anos, quando escreveu o contrato social. Ele dizia que temos de exercer uma solidariedade inter-geracional, que passa do âmbito familiar para o âmbito da comunidade. E que depois passou da nação para a região da União Europeia e que agora tem de passar para o mundo, porque os jovens vão estar numa parte do mundo diferente da daqueles que são mais velhos. De uma forma, vá, grosseira, mas que é a grande tendência. Nós vamos preservar o planeta para quem? Para a geração vindoura. Mas preservar o planeta para a geração vindoura é preservar o planeta, em grande parte, para os africanos, porque eles é que são a geração vindoura. Porque estes países têm cada vez menos fertilidade e essa fertilidade é tão baixa que ainda não existem estatísticas, mas existem já estudos que mostram que mesmo uma parte significativa da população que tem nacionalidade e que tem todas as características para serem considerados cidadãos de origem dos países ocidentais, são muitas vezes crianças adotadas, in vitro, etc. Portanto, já não é fertilidade natural. Existe uma tal diminuição da fertilidade, que as formas de substituição da fertilidade natural são cada vez mais disseminadas.

Esse contrato social global é uma evidência no sentido de que é impossível travá-lo. Mas percebe-se que haverá forças políticas, sobretudo na Europa e nos Estados Unidos, que vão tentar travar isso a todos os níveis. Vão tentar travar a africanização do mundo.
Pois, por exemplo. Mas isso não é muito diferente, digamos, do ponto de vista filosófico do que as ideias de Rousseau provocaram na época. Quando ele dizia “não, nós não podemos só cuidar da família, temos de ter estruturas políticas que cuidam da comunidade e depois da nação”, isso também não era pacífico. Houve muitas lutas, houve gente que desistiu e depois foi uma transição política para uma governação mais sofisticada e mais inclusiva. Nós estamos nesse momento de inclusividade que é imparável, mas também há forças que vão ter reações muito negativas em relação a isso. Acho que o fenómeno Trump, o fenómeno Bolsonaro, esse tipo de fenómenos populistas, têm já a ver com isto. É a recusa de discutir demografia, porque também há um problema demográfico sério no Brasil. A transição demográfica no Brasil já terminou, portanto vai começar a envelhecer a população e vai começar a diminuir também. Nós temos essa reacção quase natural daqueles que têm os privilégios se darem conta de que há um desmantelamento do Estado providência e das prestações sociais do Estado. E esse desmantelamento tem a ver com o facto de que o número de contribuintes diminui e o numero de beneficiários aumenta. E o número de beneficiários aumenta e os custos para manter os beneficiários também aumenta, porque a medicina progrediu, há acesso a muito mais possibilidades de tratamentos e exige muito mais dinheiro. Não menos, mas mais dinheiro. Porque dantes era só penicilina e nós estamos agora numa outra fase em que os custos sociais são muito mais elevados do que distribuir penicilina. Isto significa que nós temos de ir buscar os rendimentos que permitem manter o Estado social em algum lugar.

Os portugueses têm aquela ideia de que conhecem muito bem África e se calhar conhecem bem a África lusófona. Mas perceberão como está a mudar rapidamente?
As pessoas têm de perceber que a África de hoje tem um nível de sofisticação maior do que aquele que tinha há uns 15 anos; é uma África que cresce. Tem seis dos dez países que mais crescem no mundo; tem dez dos 20 países que mais crescem no mundo; é uma África que é o segundo destino de investimento em termos de crescimento mundial. Tudo isto parte de uma base muito fraca e baixa, mas, digamos, as tendências são essas.

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