Um dos oradores do encontro de diálogo nacional sobre combate ao crime organizado na Guiné-Bissau, a decorrer em Bissau, pelas Nações Unidas e o Governo guineense, Miguel de Barros, explicou à Lusa os contornos do fenómeno, quem o produz e a quem beneficia.

Investigador sénior do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (INEP), Miguel de Barros indicou que os cinco principais recursos naturais do país (petróleo, fosfatos, areia pesada, pescado e madeira) são explorados por países com interesses geoestratégicos na Guiné-Bissau.

Na exploração dos fosfatos e areias pesadas estão empresas russas, a China tem interesses no peixe e na madeira, os Estados Unidos de América em petróleo e a União Europeia nas pescas, afirmou Miguel de Barros, diretor executivo de uma organização não-governamental, a Tinguena, que se destaca na defesa do ambiente e conservação de espécies.

“Quando falamos de Rússia, China, Estados Unidas de América, a questão que se coloca é saber qual é a capacidade interna da Guiné-Bissau para fazer frente a estes países em negócios”, questionou Miguel de Barros.

A nível sub-regional, o investigador guineense também admite que interesses geoestratégicos poderão estar a minar as bases da estabilidade na Guiné-Bissau.

“O Senegal mantém um acordo de pesca artesanal com a Guiné-Bissau e a Guiné-Conacri é o maior exportador de peixe fumado, quando se sabe que grande quantidade desse produto vem do nosso porto de Cacine”, referiu.

Os dois países fazem parte da equipa de mediadores da crise política que afeta a Guiné-Bissau há mais de três anos, mencionou Miguel de Barros.

O investigador guineense até compreende que os Estados se guiem pelos seus interesses, mas diz não entender a falta de visão geoestratégica da Guiné-Bissau para fazer face aos países que disse não serem amigos.

Uma outra incompreensão de Miguel de Barros, com os atores do país, é a falta de transparência nos contratos que são assinados para exploração dos recursos naturais.

De todos os que exploram os recursos guineenses, disse o investigador, apenas a União Europeia publicita os contratos, fruto das regras daquele bloco.

Publicidade