Governação democrática é a preferida dos africanos

A Opinião de Victor Carvalho

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Victor Carvalho, angolano, jornalista

Um estudo recentemente divulgado pela “Afrobarómetro” revela que mais de dois terços dos africanos consideram que a democracia é o melhor sistema de governação para o continente.

Intitulado “Democracia em África: procura, oferta e o democrata insatisfeito”, o estudo que abrange 34 países, sem qualquer referência específica a Angola, chega à conclusão que 68 por cento dos africanos estão fortemente comprometidos com o sistema democrático e que 78 por cento preferem participar em eleições multipartidárias e não em viver sob um regime ditatorial.

O mesmo estudo, sublinha também que 74 por cento dos africanos condenam a existência de Estados de partido único e 72 por cento são contra a existência de um regime militar.

Ainda de acordo com a “Afrobarómetro”, uma organização que funciona como uma rede pan-africana de pesquisa, estas percentagens variam entre os diferentes países abrangidos pelo estudo. Assim, no que toca à defesa de um sistema de governação democrática, a Serra Leoa regista os índices mais elevados de apoio (84 por cento), enquanto o Eswatini (antiga Suazilândia) fecha a lista com apenas 43 por cento de defensores.

As principais diferenças entre os diferentes países são maiores no que se refere à rejeição de um regime militar, com a Zâmbia a mostrar níveis de rejeição da ordem dos 92 por cento e o Burkina Faso com apenas 43 por cento.

No entanto, a maior diferença entre os 34 países regista-se no indicador que cruza o apoio à democracia com a rejeição de qualquer forma de regime autoritário, com a Zâmbia (67 por cento) e a Mauritânia (66 por cento) a liderarem a lista dos países que preferem a democracia e rejeitam todas as diferentes formas de governo autoritário.

Os dados registados pela “Afrobarómetro”, deixam transparecer que a oferta democrática é menor do que a procura, ou seja, as populações têm menos democracia do que a que desejam, uma vez que cerca de 51 por cento considera que o seu país é uma “democracia plena” ou com “problemas menores”, mas apenas 43 por cento se mostram satisfeitos com o modo como ela funciona.

Os homens, com idade entre 46 e 55 anos, das zonas urbanas e que habitualmente debatem política com amigos e familiares, são aqueles que mais reclamam e manifestam apoio a um sistema de regime democrático.

Este estudo é organizado desde 2000 com estas mesmas questões, de modo a tentar perceber a evolução e eventuais mudanças na preferência da população africana relativamente aos diferentes regimes políticos. 

Os dados agora publicados, de acordo com os organizadores deste estudo, foram baseados em 45 mil entrevistas realizadas nos 34 países abrangidos entre 2016 e 2018, entre os quais está Angola.
Entretanto, num relatório agora publicado pelas Nações Unidas, é referido que a fome em África tem aumentado devido aos vários anos de declínio económico e aos conflitos que ainda perduram nalgumas regiões do continente.

Segundo esta organização, esses condicionamentos comprometem seriamente os esforços de erradicação da fome no continente, respaldados como objectivos explícitos do Programa de Desenvolvimento Sustentável 2030.

Este relatório das Nações Unidas, intitulado “Visão Geral Regional da Segurança Alimentar e Nutricional em África”, dá conta que 237 milhões de pessoas na África subsaariana sofrem de desnutrição crónica.

Elaborado em conjunto pelo Escritório Regional da FAO para a África e a Comissão Económica das Nações Unidas para África (CEA), este mesmo relatório sublinha que dos 257 milhões de pessoas que sofrem de fome em África, 237 milhões vivem na África subsaariana e 20 milhões na África do Norte.

A ONU indica que em relação a 2015, África conta com 34,5 milhões de pessoas subnutridas a mais, das quais 32,6 milhões em África ao Sul do Sahara e 1,9 milhão na região norte do continente.
No cruzamento dos dados destes dois estudos, verifica-se que não obstante o aumento do número de africanos subnutridos são cada vez mais os que consolidam a consciência de que é melhor viver num regime democrático do que num sistema autoritário, onde as liberdades e garantias são pisoteadas por aqueles que tudo fazem para se manter no poder.

Com a diminuição da intensidade e da gravidade de alguns conflitos armados que têm afectado o continente, como no Burkina Faso, Sudão do Sul e na República Centro Africana, por exemplo, onde foram assinados animadores acordos de paz, começam a ser construídos os alicerces para que o aumento do número de países pacificados possa representar uma mais-valia para resolução de alguns problemas que afectam as populações, desde logo a diminuição dos casos de subnutrição actualmente existentes.

Sendo este um dos grandes objectivos do Programa de Desenvolvimento Sustentável 2030, patrocinado pelas Nações Unidas, muito ainda há a fazer para que nos onze anos que ainda faltam para a sua conclusão, a actual situação possa ser ser efectivamente revertida para que a opção por uma governação democrática possa ser complementada com um modo de vida mais digno.

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