A autora de um estudo sobre alcoolismo em São Tomé e Príncipe, Isabel de Santiago, considerou hoje que o Governo do país “põe em causa a sua idoneidade”, após este ter anunciado uma queixa-crime e repudiado os resultados da investigação.

“Este Governo põe-se em causa, tal como à sua idoneidade. Possivelmente para esconder os resultados?”, questionou a investigadora luso-são-tomense, numa resposta enviada por escrito a questões da agência Lusa, reagindo assim ao anúncio hoje feito pelo executivo são-tomense de que irá processá-la.

O estudo, que será publicado em abril pela “Acta Médica Portuguesa”, revela um consumo excessivo de álcool pelas crianças e jovens em São Tomé e Príncipe.

“O Governo da República Democrática de São Tomé e Príncipe, repudiando o comportamento de pessoas com interesses inconfessáveis, políticos e de politiquices, ou de estudos de investigação, exige que a mesma [a autora do estudo] peça desculpas públicas aos são-tomenses, principalmente às inocentes crianças, e anuncia que, face à gravidade da situação, vai apresentar uma queixa-crime contra a sra. Isabel de Santiago, por danos irreparáveis à imagem do país e dos seus habitantes”, anunciou hoje o executivo, através de comunicado lido pelo secretário de Estado da Comunicação Social, Adelino Lucas.

Isabel de Santiago recordou que o processo foi autorizado pelo atual primeiro-ministro, Jorge Bom Jesus, em novembro de 2013, enquanto ministro da Educação do Governo então liderado por Gabriel Costa, tendo sido recolhidos nesse ano e no seguinte os dados para o inquérito nacional.

Numa carta enviada a José Pereira Miguel, presidente do Instituto de Medicina Preventiva e Saúde Pública da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL), de 06 de novembro de 2013, a que a agência Lusa teve acesso, Bom Jesus informa que o Governo acolhe “com muito prazer e interesse” o projeto, tendo em conta “o alerta e notícias que indiciam consumos de substância nocivas (lícitas e ilícitas) no país” e entendendo serem “cada vez mais necessárias” a aplicação de “medidas de prevenção em meio escolar”.

Em declarações à Lusa, Isabel de Santiago afirmou que as bebidas alcoólicas estão no primeiro lugar da tabela de produtos importados pelo país, enquanto o leite está em sétimo, de acordo com dados do Guia do Investidor.

“Além do álcool importado, existe o produzido pela cervejeira nacional”, Rosema, acrescentou.

Mas, “mais grave”, alertou, “são os álcoois tradicionais que, além de não terem qualquer controle sanitário na fabricação, são produzidos e também não são contabilizados”.

A investigadora adiantou que, “em entrevistas qualitativas, as professoras do ensino básico mencionam que crianças chegam alcoolizadas porque as mães lhes dão ‘cacharamba’ para matar lombrigas”.

Isabel de Santiago advertiu para a necessidade de a comunidade — quer a são-tomense quer a internacional – dar uma resposta ao problema do alcoolismo em São Tomé.

“São Tomé está fechado sobre si. É necessário a comunidade pôr os olhos depressa, sob pena de a população ficar dizimada por este flagelo”, disse.

Citando o World Drug Report, “álcool e drogas vão dizimar África, e as crianças e jovens são as principais vítimas”, referiu.

Perante a afirmação do Governo de que “a investigadora não cumpriu as formalidades exigidas pelas leis da República Democrática de São Tomé e Príncipe” e que “não se deve dar credibilidade” ao estudo, a investigadora considerou que “o país em causa envergonha a comunidade científica e, pior, demonstra a enorme fragilidade política e social em que se encontra”.

“Aliás, ciência em São Tomé e Príncipe é inexistente. As pessoas não contam”, criticou.

Isabel de Santiago recordou que os resultados do estudo foram publicados em 13 de maio de 2015 e “entregues todos os relatórios” ao então ministro da Justiça, Roberto Raposo, do Governo liderado por Patrice Trovoada (2014-2018).

No ano seguinte, os resultados foram apresentados em conferências internacionais em Curitiba (Brasil) e Atlanta (EUA).

Os dados foram aprovados pela Comissão de Ética do Centro Académico de Medicina de Lisboa e pelo Conselho Científico da FMUL, tendo ainda sido sujeitos a um parecer técnico-científico emitido pelo corpo editorial da “Acta Médica Portuguesa”.

“Todos os dados do inquérito com 110 perguntas serão publicados, em fases”, garantiu.

Sobre a posição do Instituto Nacional de Estatística são-tomense, que referiu não ter sido solicitado para este estudo, Isabel de Santiago respondeu que entendeu ser “indispensável a análise de dados estatísticos, recolhidos junto das instituições ligadas aos setores da educação, da saúde e das finanças” locais, tendo ainda recorrido aos censos de 2012.

A equipa de investigação integrou também os professores Ruy Ribeiro (coordenador de bioestatística e biomatemática), Rui Tato Marinho (diretor do serviço de gastroenterologia do Centro Hospitalar de Lisboa Norte e professor agregado na FMUL), Leonor Bacelar Nicolau (especialista em economia da saúde da FMUL) e José Pereira Miguel (especialista em medicina preventiva).

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