Identidade e “crise” de etnicidade

A Opinião de Filipe Zau

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Filipe Zau, angolano, Ph. D em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais

A identidade é constituída por uma multiplicidade de elementos, que, evidentemente, não se limitam apenas, aos que figuram nos nossos registos oficiais. A identidade nacional, que nos é conferida pelos nossos bilhetes de identidade, passaporte ou carta de condução, não significa a amputação de outros sentidos de pertença.

Isabelle Taboada-Leonetti, investigadora do campo da psicologia social e da sociologia, considera a existência de um duplo sentido teórico no conceito de identidade: como “consciência subjectiva e, portanto individual, conceito do campo da Psicologia”; e como “relação com o outro, interacção do campo da Sociologia”. Para Taboada-Leonetti “as estratégias identitárias são o resultado de elaboração individual/colectiva dos actores, variando em função das situações e dos contextos e consequência dos objectivos dos mesmos”.

Para a maior parte das pessoas, há um sentido de pertença a uma nacionalidade (por vezes duas), a uma tradição religiosa, a um grupo étnico ou linguístico, a uma família mais ou menos alargada, a uma profissão, a uma instituição, a um determinado meio social… Mas a lista é bem mais extensa e virtualmente ilimitada.

Pode-se sentir um sentido de pertença, mais ou menos forte, a uma província, a uma aldeia, a um bairro, a um clã, a uma equipa desportiva ou profissional, a um grupo de amigos, a uma empresa, a um partido político, a uma associação, a uma comunidade de pessoas que partilham as mesmas paixões, as mesmas preferências sexuais, as mesmas diminuições físicas ou que se acham confrontadas com os mesmos problemas.

Estas identidades ou sentidos de pertença não têm, evidentemente, a mesma importância, pelo menos, não ao mesmo tempo. Mas nenhuma delas é totalmente desprovida de importância. Elas são os elementos constitutivos da personalidade, poder-se-ia quase dizer “os genes da alma”, na condição de particularizarmos o facto de que, na sua maior parte, esses sentidos de pertença não são inatos. “A identidade não é algo que nos seja entregue na sua forma inteira e definitiva, ela constrói-se e transforma-se ao longo da nossa existência”. Quem o afirma é o franco-libanês Amin Maalouf, no seu livro «As Identidades Assassinas».

Tanto as velhas como as novas identidades constroem-se sob a representação grego-romana da tensão “demos” e “ethnos”. Na antiguidade clássica, numa mesma “polis”, como Atenas, havia uma comunidade de cidadãos com direitos políticos e jurídicos, que exercia o poder sobre si própria e sobre todos aqueles que eram considerados inferiores: escravos e metecos (forasteiros estrangeiros que tinham autorização para residir em Atenas, sem terem, no entanto, os mesmos direitos que os atenienses). Tal como o “populus” romano se opunha às “gentes” ou “nationes”, que existissem dentro ou fora do império, o “demos” das cidades gregas opunham-se aos “ethnoi” dos estados tribais vizinhos.

Mais tarde, o termo “etnia” surge em oposição aos estados ocidentais ditos “civilizados” e o conceito de “etnia” passa a corresponder às exigências do enquadramento administrativo e ideológico da colonização, permitindo assim dividir as populações conquistadas, encerrando-as em demarcações territoriais e culturais homogéneas. Nesta conformidade, a cristalização das etnias remonta a processos de dominação política, económica e ideológica de um grupo em relação a outro e algumas etnias, supostamente, tradicionais em África, não passam de criações coloniais.

Como as culturas não são autocontidas, a noção de etnia, mesmo nos nossos dias, poucas vezes tem sido visto como um conceito dinâmico, onde os indivíduos e os grupos societais são ou deixam de ser membros de uma determinada etnia, de acordo com o espaço e o tempo. Jean-Marc Ela, sociólogo, antropólogo e teólogo camaronês, afirmava no seu livro “Restituir a História às Sociedades Africanas; Promover as Ciências Sociais na África Negra”, que “os sobressaltos de um mundo durante muito tempo chamado ‘primitivo’ obrigam a rever os métodos de abordagem nas sociedades onde o apelo dos longínquos e o exotismo da descoberta, a sedução do estranho ou o fascínio do ‘selvagem’ mobilizavam o etnólogo”.

As sociedades tradicionais, durante muito tempo dominadas pela oralidade, são hoje afectadas pela economia de mercado e, face a um acesso crescente aos audiovisuais, são influenciadas pelas elites no poder para a construção de um sentido de pátria ideológica nos países africanos a que pertencem, tendo inclusive acesso à publicidade de toda a espécie em programas televisivos e radiofónicos.

Para utilizar a expressão de Jean-Marc Ela, há um “escândalo” que deve ser assumido: “As sociedades ditas tradicionais estão em crise”.

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