“As instituições [do Brasil] não sofreram um abalo, mesmo hoje. Você continua tendo liberdade, imprensa livre, o Parlamento funciona, a Justiça. Você não tem medo. Pode piorar? Pode. A democracia tem que ser cuidada, sempre”, afirmou.

“Não tenho a visão de que inevitavelmente o Brasil vai [piorar] porque o Presidente [Jair Bolsonaro] é de direita, o seu grupo de referência é atrasado, reacionário, antiquado em muita coisa”, acrescentou.

Para Fernando Henrique Cardoso, há no Governo grupos que têm o pensamento anacrónico, que definiram um inimigo que não existe, chamado marxismo cultural e o globalismo.

O ex-Presidente brasileiro comparou a transição de poder com [Luís Inácio] Lula da Silva em 2002, considerada exemplo de civilidade, ao clima atual de polarização no país.

“Houve um esforço consciente para organizar regras democráticas de transição […] Na campanha eleitoral são forças antagónicas se chocando, mas quem assume o poder tem a obrigação de contribuir para baixar a tensão”, argumentou.

“O Presidente no Brasil tem um pouco de poder moderador na mão. Ou ele usa para baixar a tensão, ou cria uma divisão na sociedade que se tornará muito difícil para ele próprio depois. Eu sempre procurei não ter atitude partidária”, acrescentou o ex-Presidente brasileiro.

O antigo chefe de Estado também disse à Folha ser favorável a prisão após julgamento em segunda instância, tema que começou a ser discutido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) brasileiro na última quinta-feira.

Atualmente no Brasil é permitida prisão após julgamento em segunda instância, mas há uma tendência de que este tribunal poderá mudar de entendimento e, se a mudança acontecer, o ex-Presidente Lula da Silva, preso desde abril de 2018 em regime fechado, poderá ser libertado.

“Não pega só o Lula da Silva, é muita gente. [Mudar] tem consequências complicadas. Se houve algum avanço é que gente que roubou, sendo poderosa ou rica, foi presa. Prender porque a lei manda é um avanço democrático grande”, concluiu Cardoso.

Sem cargo público desde que deixou a Presidência, Cardoso lança hoje o quarto volume de seu “Diários da Presidência”, pela editora Companhia das Letras, em que aborda o biénio final do seu segundo Governo (2001-2002).

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