Fome, pobreza e alterações climáticas

A Opinião de Filipe Zau

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Filipe Zau, angolano, Ph. D em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais

Os índices crescentes de fome e extrema pobreza, cada vez mais associados às alterações climáticas, continuam a não merecer a atenção necessária por parte dos poderes políticos e dos interesses económicos, para que, a curto prazo, se inverta definitivamente o caminho para a destruição do mundo e da humanidade.

A formação dos recursos humanos resultante de processos educacionais, para além da sua estreita ligação ao desenvolvimento, terá que ser capaz de: “formar e/ou mudar hábitos e mentalidades em face da necessidade urgente de se conservarem contextos representativos da natureza e contextos culturais de alta significação.” 

Não há soluções credíveis para a luta contra as alterações climáticas, ignorando por completo as necessidades crescentes de energia por parte das comunidades carenciadas, tal como não se torna possível abordar as situações de fome e extrema pobreza, sem nos debruçarmos sobre os impactos das mudanças climáticas na agricultura, principal actividade económica nos países pobres. A sustentabilidade corresponde ao “conceito que privilegia o uso de bens naturais/culturais sem descuidar de sua conservação, para que as gerações futuras possam beneficiar deles.” Mas, para que se promova a sustentabilidade ambiental terá de haver, em todo o mundo, uma acção conjunta que se debruce sobre a pobreza mundo e as alterações climáticas.

Repetidamente os ambientalistas afirmam que estamos à beira da destruição da vida humana e têm razões mais do que evidentes para que os levemos a sério: nas cidades, o ar que respiramos vai perdendo qualidade; a água, imprópria para consumo; os alimentos, envenenados com pesticidas, herbicidas e fertilizantes químicos, ou poluídos com corantes, espessantes, acidulantes, aromatizantes e conservantes; a carne é enxertada com antibióticos e hormônios danosos à saúde; os mares e rios tornam-se perigosos para banhos; os peixes e os frutos marinhos, contaminados pelo mercúrio, podem provocar desastres como o de Minamata, no Japão; as guerras infindáveis produzem milhões de mortos; feridos e estropiados, viúvas, órfãos, neuroses, psicoses, doenças orgânicas e desastres urbanos e ecológicos; as experiências nucleares, usinas atómicas e bombas dão azo a que, num minuto, se possa extinguir toda a vida no planeta; o sol se tornou perigoso, por causa da destruição da camada de ozónio…
Passamos por alterações climáticas perigosas, com impacto directo na agricultura e, consequentemente, na principal actividade económica dos países ainda não suficientemente industrializados. Sem que se entenda isto como uma forma alarmista de se colocar a questão ambiental como um desafio a incorporar nas nossas preocupações quotidianas, vamo-nos dando conta que, por exemplo, a invasão do plástico vai matando assustadoramente a vida animal nos rios e nos mares. As florestas vão desaparecendo e abrindo espaço para a desertificação dos solos. A segurança alimentar passar a estar mais comprometida e a extinção de espécies animais e vegetais terá de ser vista com uma questão muito séria. 

Relativamente a Angola, os eventos climáticos mais frequentes estão ligados à pluviosidade e às cheias dos rios, sobretudo, nas províncias da Huíla e do Cunene, colocando um elevado número de populações em situação de deslocadas, face às catástrofes que, todos os anos, provocam. De salientar ainda, as calemas da ilha de Luanda que provocaram o desalojamento de várias famílias. Todos estes factos conjugados contribuem para o aumento da fome e da pobreza extrema, principalmente, nas províncias da Huíla e do Cunene, já que, a agro-pecuária é a principal actividade económica das populações.

Perdem-se colheitas e também muitas cabeças de gado, o que constitui um grave prejuízo para a economia nacional. A interrupção das aulas por longos períodos acaba por prejudicar, todos os anos, a eficiência do processo de ensino-aprendizagem dos alunos e a dificultar o processo de universalização do ensino primário, agravado pelo facto das populações serem pastoris e o nomadismo fazer parte do seu modus vivendi.

Os países em desenvolvimento têm de implementar políticas e práticas de governação para proteger, não só, o ambiente, mas, também, as comunidades pobres que dependem dos recursos naturais.

Concomitantemente, os países mais industrializados têm de assumir as suas responsabilidades, já que são os maiores poluidores, ajudando os países em desenvolvimento a melhorar a sua capacidade de adaptação às alterações climáticas, através de transferências tecnológicas e financeiras. Prefaciando o Greenpeace: “quando a última árvore tiver caído, quando o último rio tiver secado, quando o último peixe for pescado, vocês vão entender que o dinheiro não se come!!”

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