José Maria Neves, que chefiou o executivo cabo-verdiano de 2001 a 2016, falava à Lusa à margem do Fórum Angotic Angola 2019, a maior feira de tecnologia que decorre de terça a quinta-feira no Centro de Convenções de Talatona, a sul de Luanda, e em que foi um dos oradores no painel “Estratégia para a Transformação Digital”.

O também antigo líder do Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV- de 2000 a janeiro de 2016) indicou estar a seguir “com grande interesse” os desenvolvimentos tecnológicos em que Angola está a apostar, defendendo, porém, que as autoridades de Luanda têm de “acelerar o passo”.

“Angola está a apostar claramente na integração no mundo digital, estamos numa nova era em que as mudanças estão a acontecer a uma velocidade estonteante, e é fundamental que os Governos tomem medidas rápidas e estratégicas, no sentido de se adaptarem ao novo momento da chamada quarta revolução”, afirmou.

“Trata-se de um país com as dimensões e a importância estratégica que tem no continente e no mundo, pelo que é muito importante que acelere o passo e organize fóruns desta envergadura”, acrescentou José Maria Neves, que está a terminar a tese de doutoramento em Relações Internacionais, que espera concluir até dezembro.

O antigo primeiro-ministro cabo-verdiano, que se escusou a falar sobre política, nomeadamente se pretende regressar para se apresentar às eleições presidenciais de 2021, mostrou-se orgulhoso de Cabo Verde ter sido um dos países a quem Angola recorreu para perceber a transformação tecnológica iniciada no arquipélago em 2008.

“Pudemos partilhar várias experiências [com Angola], ver como Cabo Verde definiu a sua estratégia, os caminhos que escolheu, a forma como implementou. A nossa perspetiva foi sempre de governação integrada, integrar serviços, e de garantir que os cidadãos e as empresas pudessem ter um outro relacionamento com o Estado, ter a vida completamente facilitada para termos um bom ambiente de negócios, mais eficiência e mais transparência e mais possibilidade de prestar contas no país”, realçou.

“[Em Cabo Verde] conseguimos também aproveitar as tecnologias informacionais para acelerar o ritmo de crescimento e da transformação económica. Podemos partilhar as boas práticas, Angola está também com uma estratégia integrada muito interessante, já fez coisas interessantes e agora é necessário acelerar o passo e socializar experiências positivas que existem em Cabo Verde, no Ruanda e noutros países africanos”, sustentou.

Exemplificando, José Maria Neves lembrou que as “trocas de experiências” entre os dois países permitiram que Angola tenha hoje “muitos serviços” semelhantes aos que Cabo Verde está atualmente a prestar, como os Serviços Públicos Eletrónicos (SEPE), parecido à “Casa do Cidadão”.

“[O SEPE] é um caminho que se poderá fazer para chegar ao que nós fizermos com a Casa do Cidadão. Temos todo o sistema integrado de gestão financeira e orçamental, que é também inovador, ganhou até um prémio de inovação e administração em África. Temos o Sistema Nacional de Identificação e Autentificação Civil (SNIAP), que permite a documentação das pessoas na hora, mas também permite a realização de eleições por voto eletrónico, permite a melhoria substancial do ambiente de negócios”, argumentou.

“É um conjunto de plataformas que criámos e que podem servir aqui para troca de experiências com Angola, e que, de algum modo, vejo também que Angola está agora a experimentar e que está a fazer o seu caminho”, acrescentou.

Questionado pela Lusa sobre como vê, agora que está afastado da vida política ativa, a evolução da transformação digital em Cabo Verde – o Movimento para a Democracia (MpD) lidera o Governo desde 2016 -, José Maria Neves considerou que o país, neste domínio, registou “algum abrandamento”, pelo que deve agora acelerar.

“Acho que, nos últimos anos, tem havido algum abrandamento da velocidade. Aqui, temos talvez de, em vez de abrandar, acelerar o passo. Mas as plataformas estão lá, há coisas novas que estão a ser criadas e é importante que se acelere o passo. A massa crítica está aí, há capacidades humanas, há talentos, há infraestruturas criadas, há ideias inovadoras. O mais importante neste momento é manter um ritmo acelerado de transformação nesta área digital”, concluiu.

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