“Angola é fundamental na difusão do Português”

Luís Faro Ramos, presidente do Instituto Camões, destaca o interesse da China pela língua, pois o grande país asiático conta já com 4000 alunos de Português, em 40 universidades. Fala também da cooperação para a difusão do idioma comum com outros membros da CPLP, sobretudo Brasil e Angola. No país africano, o Camões tem, com o Ministério da Defesa Nacional, um projecto de ajuda à Escola Superior de Guerra de Luanda, que tem alunos de todo o continente e faz questão de ter um currículo de ensino da língua adaptado ao de Portugal.

A língua que estamos a usar para conversar, quantas pessoas a usam no dia-a-dia? 

A Língua Portuguesa é falada por mais de 260 milhões de pessoas, que são as populações da CPLP, e a elas juntaria a nossa diáspora, que tem cinco milhões, mais todos os que estão pelo mundo a aprender português. Diria, sem ser muito arriscado, que deve andar à volta dos 270 milhões.

O Português consegue ainda estar entre as cinco línguas mais faladas do mundo? 

Sim, e refiro também que a Língua Portuguesa é a mais falada no hemisfério sul. E a terceira mais utilizada no Facebook.

Atrás do Inglês e do Espanhol? 

Exactamente. A Língua Portuguesa é policêntrica, falada em vários países e em vários continentes. Isso não acontece, por exemplo, com o mandarim e com o hindi, que estão à frente do Português em termos de ranking, mas são faladas num só país. Nas línguas globais, o Português é a terceira.

Esteve recentemente no Botswana, na África Austral, mas não é uma antiga colónia portuguesa. O que faz o Instituto Camões no Botswana? 

O Camões tem uma rede vastíssima, uma rede de promoção da língua que está em mais de 80 países, seja através de presença directa ou de protocolos de cooperação com instituições de ensino nesses países. Aproveitei uma ida à África do Sul para contactar a universidade estatal do Botswana, em Gaborone, onde temos um protocolo de ensino do Português e tivemos a excelente notícia de que as autoridades financeiras da universidade aceitaram a contratação de um segundo docente. Isto é, ao docente que é financiado pelo Camões, que já lá está, vai juntar-se, em Agosto, um segundo docente, o que indicia uma procura crescente e que só nos pode deixar satisfeitos. 
Há outro nível de intervenção no Botswana, porque tem a sede da Organização Regional da União Africana para a África Austral, a SADC, que manifestou interesse em proporcionar aos funcionários o ensino da Língua Portuguesa. Tanto na dimensão bilateral, da universidade, como na dimensão multilateral, através da SADC, nós estamos presentes. Não havendo uma comunidade lusodescendente significativa no Botswana, há sim uma comunidade oriunda de países de Língua Portuguesa significativa, designadamente Moçambique e Angola, e tem interesse em prosseguir os estudos. Há ali um casamento de vários interesses que é bastante satisfatório para o Camões.

Nesta promoção da língua temos de contar como aliados outros países Lusófonos. Ou seja, Angola e Moçambique, em África, e o Brasil, na América Latina. Está a acontecer? 

Sem dúvida, tenho como dos objectivos principais do meu mandato o reforço de duas parcerias: uma é com o Brasil, que é um país da CPLP. Obviamente, pela dimensão incontornável que tem, há toda a vantagem para nós, mas também para todos os países da CPLP, de trabalharmos em conjunto. O Brasil assume-se como um país com uma dimensão diferente, com 210 milhões de habitantes, e tem uma estrutura de ensino de língua e difusão da cultura já bastante avançada e é uma parceria fundamental. Tal como é com Angola. Angola vai ter a presidência da CPLP, estamos a fazer coisas juntos e isso é importante. A outra parceria não é do mundo da CPLP, é com a Espanha. Sobretudo na promoção da língua, temos várias actividades em conjunto com o Instituto Cervantes, uma das quais no âmbito das comemorações do quinto centenário da circum-navegação. Mas voltando à CPLP, nós, portugueses, não somos donos da Língua Portuguesa e só conseguiremos dar outra escala à sua promoção se trabalharmos em conjunto. E é o que estamos a fazer.

Havendo prosperidade em Angola e afirmação regional do Estado Angolano, isso atrai também potenciais falantes da língua naquele espaço geográfico, ou seja, Angola pode ser grande promotora da língua em África? 

Exacto. Estamos, juntamente com o Ministério da Defesa, com um projecto de ajuda à Escola Superior de Guerra de Luanda, que tem alunos de todo o continente africano e faz questão de ter um currículo de ensino de Português adaptado ao nosso currículo de ensino. Em conjunto com a Defesa, enviámos para lá uma leitora, que está em Angola e ajudou a Escola Superior de Guerra a criar um currículo de Português para ensino da nossa língua a nacionais de vários países do continente africano. E, aí está, é o exemplo perfeito do que acaba de dizer: Angola como pólo dinamizador e multiplicador do ensino da língua no continente africano. Esta Angola que vejo hoje, muito interessada nas questões da Língua Portuguesa, é um parceiro fundamental na difusão da língua.

A relação com a CPLP é mais do que a promoção da língua, há também a cooperação, que, a nível do Camões, se faz sentir muito, certo? 

Faz-se sentir bastante. Deixe-me só dizer que Portugal está muito empenhado em dinamizar uma instituição que está sediada na Praia, em Cabo Verde, que é o Instituto Internacional de Língua Portuguesa. Anunciámos, recentemente, uma contribuição extraordinária de 200 mil euros para um programa de bolsas de cientista convidado, um programa a três anos que vai ser desenvolvido pelo Camões, mas também pelo director executivo do IILP. 
A ideia é dinamizar a instituição que, do nosso ponto de vista, mais pode fazer pela dinamização da língua. Na parte da cooperação, temos de pôr de parte o Brasil, porque a nossa cooperação bilateral é centrada nos Países Africanos de Língua Portuguesa e em Timor-Leste. Temos programas valiosíssimos de cooperação com estes países todos. Só para ter uma ideia, temos projectos de cooperação com Angola, Moçambique, Cabo verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Timor. Estamos a falar de um pacote financeiro; são programas de cinco anos, de cerca de mil milhões de euros. Obviamente que o Camões faz a sua parte, mas há outros ministérios que concorrem para este fim: a Defesa, a Administração Interna, a Justiça, a Saúde, a Educação.

Quando acontece uma tragédia como o ciclone Idai em Moçambique, além do que está planeado, há resposta de emergência? 

Sim. Assim que soubemos da tragédia, acorremos imediatamente para as necessidades mais urgentes. Aliás, o Camões fez parte de uma equipa liderada pelo secretário de Estado das Comunidades que se deslocou à Beira, na altura dos acontecimentos. Temos canalizado através de ONG ajuda de emergência a Moçambique e estamos a pensar em criar um mecanismo mais permanente para ajudar na reconstrução. Moçambique, com o qual vamos ter uma cimeira no Verão, é um dos países prioritários da nossa intervenção.

Falou de meios financeiros, que são limitados à dimensão do país. Isso significa que o Camões tem de repensar na sua estratégia de novas prioridades e esquecer algumas antigas? 

Na área da cooperação, há um caminho que estamos a trilhar há pouco tempo e que permite alavancar fundos e meios financeiros que não teríamos à nossa escala bilateral, que se chama cooperação delegada, pois o Camões está certificado pela UE, para executar projectos em países de expressão portuguesa. Na área da língua, o que estamos a fazer é redireccionar o nosso investimento, não descurando o investimento tradicional, que era mais na Europa, mas estamos a redireccionar para novas latitudes onde detectamos grande interesse pela aprendizagem da nossa língua, designadamente a América Latina, África e Ásia Central. 
Importa salientar que abrimos no ano passado um leitorado em Malabo, na Guiné Equatorial, porque é importante acorrer ao ensino da Língua Portuguesa naquele país; abrimos um leitorado em Guadalajara, no México, e outro em Abidjan, na Costa do Marfim. Estamos a olhar para as possibilidades de entrarmos no ensino superior no Cazaquistão e aí sublinho a importância de uma parceria com o Brasil e também no Irão. 
Um exemplo feliz da cooperação com o Brasil é nas Nações Unidas. Em Nova Iorque, estamos a ensinar Português na escola das Nações Unidas, desde o final do ano passado, através de um protocolo de cooperação com o Brasil, e temos aqui uma diversificação de latitudes que corresponde ao interesse actual pela língua. Não posso esquecer a China. Só para ter uma ideia, neste ano, mais de 40 universidades ensinam português na China. Estamos a falar de um universo de, seguramente, cerca de quatro mil alunos universitários e dentro de dois ou três anos haverá 50 doutorados em Português na China. É impressionante!

Esse número esmaga qualquer outro país não Lusófono na aprendizagem de português. 

A nível do ensino superior, sim, é esmagador. Noutros países, temos números superiores em ensino básico e secundário. Outro dado interessante: temos 200 professores a ensinar Português na China e mais de metade são chineses. E aqui gostava de salientar o papel fundamental do Instituto Português do Oriente, que é um pólo de formação de professores não só em Macau, mas na China continental e na região da Ásia Pacífico. 
Macau, 20 anos depois da transição, ganhou uma nova vida Lusófona com espaço para onde os chineses enviam os seus estudantes para se aperfeiçoarem no português. 
É verdade. Macau está com um papel fundamental nesta difusão da língua para o território, desde logo, mas também para a China. Há um ensino de qualidade e tudo isto de algum modo tem participação do Camões, através do IPOR. e tem sido muito gratificante ver a evolução dos números. Uma das linhas de acção do Camões no âmbito da promoção da Língua Portuguesa é trazer as empresas a participar neste esforço. Assinalo, com satisfação, a próxima assinatura de um protocolo com a Sociedade de Jogos de Macau, em que esta empresa contribuirá para a instalação da antena do IPOR em Pequim.

Antes de assumir este cargo no Camões, foi embaixador em Cuba, experiência interessante, porque Eça de Queirós foi diplomata em Havana. Eça revelou-se importante na ligação Portugal-Cuba enquanto esteve lá? 

Muito importante. Aliás, tenho constatado no contacto com outros países daquela região que a questão cultural e as afinidades abrem portas de uma maneira incrível. Sendo Portugal um país que gosta de abrir portas e de fazer diálogo entre zonas do mundo, tive o meu trabalho em Cuba muito facilitado por isso. Apercebi-me de que havia ali vontade de aprender a língua, de saber mais sobre Portugal, obviamente muito influenciada pela passagem de Eça como cônsul.

Eça é uma figura que os cubanos conhecem? 

Conhecem, curiosamente mais como cônsul do que como escritor. Nessa altura, Eça defendia os direitos de trabalhadores que vinham da China para trabalhar nos engenhos de cana-de-açúcar dos espanhóis. Eram pessoas escravizadas e Eça preocupou-se em defender os direitos dessa comunidade e os cubanos não esquecem. Estamos a falar do século XIX e são questões superatuais, a questão dos migrantes e dos direitos. Facilitou muito a minha tarefa como embaixador em Cuba e também a iniciativa de criar um leitorado junto da Universidade de Havana e de criar uma cátedra a que demos o nome de Eça de Queirós.

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