Filhos ingratos de Mandela?

A Opinião de Sousa Jamba

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Sousa Jamba, angolano, jornalista, escritor.

A violência contra africanos na África do Sul está a mexer seriamente com muitos líderes do continente. A União Africana emitiu um comunicado condenando duramente os atos de xenofobia na África do Sul. Na Nigéria, empresas sul-africanas foram alvo de ataques. Vários artistas nigerianos afirmaram que nunca iriam actuar na África do Sul: parece estar em curso o início de uma espécie de boicote cultural do passado.

Devido à sua economia relativamente avançada, assim como uma certa estabilidade política, a África do Sul atrai muitos imigrantes africanos. Quase todos os centros urbanos africanos, que oferecem mais oportunidades, sempre vão atrair gente que quer melhorar a vida. Na própria África Austral, há desenvolvimentos palpáveis que irão reduzir, consideravelmente, a atracão da África do Sul para muitos trabalhadores.

O que é altamente inquietante na África do Sul é que muitas figuras notáveis, e com influência, têm adotado a narrativa que atribui todos os males da sociedade aos estrangeiros. Como sempre, argumentos sustentados por instintos xenófobos ignoram a realidade; há estatísticas, por exemplo, que mostram que, na maioria dos casos, os estrangeiros donos de pequenos negócios têm sido vítimas de crimes violentíssimos na África do Sul. A afirmação de que os estrangeiros têm tirado os empregos aos nativos, também não é válida. A ira dos negros sul-africanos descontentes tem sido dirigida aos pequenos empresários somalis e nigerianos, cujos pequenos negócios dependem muito de laços de confiança na base de clãs ou tribos; gerir esses negócios requer muita disciplina e determinação.

Há uma linha de argumentação que afirma que os negros sul-africanos estão a ser profundamente ingratos ao levarem a cabo atos de xenofobia contra os africanos, porque foram estes que ajudaram na resistência contra o sistema do apartheid. A Nigéria é citada como o país que muito deu para o desmantelamento do apartheid. Ter ajudado na luta contra o apartheid não deveria conferir imunidades especiais a nacionais de qualquer país.

Há, porém, sinais bastante esperançosos. Certos líderes sul- africanos estão, cada vez mais, a insistir numa retórica que encaixa o país num contexto regional e internacional. O Presidente Cyril Ramaphosa disse que os atos de xenofobia eram irresponsáveis, porque vão manchar a imagem da África do Sul no continente. Foi bom ouvir entidades com influência a virem a público afirmar que agredir camionistas de outros países iria asfixiar várias indústrias sul-africanas. Há, na África do Sul, uma imensa necessidade de sensibilizar o povo. Um dos problemas, porém, é que os líderes perderam credibilidade, já que muitos são associados à corrupção e falta de transparência. Há quem atribui os elevados actos xenófobos, por exemplo, à falta de quadros íntegros do ANC na base.

Nos anos 1980, nos Estados Unidos, surgiu a figura da “Welfare Queen” ou “Rainha da Previdência Social”. Esta figura era uma mulher negra, gordíssima, com um batalhão de filhos de pais diferentes, que nunca trabalhava, e sobrevivia dos subsídios do Estado. Muitas pessoas da classe média não paravam de gritar que estavam a sustentar estas rainhas preguiçosas. Quando as contas foram feitas, concluiu-se que o americano médio estava é a sustentar milionários e bilionários que faziam tudo para pagar menos impostos. Alguns negros sul-africanos também (indo pelos clipes a serem postados para justificar a xenofobia) acreditam que estão a sustentar o resto do continente.

A maior parte dos imigrantes africanos na África do Sul são zimbabweanos. Isto porque aquele país a norte da África do Sul foi mal gerido por Robert Mugabe. Tenho dito que há dois países no continente africano que, de um dia para o outro, vão passar a ser potências económicas – o que irá surpreender muitos que não estão atentos: a Zâmbia e o Zimbabwe. Até 1964 estes dois países faziam parte da confederação da Rodésia e Niassalândia, hoje conhecido como Malawi. Além do inglês, qual é a língua de origem europeia mais falada no noroeste da Zâmbia? O afrikaans. Os voos de Joanesburgo às cidades zambianas de Lusaka ou Ndola estão cheios de brancos sul-africanos, que operam as minas e várias outras empresas naquele país. O grande desafio das autoridades sul-africanas é dar uma formação académica sólida aos negros, para poderem também trabalhar em várias partes do continente. 0s brancos sul-africanos estão envolvidos em vários projetos no leste do Zimbabwe e Moçambique. É só uma questão de tempo; haverá tantos pólos económicos atraentes na África Austral que irão fazer com que muitos africanos deixem de pensar em emigrar para a África do Sul.

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