“Como é que numa coligação de três partidos – CNRT, PLP e KHUNTO – o sacrificado foi só um deles? E fundamentalmente o seu líder que é Taur Matan Ruak?”, disse Mari Alkatiri em declarações à Lusa, referindo-se à coligação do atual executivo.

“Taur Matan Ruak foi vítima porque Xanana nunca aceita, na sua aliança, alguém que lhe diga não. Não vejo futuro nenhum para esta nova coligação”, referiu ainda.

Xanana Gusmão anunciou hoje uma nova maioria parlamentar liderada por 34 dos 65 deputados do parlamento. A coligação é liderada pelos 21 deputados do seu partido, o Congresso Nacional da Reconstrução Timorense (CNRT), a força que liderava a Aliança de Mudança para o Progresso (AMP), a coligação que apoiou o atual Governo.

Da AMP permanece o Kmanek Haburas Unidade Nacional Timor Oan (KHUNTO) — cinco deputados –, entrando os cinco deputados do Partido Democrático (PD) e os três dos partidos mais pequenos no parlamento, Partido Unidade e Desenvolvimento Democrático (um deputado), Frente Mudança (um) e União Democrática Timorense (um).

A nova coligação integra 34 dos 65 lugares do parlamento timorense, exatamente o mesmo número de deputados da anterior.

Recorde-se que a rotura da AMP ocorreu depois dos votos contra e abstenção dos deputados do CNRT que levaram ao chumbo do Orçamento Geral do Estado (OGE) para 2020.

Depois desse voto contra a proposta do governo, Taur Matan Ruak disse que a AMP “já não existe”, opinião ecoada numa entrevista televisiva concedida mais tarde por Xanana Gusmão que mantém que a crise política se deveu à decisão do Presidente da República, Francisco Guterres Lu-Olo (que é ainda presidente da Fretilin) se recusar a dar posse a doze membros do Governo, quase todos do CNRT.

Mari Alkatiri diz que Xanana Gusmão apenas está a usar esse argumento como “bode expiatório para os seus fracassos”, escusando-se a comentar sobre se o chefe de Estado aceitará ou não esta nova maioria.

O líder da Frente Revolucionária de Timor-Leste Independente (Fretilin) considerou que a nova aliança anunciada hoje — que marca o corte do CNRT com o PLP do atual primeiro-ministro — é “absolutamente mais fraca na sua base política”.

“É pior que a AMP, porque antes o inimigo era Mari Alkatiri, agora engrossaram as fileiras dos inimigos, reduzindo as dos amigos. Xanana usa todos como instrumentos, como objeto de negócio, como base para se afirmar”, considerou.

“Mas, se o VIII Governo fez menos ou mais, isso não é o mais importante. O mais importante é o comando de Xanana Gusmão durante 12 anos, com 12 mil milhões gastos e 12 municípios na miséria”, acusou.

Alkatiri deixou ainda acusações a Xanana Gusmão e ao seu partido de ter praticado coação para conseguir a aliança hoje anunciada.

“A anterior coligação tinha duas figuras históricas que iam fazer frente à Fretilin. Esta coligação tem só uma figura histórica desgastada e desesperada, que é o Xanana Gusmão, e que anda a construir coligações artificiais na base de coação e de corrupção”, acusou Mari Alkatiri.

“Eu digo isso, e se tiver que o provar, eu provo”, afirmou.

Se, até aqui, a Fretilin tinha que fazer oposição “a duas figuras históricas” — Xanana Gusmão e Taur Matan Ruak -, disse, agora terá ao lado dos seus 23 deputados “Taur Matan Ruak e mais oito deputados”.

“A minha função é fazer uma oposição cerrada no parlamento e fora dele, denunciar toda esta manipulação, toda esta destruição do tecido social, esta corrupção mental e económica. Esta é a minha função”, considerou.

Alkatiri deixou igualmente críticas a José Ramos-Horta, um dos arquitetos da coligação, que ajudou a iniciar os diálogos entre as forças políticas, afirmando que o ex-Presidente “tem sempre uma agenda pessoal a sobrepor-se à agenda nacional e geral”.

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