Além dos debates sobre literatura, poesia e outras expressões de arte, 26 restaurantes do Pelourinho ofereceram um prato com preço popular inspirado nas comidas típicas de uma área que engloba 20 municípios ao redor de Salvador, onde nasceu o poeta Castro Alves, autor homenageado pela Flipelô em 2019.

Os pratos também foram inspirados no livro “A Cozinha Praiana da Bahia”, de Guilherme Radel.

Em entrevista à Lusa, Guto Lago, ‘chef’ de cozinha do restaurante Villa Bahia, que trouxe ao festival o prato Cuscuz Maragogipano, contou à Lusa que a culinária do Recôncavo baiano nasceu da mistura de influências indígena, africana e portuguesa.

“A culinária baiana, no geral, e do Recôncavo também se inclui nisto, nasceu da mistura da comida indígena, portuguesa e africana (..) Temos estas três etnias enraizadas nesta culinária”, disse.

Segundo o ‘chef’ brasileiro, pratos da região homenageada com traços muito fortes desta miscigenação são o Vatapá, o Caruru e as Muquecas (ensopados) de peixe.

“O Vatapá tem influência portuguesa porque nasce da açorda, um prato típico de Portugal, feito à base de peixes com pão humedecido. No Brasil, isto foi adaptado e entrou a influência dos africanos, com a castanha, o amendoim e o azeite do dendê na composição do Vatapá”, contou.

“Já o Caruru vem do esparregado português, ou seja, de um refogado de legumes. Os índios também faziam refogados com folhas de mostarda ou a taioba. Com o passar do tempo, a influência africana incorporou-se neste prato com a inclusão do quiabo, castanha, amendoim, azeite de dendê e o camarão seco”, acrescentou.

Sobre o prato incluído no menu do Villa Bahia, o Cuscuz Maragogipano, o ‘chef’ contou que conheceu este prato depois de experimentá-lo num restaurante de comida típica chamado Dona Mariquita.

“Eu comi este prato e achei maravilhoso porque ele contém a farinha de mandioca, que veio dos indígenas, o cuscuz, que tem uma influência africana dos berberes, e da carne de fumeiro (carne de porco defumada), que veio do sistema de defumação dos portugueses”, revelou.

Guto Lage também avaliou que a inclusão da gastronomia em um evento literário é algo que atende interesses e necessidades do público.

“A rota gastronómica na Flipelô é algo que combina muito bem. As pessoas vêm visitar, vêm assistir às palestras de literatura e alimentam-se também da cultura contida na história dos pratos. Cada prato tem a sua particularidade e é interessante o comensal saber”, concluiu.

A 3.ª edição da Flipelô temrina hoje.

O evento de cinco dias contou com convidados internacionais com o escritor português Bruno Vieira Amaral, vencedor do Prémio José Saramago e do Prémio Oceanos (2.º lugar em 2018), com “As Primeiras Coisas” (2013) e “Hoje Estarás Comigo no Paraíso” (2017).

Participaram também o escritor alemão Max Annas, o colombiano Rómulo Bustos Aguirre, a mexicana María Vázquez Valdez, os brasileiros Ricardo Linhares e Eliane Potiguara, professora indígena, e a autora nigeriana Oyinkan Braithwaite.

O histórico autor de contos, romancista e jornalista brasileiro Ignacio de Loyola Brandão, autor de “Zero”, que a censura da ditadura brasileira proibiu, foi outro dos protagonistas da festa literária de Salvador.

Além das mesas de debate, o público acompanhou conversas com jovens, lançamentos de livros, saraus e ‘batalhas’ de poesia, além de uma programação virada para o público infantil.

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